REPRESSÃO
Todas as
nuances da libidopor FABIANA MORAES
Observe estas
figuras. A Afrodite de Knidos
(350 a.C.), a Vênus de Milos
(150 a.C.), a Vênus de
Botticelli (do quadro o
Nascimento de Vênus, de 1485), a
Eva de Albert Dürer (1507),
apesar de serem de épocas tão
distantes, possuem um detalhe
único, que se repete em todas as
imagens: todas elas estão
cobrindo o sexo, seja com os
cabelos, a roupa ou simplesmente
a mão. As similaridades guardam,
na essência, uma característica
até hoje observada nas mulheres:
um estranho pudor em relação ao
sexo e a falta de intimidade e
conhecimento com o próprio
órgão genital.
A não
diferenciação entre a vagina e
a vulva é uma das mais latentes
mostras desse pouco conhecimento
do corpo. A vulva é a parte
genital menos explorada pelas
mulheres, muito embora a maioria
das doenças genitais femininas
estejam ligadas ao órgão.
"Ainda se trata a vulva com
muito mistério, apesar dela ser
o primeiro caminho anatômico
para a vida", diz a
anatomopatologista Telma
Campello, professora da
Universidade Federal de
Pernambuco (UFPE) que vem
estudando o órgão há três
anos.
Para Telma,
este comportamento retrata a
antiga ideologia machista e a
repressão sexual feminina, que,
apesar dos tempos, continua a
comandar os hábitos sexuais das
mulheres, só que de forma
velada. "É preciso que as
mulheres aprendam a se tocar, a
realizar o auto-exame na sua
genitália externa. Este
procedimento as levaria a
conhecer melhor a própria
anatomia, além de orientar sua
sexualidade e ajudar a prevenir
doenças no órgão",
explica. Segundo a ginecologista
Isabel Carneiro, o maior problema
em relação à vulva é a falta
de informação.
"Freqüentemente, recebo
mulheres que simplesmente
confundem a vulva com a
vagina", diz.
Só
recententemente a comunidade
médica voltada para a saúde da
mulher começou a realizar
estudos voltados apenas para a
genitália externa feminina, que
até então era chamada de
"terra de ninguém" por
ginecologistas e dermatologistas.
As duas categorias médicas eram
responsáveis pelo trato das
doenças vulvares, e travaram um
verdadeiro embate para finalmente
decidir que especialista cuidaria
da vulva. Os ginecologistas
ganharam a causa e tornaram-se
responsáveis pelo órgão.
"Mas ainda é necessário um
trabalho conjunto com psicólogos
e psicanalistas, pois a
sexualidade é reflexo das
vivências afetivas e
sociais", diz Telma
Campello.
A abordagem
mais profunda e direta das
questões ligadas à vulva pelos
sexólogos, ginecologistas e
dermatologistas ainda é
incompleta e pouco satisfatória,
segundo a professora. "Os
médicos não estão alertas para
as queixas das mulheres em
relação à vulva. Eles não
sabem abordar o assunto e elas,
por sua vez, pouco falam a
respeito. Existe pouca confiança
entre paciente e médico",
opina Telma, acrescentando que
estes especialistas pouco
contribuem para a melhoria da
vida sexual das mulheres.
ORGASMO RARO
- Outra questão pouco
comentada e ainda muito nebulosa
a respeito da vulva é o
fenômeno da ejaculação
feminina, que, apesar de ser
pouco observado, começa a ser
"assumido" pelas
mulheres. O gozo em jato é
muitas vezes confundido com a
urina, e acontece quando, ao
chegar ao orgasmo, a mulher passa
a eliminar fluidos pela uretra,
que chegam a ser expelidos em
forma de pequenos jatos.
"Conheço algumas pacientes
que possuem essa forma de
orgasmo. Ele é raro, mas
acontece naturalmente. Muitas
delas não sabem do que se trata,
e é preciso explicar que aquilo
é absolutamente normal",
diz a ginecologista Isabel
Carneiro.
A advogada
Carmem N., 28 anos, só notou que
possuía este tipo de orgasmo
após ter seu primeiro filho, há
3 anos. "Não me sinto
diferente ou anormal por causa
disso. Não sabia que este
orgasmo era raro", diz
Carmem, que, por encarar o fato
com naturalidade, nunca chegou a
conversar com seu ginecologista a
respeito. Segundo ela, o líquido
expelido durante o gozo chega a
molhar o lençol, mas ela nunca o
confundiu com urina, como
acontece com outras mulheres.
"Não tenho sempre este tipo
de orgasmo, ele é mais comum
quando estou perto do período
fértil ou quando estou com a
libido muito aguçada", diz
a advogada.
O pai do Ponto
G, o médico Ernst Grafenberg,
estudou o líquido e concluiu que
ele não tem função
lubrificante, já que é expelido
apenas no auge e simultaneamente
ao orgasmo. "É apenas uma
característica natural das
mulheres. Ele pode ser
considerado raro porque as
mulheres possuem dificuldade em
falar sobre seus orgasmos, é um
assunto não comentado", diz
Telma Campello.
A ejaculação
feminina está no Protocolo do
Programa Nacional da Saúde da
Mulher, programa do Ministério
da Saúde e promete ser um
assunto bastante comentado e
estudado nos próximos anos. A
ginecologista e obstetra Kátia
Marroquim, que também recebe
casos de mulheres que relatam
experiências sobre o gozo em
jato, concorda com a opinião de
Telma Campello e diz existir uma
espécie de inconsciência
coletiva que leva as mulheres a
negarem a própria libido.
"Fomos criadas e educadas
para não demonstrarmos nosso
prazer", diz.