ENTREVISTA / André de Paula
"Não
podemos adotar o
triunfalismo"Tendo que dividir o
seu tempo entre a presidência do
PFL no Estado e a campanha por
uma vaga na Câmara Federal, o
deputado estadual André de Paula
não disfarça o clima de
satisfação que toma conta da
coligação União Por
Pernambuco, encabeçada pelo
ex-prefeito Jarbas Vasconcelos
(PMDB), por causa das pesquisas.
André, no entanto, descarta o
"já ganhou" e afirma
que a coligação não será
"irresponsavelmente
triunfalista". Ele explica
que, caso Jarbas vença, o PFL e
o PMDB deverão ter uma
coexistência tranqüila no
Governo. Como prova, cita a
Prefeitura do Recife, onde
Roberto Magalhães montou a
equipe que "traduziu com
muita perfeição a correlação
de forças". Nesta
entrevista a Ciro Carlos Rocha e
Nádia Ferreira, André de Paula
também critica o governador
Miguel Arraes, afirmando que ele
estaria sendo "orientado por
marqueteiros" na sua briga
com o vice-presidente Marco
Maciel. E chega a falar em 2002,
defendendo Jarbas, se eleito,
como candidato à reeleição, e
Maciel para a Presidência da
República.
JC - Como é
conciliar a direção do partido
com a candidatura própria a
deputado federal?
André de
Paula - É conciliável, na
medida em que o partido tomou
formatação diversa no processo
eleitoral. As ações normalmente
desenvolvidas pelo partido passam
a ser feitas pela coligação. A
função de presidente passa a
ter menos atribuições, fica
mais fácil de ser exercida.
JC -
Faltando pouco menos de 30 dias
da eleição se vê também um
clima de já ganhou na União por
Pernambuco, já se fala em
secretariado. Vocês estão
certos da vitória. Já se sentem
eleitos?
André de
Paula - Não adianta
disfarçar o clima de grande
satisfação. O que vemos nas
pesquisas, o que sentimos nas
ruas, com a crescente aceitação
não só das propostas, mas dos
candidatos, isso tudo contagia. A
coligação é de políticos
experientes, vividos, forjados na
luta democrática. Jarbas
Vasconcelos já ganhou e já
perdeu eleição, então nós
jamais seríamos
irresponsavelmente triunfalistas.
Não dá para esconder que a
proposta está sendo bem
recebida, que a campanha vai de
vento em poupa, que companheiros
que estavam apáticos, estão se
sentindo contagiados, que é
crescente o número de adesões.
Isso contribui para que o ânimo
seja ainda maior. Não queremos
assegurar apenas a vitória,
queremos garantir a Jarbas uma
sólida governabilidade. Na
medida em que essa vitória possa
ser consagradora, terá como
reflexo direto a eleição de um
senador, a eleição de uma
folgada maioria na
representação de Pernambuco na
Câmara dos Deputados e, também,
a maioria que vai governar na
Assembléia Legislativa. Isso vai
dar a Jarbas a legitimidade do
resultado.
JC - O
senhor falou em dois momentos da
aliança, o da pré-campanha e o
atual. Virá um terceiro momento.
Se Jarbas ganhar a eleição como
indicam as pesquisas, como deve
ser a correlação de forças
entre o PMDB e o PFL no Governo?
André de
Paula - A forma como foram
vencidas as duas primeiras etapas
sinaliza um amadurecimento que
vai permitir vencer a terceira
etapa. Todos que integram a
União por Pernambuco tem um só
objetivo: mudar Pernambuco. Para
isso, temos de fazer com que
Jarbas tenha condições de fazer
um bom governo. Jarbas tem
história e um currículo que
atestam sua competência e suas
condições para governar
Pernambuco. As circunstâncias
atuais colocam, adicionalmente, a
Jarbas um contingente de pessoas
que têm serviços prestados a
Pernambuco e que estavam em
partidos opostos. Ele terá o
problema que Zagallo teve para
escalar a seleção: boa
quantidade de pessoas
reconhecidamente competentes.
Jarbas tem se mostrado, nas vezes
que governou o Recife, muito
atento, muito competente na
escolha de seus auxiliares. Eu
não visualizo nenhum problema
para essa etapa que vem pela
frente. Acho que o maior desafio
não é ganhar a eleição, é
governar Pernambuco e voltar a
fazer com que as forças
públicas que têm a vontade de
governar bem o Estado, estejam
alinhadas. Será uma tarefa mais
fácil do que construir a
aliança num momento eleitoral,
que é muito permeado pela
emoção, onde se refletem as
divergências que muitas vezes
são históricas.
JC - Como
deve ser a participação do PFL
num virtual Governo Jarbas, já
que ele terá como principal base
de sustentação na Assembléia o
PFL e não o PMDB?
André de
Paula - O PFL terá um papel
muito importante, decisivo,
porque tem muitos bons quadros.
Temos convicção que vamos fazer
o senador, José Jorge, que
Jarbas terá como aliado. Isso
tudo com muita naturalidade e
muito amadurecimento vai se
refletir na participação
efetiva dentro do Governo. Como
ocorreu, apesar de muitas pessoas
imaginariam que não ocorreria,
no governo Roberto Magalhães.
Quantas pessoas, até a última
hora, questionavam o tipo de
participação do PMDB no Governo
Roberto Magalhães, que montou a
equipe que traduziu com muita
perfeição a correlação de
forças que o levou até a
prefeitura. Não tenho dúvidas
que Jarbas tem se mostrado muito
hábil nisso até aqui. Fará uma
costura com a mesma habilidade na
hora de colocar o seu time, o
time que vai governar Pernambuco.
JC - No caso
da prefeitura, dr. Roberto
dependia menos da bancada do PMDB
na Câmara, do que Jarbas vai
depender da bancada do PFL na
Assembléia.
JC -
Não vejo essa maior expressão
numérica que o PFL deve ter na
Assembléia como um motivo de
coação, de constrangimento, que
obrigue o governador a ter uma
conduta que ele não deseja. A
relação dessa aliança está em
cima de pressupostos que estão
atendidos: o mesmo compromisso
com as mudanças, com o projeto
para Pernambuco, a consciência
que nós temos de fazer que o
Estado volte a se sintonizar com
o Governo Federal.
JC - Como o
senhor vê esse enfrentamento do
governador Miguel Arraes com o
vice-presidente da República,
Marco Maciel?
André de
Paula - O governador está
sendo orientado por marqueteiros.
Ele tem um passado e por ele a
gente pode fazer avaliação.
Não sou expert na figura
política do governador, mas em
15 anos de vida pública - 10 de
mandato - o que me foi dado a
conhecer do governador, a postura
dele era de maior civilidade,
mais comedido no que dizia, mais
cauteloso. Para mim foi estranho
ver o governador que, há quatro
meses, fez rasgados elogios,
repetindo a frase antológica de
Agamenon Magalhães, de que
Pernambuco só se curva, para
agradecer ao presidente FHC e
meses depois esse mesmo
governador vir a praça pública
reclamar de retaliação. Ou ele
apostou na falta de memória do
povo pernambucano, ou está
seguindo a orientação dos
marqueteiros que escolheram o
vice-presidente como adversário
que ele deveria perseguir. Uma
estratégia que o futuro é quem
vai dizer se vai dar certo ou
não.
JC - É a
primeira campanha em que, entre
os caciques da política
pernambucana, há um
enfrentamento colocando em xeque
Marco Maciel.
André de
Paula - É a primeira vez que
há um enfrentamento e eu diria,
sem nenhum demérito ao
governador, nem nenhuma alusão a
sua idade, que será a última.
É justamente isso que, talvez,
justifique o desequilíbrio
emocional da conduta do
governador. Quem está na última
eleição, não tem mais o que
perder.
JC - E o
comparativo que sempre se faz
entre Maciel e o senador Antônio
Carlos Magalhães (PFL), segundo
o qual ACM briga por recursos
pela Bahia e Maciel não, por
Pernambuco?
André de
Paula - Sou suspeito, porque
os dois são líderes do PFL e eu
sou do partido. São dois
exemplos de sucesso, de
políticos com êxito, de
vencedores. Maciel sempre ganhou
eleição e ACM também. É
preciso que se compare a Bahia a
Pernambuco. Nós temos um estado
bem radicalizado, bem politizado.
Mesmo as eleições mais renhidas
- essa não é uma delas - foram
decididas em Pernambuco no
primeiro turno, porque há uma
clara polarização entre as duas
forças políticas. Para mim fica
impossível imaginar que
Pernambuco desse,
democraticamente, a quem quer que
seja, fosse Arraes, Jarbas,
Maciel, Roberto Magalhães,
Joaquim Francisco, o que a Bahia
está dando a Antônio Carlos. Os
três senadores, mais de 2/3 da
bancada federal, quase 4/5 da AL
e 90% dos prefeitos. Isso é uma
unanimidade impossível de
acontecer em Pernambuco. Aqui
nós somos críticos, nós usamos
muito o peso e o contrapeso.
Temos uma conduta diversa da do
baiano. É preciso analisar essas
características.
JC - Jarbas
Vasconcelos declarou que Maciel,
se não fez mais, é porque o
Governo Arraes não foi mais
atuante. Se Jarbas ganhar a
eleição, tanto ele como Maciel
passa a ter um desafio de trazer
para o Estado mais recursos. Com
isso, o discurso da falta de
recursos federais vai perder
força
André de
Paula - A eleição de
Jarbas, entre outros fatores
positivos, trará um governo que
vai brigar pelos recursos, por
todos os espaços possíveis, que
não vai ficar parado, se
esconder, vai potencializar a
disposição de servir de
líderes como Maciel. Nós vamos
ter a chance de dar uma resposta
muito positiva. Temos a
perspectiva de estabelecer uma
parceria que possa correr atrás
do prejuízo, de ter uma pessoa
de visão, que nos cobre, nos
chame para essa parceria. A
competição entre os estados
hoje é inequívoca, mas quem tem
mais competência, mais
disponibilidade, mais presente, a
melhor equipe, mesmo com poucos
recursos leva uma fatia melhor.
JC - Nos
últimos anos, nenhum governo
admite falta de vontade política
para buscar recursos. O discurso
de todos para justificar a falta
de obras é a escassez dos
recursos. Como será administrado
a vontade política de ir buscar
os recursos e o concreto, que é
a falta de recursos.
André de
Paula - Não desconheço
isso. Não acredito em milagres.
Há um fato concreto. Temos
potencialidades que podem ser
melhor exploradas, uma delas que
é gritante é o peso político,
que é um diferencial. Se
tivermos um governo que gere as
oportunidades para que esse
diferencial se faça sentir,
mesmo com escassez de recursos,
nós vamos crescer. A gente vai
ter um desafio grande pela
frente.
JC - Marco
Maciel, se reeleito, vai terminar
o mandato de vice-presidente em
2002, o que coincide com o final
do próximo governo. Se Jarbas
for eleito, ele deve ser
candidato à reeleição. Isso
não deve complicar a aliança?
André de
Paula - Sem querer fazer
futurologia, mas só aceitando a
sua provocação, vou dizer que
postas as regras que aí estão,
meu candidato a reeleição é
Jarbas Vasconcelos. Não trabalho
com outros pressuposto que não o
de ele vir a ser o melhor
governador que Pernambuco já
teve e, assim sendo, ele será
governador por oito anos. Esta é
a regra do jogo. Maciel termina
sua segunda participação na
majoritária nacional, ele é meu
candidato, é o pole position. É
a pessoa que está à frente da
presidência, você vai dizer que
ainda temos quatro anos. Temos.
Vamos trabalhar é só até onde
eu vou. Isso significa dizer que
Pernambuco só tem o que ganhar,
porque os dois projetos têm como
pressupostos que Pernambuco viva
o melhor momento político -
Jarbas candidato a governador
pela segunda vez precisará ter
sido um grande governador e
Maciel para sair candidato a
presidente terá de partir com
apoio também e muito forte
dentro de Pernambuco.
JC - O
senhor acredita que, se Jarbas
ganhar, terá dificuldades na
transição?
André de
Paula - Desejo que não.
Existe uma série de mecanismos
para evitar que isso ocorra.
Espero que haja espírito
público do atual governo. Essa
é uma questão que a gente vai
conversar a partir do dia cinco
de outubro.