Amigos do Santa IsabelÉ bom que se tenha
criado uma Sociedade de Amigos do
Santa Isabel, para acompanhar o
andamento das obras de
restauração daquele prédio de
tanta importância artística e
histórica. É certo que os
membros da nova associação são
em número reduzido, mas isso
não lhe tira a importância. Na
realidade, amigos do Teatro Santa
Isabel devemos ser todos os que
temos raízes familiares em
Pernambuco, ou afinidades
intelectuais com o Recife.
Fechado em
1995, para uma ampla reforma, a
belíssima casa de espetáculos
só deverá funcionar novamente a
partir do ano 2000. Realiza-se no
seu interior um trabalho
minucioso de reconstituição
arquitetônica, inclusive com a
remoção de várias camadas de
tinta, para trazer à luz os
desenhos de suas paredes na
época da inauguração. As cores
originais, sabia-se - a partir da
leitura de documentos -, eram
bordô, violeta e verde musgo.
Do projeto
elaborado pelo famoso arquiteto
francês Louis Léger Vauthier
até a data de inauguração, em
1850, passaram-se nove anos,
segundo registro do pesquisador
Pereira da Costa. Houve o
incêndio, em 1869, e até a
reabertura tivemos mais sete anos
com a casa fechada ao público.
Isso, para não falar em reformas
parciais no decorrer de todo esse
tempo, que interromperam a pauta
de exibições programadas, além
de alguns períodos da falta de
iniciativa para apresentação de
espetáculos à altura da beleza
e tradição da casa. Agora,
está de novo o teatro fechado.
Mas, mesmo assim, não se pode
dizer que ficou inteiramente sem
uso. Em seu interior foram
filmadas recentemente cenas
importantes de um filme nacional
ainda não exibido.
Pelo que se tem
dito, vale a pena esperar pela
reforma, pois tudo está sendo
feito com bastante cuidado.
Apenas houve críticas à
modificação do nível do palco,
mas parece que o protesto valeu.
E redundou na criação da
associação de que falamos no
início deste comentário. Mesmo
fechado ao público, no teatro
parece sempre ecoar a frase ali
pronunciada por Joaquim Nabuco:
"Aqui ganhamos a causa da
abolição".
A programação
de Nabuco corresponde quase a
dizer que ali se iniciou uma nova
fase na história do país, a do
Brasil libertado dos grilhões da
escravidão. O próprio Nabuco,
maior tribuno de seu tempo, e
mais Castro Alves, o jovem poeta
da liberdade, são os dois
representantes mais elevados
dessa conquista, que tem o Santa
Isabel como palco intelectual.
Com discursos e versos, fizeram
florescer a planta da liberdade,
cujas raízes haviam sido
fincadas desde o Século XVI, nos
quilombos construídos pelos
próprios heróis negros, de que
Zumbi dos Palmares é um dos
símbolos mais perfeitos.
Os cinco anos
de duração da atual reforma
foram o tempo julgado necessário
para restaurar aquilo que é
também uma das jóias
arquitetônicas do estilo
neoclássico brasileiro,
considerado por muitos como o
mais importante teatro de câmara
do país. E entre as inovações
anunciadas, um elevador próprio
para deficientes físicos, muitas
vezes impedidos de comparecer aos
espetáculos ali apresentados,
pela dificuldade de acesso, em
face da existência de diferentes
planos, até agora servidos
apenas por escadarias.
Com as verbas
liberadas a conta-gotas, somente
no próximo mês de outubro
deverá ser iniciada a segunda
etapa da reforma, orçada em R$ 4
milhões. O edital da licitação
poderá ser publicado ainda em
setembro. Tem o Ministério da
Cultura ajudado,
parcimoniosamente, esperando-se
algum recurso oriundo da
legislação de incentivo à
cultura, tanto no plano federal
quanto no estadual, para
complementar o esforço
financeiro da Prefeitura da
Cidade do Recife. Mas, não há
razões de otimismo, quando se
sabe que cerca de 78% dos
recursos captados através da
chamada Lei Rouanet foram
aplicados em 1997 em um único
Estado, São Paulo, ficando o
Nordeste inteiro com apenas 2,8%
desses recursos.