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JOELMIR
BETTING
Lama no
ventilador
O Brasil
escapou ileso do colapso da
Rússia. Mas não teve como
desviar-se do torpedo da Moody's.
A classificadora particular de
riscos financeiros serviu-se de
duas velhas contas brasileiras no
vermelho - a do déficit público
(em alta) e a do déficit
comercial (em baixa) - para
rebaixar o rating dos títulos e
de bancos e empresas brasileiros
pela primeira vez desde 1989. Na
quebradeira da Rússia, a taxa
básica de juros do Banco Central
brasileiro baixou suavemente, na
quarta-feira, de 19,75% para 19%
ao ano. Na sentença da Moody's,
a mesma taxa básica teve de ser
catapultada, na sexta-feira, para
29,75%.
Retomo o
assunto porque estava fora de
combate na semana passada. E
encontro em minha mesa uma
cobrança coletiva de leitores
perplexos sobre a
"intromissão" da
agência Moody's Investors
Services na vida de todos nós.
Uma agência privada mais
poderosa do que o FMI e mais
influente do que todos os
analistas da economia em transe.
Tão poderosa e influente quanto
desinformada e ranzinza, na
opinião do ministro Pedro Malan.
E não apenas
do ministro brasileiro. Também
na avaliação de analistas
americanos e de consultores de
empresas multinacionais que
passaram a investir pesado no
sistema produtivo do Brasil. Eles
lembram que a Moody's, a exemplo
de outras classificadoras de
riscos, não enxergou meio palmo
na cerração do colapso do
México em dezembro de 1994.
Pior: não vislumbrou os apuros
da tigrada asiática em 1997 nem
prognosticou o fiasco do Japão e
a implosão da Rússia em 1998.
Para mostrar
serviço e refazer o prestígio,
a Moody's desanca a
estabilização do Brasil e
engatilha o rebaixamento da
Argentina - a qualquer momento.
No caso brasileiro, o déficit
comercial já passou pelo pior. E
o déficit público é exemplo
saudável de abrangência
conceitual e de transparência
contábil.
Na
abrangência, o déficit público
brasileiro, diferentemente da
maioria dos países classificados
pela Moody's, coloca na mesma
conta as esferas da União, dos
Estados, dos municípios, das
estatais e da Previdência. Na
transparência, o mesmo déficit
brasileiro ousou desencavar,
desde 1994, todos os esqueletos
contábeis amoitados nos
armários da União, dos Estados
e das estatais. Incluidos os
créditos podres do Banco do
Brasil e dos bancos estaduais.
A Moody's não
sabe disso. Nem quer saber disso.
Da mesma forma, não leva em
conta a ampliação de nossas
reservas internacionais em mais
de 20% desde o "crash"
asiático de 31 de outubro. Nem a
redução do déficit externo de
4,4% para 3,9% do PIB, no mesmo
período. E que tal a queda da
inflação brasileira para
índices americanos, europeus e
japoneses?
E o que dizer
do ajuste cambial progressivo?
Nos últimos 12 meses, o dólar
comercial subiu 7,8%, para um
IPA-FGV de 3,3%. A recomposição
cambial já dura 42 meses
corridos.
Um nó
cambial?
Falar em nó
cambial, no caso brasileiro, é
cochilo de interpretação da
crise importada. Porta de entrada
da fuzarca global, o déficit
externo é mero subproduto do
déficit interno. Este,
construído, festivamente, nos
últimos 40 anos e não nos
últimos 4 anos. Nosso nó cego
é o fiscal e não o cambial.
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