-- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 09 de setembro de 1998


NA GRANDE ÁREA
Armando Nogueira

Brisa e tornado

O mar é a grande aventura do irmãos Grael, Lars e Torben. Eles navegam com precisão e amor. Coirmãos dos ventos, cujos caprichos conhecem, desde criança. Como conhecem a manha das águas. Como conhecem o direito e o avesso dos ventos. Brisa e tornado.

Velas túmidas de glórias olímpicas, o barco de Lars Grael não conhecia a truculência da máquina, que golpeia e dilacera, que desfaz a água em sangue, na serena inocência do veleiro.

Amado veleiro, na dor de Lars Grael, eu te dedico os versos memoráveis de Fernando Pessoa: "Veleiros - ai de mim! / Já escasseiam os barcos veleiros nas águas do mar / Quisera ter outra vez, ante meus olhos, / Só veleiros e barcos de madeira / Não saber de mais vida marítima / Que da vida antiga dos mares."

MEIO DE MORTE - Pedrinho é mais um joelho avariado que entra na aritmética hedionda do carrinho. Ninguém dirá, em sã consciência, que o beque do Cruzeiro quisesse aleijar o atacante do Vasco. Mas não há dúvida de que a jogada foi imprudente. O carrinho é um gesto deplorável justamente por implicar alto risco à integridade física. É imprudência e, como tal, culposa.

Jean não foi castigado pelo árbitro. Nem o será pelos tribunais esportivos. Pensando bem, o próprio Jean acaba sendo tão vítima quanto sua vítima. Pois a verdade é que a tal competição de alto nível está levando o esporte, seja qual for, a desfigurar a alma humana. Vive-se a lei do triunfo a qualquer preço. Os joelhos que se danem. Mais importante que o corpo é a performance. Mais importante que a vida é a vitória. Mais importante que a vitória é o lucro.

É só correr os olhos pelas quadras, pelos campos, pelas pistas e o leitor verá a cena constrangedora das tantas pernas atadas em peças ortopédicas com que se pretende minorar o sofrimento físico de atletas estropiados na guerra sem quartel do esporte-negócio. Quem não está assustado com a ruína orgânica provocada pelo flagelo do doping? A farmácia do esporte está mandando pro espaço a divisa olímpica.

O carrinho que estraçalhou o jovem joelho de Pedrinho é apenas um sinal dos tempos impiedosos que vive o esporte. Meio de vida convertido em meio de morte.

ENTRE O PISO E O SISO - Guga, meu bom Guga, diz você que vai abandonar a quadra rápida e voltar a se dedicar ao tênis de quadra lenta. Do cimento pro saibro. Pense bem: será que seu problema é mesmo o piso? Siga com titio Larry, mas recorra a um psicólogo, que é o que faz qualquer atleta em crise de auto-confiança. Você sabe melhor que ninguém: no tênis de alto nível raro é o jogador que não tem um psicólogo de plantão pra lhe segurar a cabeça na hora do aperto.

Antes de trocar de piso, pense em mudar de siso.

UNIVERSIDADE DO ESPORTE - Estive em Curitiba, semana passada. Fui conhecer a Universidade do Esporte, que é uma das coisas mais bem boladas que conheço no campo esportivo. Pode anotar, leitor: o Paraná vai formar uma elite de profissionais científicamente habilitados a dialogar sobre esporte-negócio com as águias do mundo financeiro que estão chegando cheios de gás. Minhas felicitações ao governador Jaime Lerner e ao presidente Sig, da Fundepar. Em tempo: já pedi matrícula, como ouvinte, na Universidade do Esporte.

RÁPIDAS E RASTEIRAS - Com o intuito de realçar a obra prima que eram o Expresso e o Expressinho do Vasco, na década de 40, acabei por trocar as bolas, misturando campeonato carioca e torneio municipal. Levei um bom catrapo de gente bem mais atenta que eu. Perdão, amigos, que a memória fraquejou feio. / / / / / O realce do vôlei, no fim-de-semana, foi, sem dúvida, o triunfo da equipe da Universidade de Guarulhos, com três estrelas de primeira grandeza, em domingo de gala: Ana Moser, Marcia Fu e Vera Mossa. As calouras da equipe não podiam desejar melhor companhia que essas três jogadoras. Esplêndidas criaturas do vôlei brasileiro. Graça a elas, foi-se a invencibilidade da equipe do Leites Nestlé: 3 sets a 1. / / / / / Recebo a revista da "Brasmotor" e fico sabendo que a empresa investe na Oficina de Jornalismo Científico do Observatório da Imprensa. O observatório é coisa séria. Basta ver quem é que toca esse belo barco: Alberto Dines, sempre de clava em punho, vigilante, defendendo a ética do jornalismo, sem esmorecer, jamais. Bola pra frente, mestre Dines. / / / / / Sepp Blatter, aos poucos, vai atualizando a Fifa: agora, no Mundial, quando houver prorrogação, a equipe pode fazer mais duas substituições, além das três já de lei. Um dia, a moda se espalha pra qualquer jogo. Quanto maior a cota de substituições, melhor pro espetáculo. É como no basquete, no vôlei, no futebol americano. / / / / / Um belo dia, o cidadão acorda, decidido: hoje, eu vou comprar todos os produtos de banho, shampus, sabonetes, tudo que é cheiro e todas as roupas e todos os sapatos de grifes anunciadas por Michael Jordan, como garoto-propaganda. Um, de cada. Sabe quanto vai gastar o distinto? Um milhão e sessenta dólares. A conta foi feita pelo jornal americano Indianápolis Star. / / / / / Um truque de Pete Sampras, pra mim, o tenista mais perfeito da atualidade: nos hotéis em que se hospeda, ele quer uma geladeira no apartamento. É pra conservar as raquetes durante a noite. Fora da geladeira, o calor arrebenta todas as cordas, tamanha a pressão que ele usa na raquete. / / / / / Jô Soares está escrevendo um novo romance. A paixão por futebol levou Jô a criar um personagem, um anarquista, que chega ao Brasil e vai torcer pelo Flamengo. É nos bons tempos de Domingos da Guia e Leônidas da Silva, no campeonato de 37. Por sinal, ano de mais um título de campeão do Fluminense, clube de Jô.

 
 

 

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