- - - -- - - - - - - -- - - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 09 de setembro de 1998

ENTREVISTA / André de Paula
"Não podemos adotar o triunfalismo"

Tendo que dividir o seu tempo entre a presidência do PFL no Estado e a campanha por uma vaga na Câmara Federal, o deputado estadual André de Paula não disfarça o clima de satisfação que toma conta da coligação União Por Pernambuco, encabeçada pelo ex-prefeito Jarbas Vasconcelos (PMDB), por causa das pesquisas. André, no entanto, descarta o "já ganhou" e afirma que a coligação não será "irresponsavelmente triunfalista". Ele explica que, caso Jarbas vença, o PFL e o PMDB deverão ter uma coexistência tranqüila no Governo. Como prova, cita a Prefeitura do Recife, onde Roberto Magalhães montou a equipe que "traduziu com muita perfeição a correlação de forças". Nesta entrevista a Ciro Carlos Rocha e Nádia Ferreira, André de Paula também critica o governador Miguel Arraes, afirmando que ele estaria sendo "orientado por marqueteiros" na sua briga com o vice-presidente Marco Maciel. E chega a falar em 2002, defendendo Jarbas, se eleito, como candidato à reeleição, e Maciel para a Presidência da República.

JC - Como é conciliar a direção do partido com a candidatura própria a deputado federal?

André de Paula - É conciliável, na medida em que o partido tomou formatação diversa no processo eleitoral. As ações normalmente desenvolvidas pelo partido passam a ser feitas pela coligação. A função de presidente passa a ter menos atribuições, fica mais fácil de ser exercida.

JC - Faltando pouco menos de 30 dias da eleição se vê também um clima de já ganhou na União por Pernambuco, já se fala em secretariado. Vocês estão certos da vitória. Já se sentem eleitos?

André de Paula - Não adianta disfarçar o clima de grande satisfação. O que vemos nas pesquisas, o que sentimos nas ruas, com a crescente aceitação não só das propostas, mas dos candidatos, isso tudo contagia. A coligação é de políticos experientes, vividos, forjados na luta democrática. Jarbas Vasconcelos já ganhou e já perdeu eleição, então nós jamais seríamos irresponsavelmente triunfalistas. Não dá para esconder que a proposta está sendo bem recebida, que a campanha vai de vento em poupa, que companheiros que estavam apáticos, estão se sentindo contagiados, que é crescente o número de adesões. Isso contribui para que o ânimo seja ainda maior. Não queremos assegurar apenas a vitória, queremos garantir a Jarbas uma sólida governabilidade. Na medida em que essa vitória possa ser consagradora, terá como reflexo direto a eleição de um senador, a eleição de uma folgada maioria na representação de Pernambuco na Câmara dos Deputados e, também, a maioria que vai governar na Assembléia Legislativa. Isso vai dar a Jarbas a legitimidade do resultado.

JC - O senhor falou em dois momentos da aliança, o da pré-campanha e o atual. Virá um terceiro momento. Se Jarbas ganhar a eleição como indicam as pesquisas, como deve ser a correlação de forças entre o PMDB e o PFL no Governo?

André de Paula - A forma como foram vencidas as duas primeiras etapas sinaliza um amadurecimento que vai permitir vencer a terceira etapa. Todos que integram a União por Pernambuco tem um só objetivo: mudar Pernambuco. Para isso, temos de fazer com que Jarbas tenha condições de fazer um bom governo. Jarbas tem história e um currículo que atestam sua competência e suas condições para governar Pernambuco. As circunstâncias atuais colocam, adicionalmente, a Jarbas um contingente de pessoas que têm serviços prestados a Pernambuco e que estavam em partidos opostos. Ele terá o problema que Zagallo teve para escalar a seleção: boa quantidade de pessoas reconhecidamente competentes. Jarbas tem se mostrado, nas vezes que governou o Recife, muito atento, muito competente na escolha de seus auxiliares. Eu não visualizo nenhum problema para essa etapa que vem pela frente. Acho que o maior desafio não é ganhar a eleição, é governar Pernambuco e voltar a fazer com que as forças públicas que têm a vontade de governar bem o Estado, estejam alinhadas. Será uma tarefa mais fácil do que construir a aliança num momento eleitoral, que é muito permeado pela emoção, onde se refletem as divergências que muitas vezes são históricas.

JC - Como deve ser a participação do PFL num virtual Governo Jarbas, já que ele terá como principal base de sustentação na Assembléia o PFL e não o PMDB?

André de Paula - O PFL terá um papel muito importante, decisivo, porque tem muitos bons quadros. Temos convicção que vamos fazer o senador, José Jorge, que Jarbas terá como aliado. Isso tudo com muita naturalidade e muito amadurecimento vai se refletir na participação efetiva dentro do Governo. Como ocorreu, apesar de muitas pessoas imaginariam que não ocorreria, no governo Roberto Magalhães. Quantas pessoas, até a última hora, questionavam o tipo de participação do PMDB no Governo Roberto Magalhães, que montou a equipe que traduziu com muita perfeição a correlação de forças que o levou até a prefeitura. Não tenho dúvidas que Jarbas tem se mostrado muito hábil nisso até aqui. Fará uma costura com a mesma habilidade na hora de colocar o seu time, o time que vai governar Pernambuco.

JC - No caso da prefeitura, dr. Roberto dependia menos da bancada do PMDB na Câmara, do que Jarbas vai depender da bancada do PFL na Assembléia.

JC - Não vejo essa maior expressão numérica que o PFL deve ter na Assembléia como um motivo de coação, de constrangimento, que obrigue o governador a ter uma conduta que ele não deseja. A relação dessa aliança está em cima de pressupostos que estão atendidos: o mesmo compromisso com as mudanças, com o projeto para Pernambuco, a consciência que nós temos de fazer que o Estado volte a se sintonizar com o Governo Federal.

JC - Como o senhor vê esse enfrentamento do governador Miguel Arraes com o vice-presidente da República, Marco Maciel?

André de Paula - O governador está sendo orientado por marqueteiros. Ele tem um passado e por ele a gente pode fazer avaliação. Não sou expert na figura política do governador, mas em 15 anos de vida pública - 10 de mandato - o que me foi dado a conhecer do governador, a postura dele era de maior civilidade, mais comedido no que dizia, mais cauteloso. Para mim foi estranho ver o governador que, há quatro meses, fez rasgados elogios, repetindo a frase antológica de Agamenon Magalhães, de que Pernambuco só se curva, para agradecer ao presidente FHC e meses depois esse mesmo governador vir a praça pública reclamar de retaliação. Ou ele apostou na falta de memória do povo pernambucano, ou está seguindo a orientação dos marqueteiros que escolheram o vice-presidente como adversário que ele deveria perseguir. Uma estratégia que o futuro é quem vai dizer se vai dar certo ou não.

JC - É a primeira campanha em que, entre os caciques da política pernambucana, há um enfrentamento colocando em xeque Marco Maciel.

André de Paula - É a primeira vez que há um enfrentamento e eu diria, sem nenhum demérito ao governador, nem nenhuma alusão a sua idade, que será a última. É justamente isso que, talvez, justifique o desequilíbrio emocional da conduta do governador. Quem está na última eleição, não tem mais o que perder.

JC - E o comparativo que sempre se faz entre Maciel e o senador Antônio Carlos Magalhães (PFL), segundo o qual ACM briga por recursos pela Bahia e Maciel não, por Pernambuco?

André de Paula - Sou suspeito, porque os dois são líderes do PFL e eu sou do partido. São dois exemplos de sucesso, de políticos com êxito, de vencedores. Maciel sempre ganhou eleição e ACM também. É preciso que se compare a Bahia a Pernambuco. Nós temos um estado bem radicalizado, bem politizado. Mesmo as eleições mais renhidas - essa não é uma delas - foram decididas em Pernambuco no primeiro turno, porque há uma clara polarização entre as duas forças políticas. Para mim fica impossível imaginar que Pernambuco desse, democraticamente, a quem quer que seja, fosse Arraes, Jarbas, Maciel, Roberto Magalhães, Joaquim Francisco, o que a Bahia está dando a Antônio Carlos. Os três senadores, mais de 2/3 da bancada federal, quase 4/5 da AL e 90% dos prefeitos. Isso é uma unanimidade impossível de acontecer em Pernambuco. Aqui nós somos críticos, nós usamos muito o peso e o contrapeso. Temos uma conduta diversa da do baiano. É preciso analisar essas características.

JC - Jarbas Vasconcelos declarou que Maciel, se não fez mais, é porque o Governo Arraes não foi mais atuante. Se Jarbas ganhar a eleição, tanto ele como Maciel passa a ter um desafio de trazer para o Estado mais recursos. Com isso, o discurso da falta de recursos federais vai perder força

André de Paula - A eleição de Jarbas, entre outros fatores positivos, trará um governo que vai brigar pelos recursos, por todos os espaços possíveis, que não vai ficar parado, se esconder, vai potencializar a disposição de servir de líderes como Maciel. Nós vamos ter a chance de dar uma resposta muito positiva. Temos a perspectiva de estabelecer uma parceria que possa correr atrás do prejuízo, de ter uma pessoa de visão, que nos cobre, nos chame para essa parceria. A competição entre os estados hoje é inequívoca, mas quem tem mais competência, mais disponibilidade, mais presente, a melhor equipe, mesmo com poucos recursos leva uma fatia melhor.

JC - Nos últimos anos, nenhum governo admite falta de vontade política para buscar recursos. O discurso de todos para justificar a falta de obras é a escassez dos recursos. Como será administrado a vontade política de ir buscar os recursos e o concreto, que é a falta de recursos.

André de Paula - Não desconheço isso. Não acredito em milagres. Há um fato concreto. Temos potencialidades que podem ser melhor exploradas, uma delas que é gritante é o peso político, que é um diferencial. Se tivermos um governo que gere as oportunidades para que esse diferencial se faça sentir, mesmo com escassez de recursos, nós vamos crescer. A gente vai ter um desafio grande pela frente.

JC - Marco Maciel, se reeleito, vai terminar o mandato de vice-presidente em 2002, o que coincide com o final do próximo governo. Se Jarbas for eleito, ele deve ser candidato à reeleição. Isso não deve complicar a aliança?

André de Paula - Sem querer fazer futurologia, mas só aceitando a sua provocação, vou dizer que postas as regras que aí estão, meu candidato a reeleição é Jarbas Vasconcelos. Não trabalho com outros pressuposto que não o de ele vir a ser o melhor governador que Pernambuco já teve e, assim sendo, ele será governador por oito anos. Esta é a regra do jogo. Maciel termina sua segunda participação na majoritária nacional, ele é meu candidato, é o pole position. É a pessoa que está à frente da presidência, você vai dizer que ainda temos quatro anos. Temos. Vamos trabalhar é só até onde eu vou. Isso significa dizer que Pernambuco só tem o que ganhar, porque os dois projetos têm como pressupostos que Pernambuco viva o melhor momento político - Jarbas candidato a governador pela segunda vez precisará ter sido um grande governador e Maciel para sair candidato a presidente terá de partir com apoio também e muito forte dentro de Pernambuco.

JC - O senhor acredita que, se Jarbas ganhar, terá dificuldades na transição?

André de Paula - Desejo que não. Existe uma série de mecanismos para evitar que isso ocorra. Espero que haja espírito público do atual governo. Essa é uma questão que a gente vai conversar a partir do dia cinco de outubro.


     

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