- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 09 de setembro de 1998


JOELMIR BETTING

Lama no ventilador

O Brasil escapou ileso do colapso da Rússia. Mas não teve como desviar-se do torpedo da Moody's. A classificadora particular de riscos financeiros serviu-se de duas velhas contas brasileiras no vermelho - a do déficit público (em alta) e a do déficit comercial (em baixa) - para rebaixar o rating dos títulos e de bancos e empresas brasileiros pela primeira vez desde 1989. Na quebradeira da Rússia, a taxa básica de juros do Banco Central brasileiro baixou suavemente, na quarta-feira, de 19,75% para 19% ao ano. Na sentença da Moody's, a mesma taxa básica teve de ser catapultada, na sexta-feira, para 29,75%.

Retomo o assunto porque estava fora de combate na semana passada. E encontro em minha mesa uma cobrança coletiva de leitores perplexos sobre a "intromissão" da agência Moody's Investors Services na vida de todos nós. Uma agência privada mais poderosa do que o FMI e mais influente do que todos os analistas da economia em transe. Tão poderosa e influente quanto desinformada e ranzinza, na opinião do ministro Pedro Malan.

E não apenas do ministro brasileiro. Também na avaliação de analistas americanos e de consultores de empresas multinacionais que passaram a investir pesado no sistema produtivo do Brasil. Eles lembram que a Moody's, a exemplo de outras classificadoras de riscos, não enxergou meio palmo na cerração do colapso do México em dezembro de 1994. Pior: não vislumbrou os apuros da tigrada asiática em 1997 nem prognosticou o fiasco do Japão e a implosão da Rússia em 1998.

Para mostrar serviço e refazer o prestígio, a Moody's desanca a estabilização do Brasil e engatilha o rebaixamento da Argentina - a qualquer momento. No caso brasileiro, o déficit comercial já passou pelo pior. E o déficit público é exemplo saudável de abrangência conceitual e de transparência contábil.

Na abrangência, o déficit público brasileiro, diferentemente da maioria dos países classificados pela Moody's, coloca na mesma conta as esferas da União, dos Estados, dos municípios, das estatais e da Previdência. Na transparência, o mesmo déficit brasileiro ousou desencavar, desde 1994, todos os esqueletos contábeis amoitados nos armários da União, dos Estados e das estatais. Incluidos os créditos podres do Banco do Brasil e dos bancos estaduais.

A Moody's não sabe disso. Nem quer saber disso. Da mesma forma, não leva em conta a ampliação de nossas reservas internacionais em mais de 20% desde o "crash" asiático de 31 de outubro. Nem a redução do déficit externo de 4,4% para 3,9% do PIB, no mesmo período. E que tal a queda da inflação brasileira para índices americanos, europeus e japoneses?

E o que dizer do ajuste cambial progressivo? Nos últimos 12 meses, o dólar comercial subiu 7,8%, para um IPA-FGV de 3,3%. A recomposição cambial já dura 42 meses corridos.

Um nó cambial?

Falar em nó cambial, no caso brasileiro, é cochilo de interpretação da crise importada. Porta de entrada da fuzarca global, o déficit externo é mero subproduto do déficit interno. Este, construído, festivamente, nos últimos 40 anos e não nos últimos 4 anos. Nosso nó cego é o fiscal e não o cambial.

 
 

 

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