-...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 06 de setembro de 1998

REPRESSÃO II
Vulva não é conhecida pelas mulheres

São poucas as mulheres que já pegaram um espelho para olhar sua genitália, conhecer sua anatomia, suas formas e peculiariedades. Em tempos onde a sensualidade feminina passou a ser explorada de forma ginecológica pelos programas de televisão, a vulva, assim como a vagina, ainda é relegada a um posto secundário, escondido, proibido de ser analisado seriamente pelas próprias mulheres. "Muitas delas perguntam: 'doutora, como é que a senhora passa o dia olhando para uma coisa tão feia?'" diz a presidente da Sociedade Brasileira de Citopatologia, a ginecologista Raimunda Maranhão.

A vulva é composta pelos grandes e pequenos lábios, vestíbulo (parte central, que inclui o prepúcio, o clitóris e o introito vaginal, ou seja, a abertura da vagina). Por trás do vestíbulo, estão os bulbos vestibulares, que, se estimulados durante o ato sexual, levam a mulher ao orgasmo. Este estímulo, para causar o orgasmo, precisa vir acompanhado da estimulação clitoriana. "Não acredito no orgasmo puramente vaginal, acho muito difícil que uma mulher atinja o auge do prazer sem que haja manipulação ou pressão no clitóris" , afirma a ginecologista Isabel Carneiro. A mulher possui três órgãos eréteis: os mamilos, o clitóris e os cornetos nasais, que sofrem ereção ao serem estimulados por um cheiro excitante.

A anatomopatogista Telma Campello também não crê na existência de um gozo provocado apenas pela manipulação vaginal. Segundo ela, as mulheres que possuem este tipo de prazer teriam o tecido erétil clitoriano estendido pelas paredes da vulva, o que as levaria a atingir orgasmo sem o estímulo direto do clitóris. "Caso estudassem e conhecessem melhor sua genitália, as mulheres, assim como os casais, teriam uma vida sexual bem mais satisfatória", declara a especialista, que cita a perseguição ao médico anatomista Mateo Colón como exemplo da repressão existente sobre o prazer sexual feminino.

"Ele descreveu pela primeira vez, no século 16, a existência do órgão feminino do amor, o clitóris, chamando-o de amor veneris. Por sua descoberta, foi perseguido pela Inquisição pelo resto da vida", conta Telma. A divulgação científica do clitóris foi proibida até o século 18. De acordo com a psicóloga Aída Novelino, que realizou um trabalho sobre a relação entre feminilidade e a maternidade, os órgãos sexuais femininos ainda são tidos como algo sujo, que "acumula" impurezas, enquanto o pênis é mais "limpo", ou mais fácil de ser "purificado". "As mulheres têm interceptado o acesso aos órgãos genitais desde cedo. A ostentação em torno da sensualidade feminina só evidencia o mistério em torno de sua real sexualidade", diz a psicóloga. (F.M.)


     

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