- -- - - - - - - - - - - -- - - - - - - -Jornal do Commercio - Recife, 03 de setembro de 1998

PASSEIOS HISTÓRICOS-CULTURAIS
Agências especializam-se no turismo pedagógico

por SÉRGIO ROBERTO LIMA

Quem já não fez aquelas excursões de escola que significavam esquecer os livros e fazer farra até com os professores? As viagens com os companheiros de sala ainda fazem parte do cotidiano dos alunos e a idéia ainda é se divertir. No entanto, na era da globalização, estudante que se preza tem preocupações a mais do que simplesmente voltar com aquele bronzeado ou com fotos e histórias divertidas. A intenção é aliar lazer a cultura. É a vez do turismo pedagógico, segmento que, nos últimos anos, vem se destacando no estado.

A primeira agência desse ramo em Pernambuco foi a Espaço Pedagógico, fundada há seis anos. A idéia, segundo o proprietário, o ex-professor de matemática Carlos Tiburcio Cavalcanti, partiu da experiência de tentar organizar excursões para suas turmas de alunos. "Ou nós, professores, perdíamos muito tempo cuidando dos detalhes de cada viagem ou contratávamos uma agência de turismo convencional e o resultado não era exatamente o que esperávamos", afirma.

Segundo Carlos, a maior vantagem de uma agência especializada nas excursões escolares é justamente a de fazer roteiros adaptados aos alunos, de acordo com a idade e as matérias que se quer abordar. Entram em cena roteiros diferenciados, em destinos para onde jamais se pensou em levar estudantes (a maioria entre 10 e 17 anos) numa viagem convencional - como a região da usina hidrelétrica de Xingó (BA) e a Serra da Barriga (AL).

Em cada lugar, uma oportunidade de "estudar" uma ou mais matérias. No caso de Xingó, dicas de biologia, física e geografia. Já as lições de História do Brasil ficam mais interessantes quando a sala de aula é na Serra da Barriga, no município de União dos Palmares, em Alagoas. Foi ali onde o líder negro Zumbi colocou em prática a maior resistência contra a escravidão de que se tem notícia.

Já a pré-história é enfocada no município de Ingá do Bacamarte, na Paraíba, um dos locais mais procurados para conhecer mais sobre este período. Ali estão inscrições feitas há milhares de anos pelo homem, num grande rochedo conhecido como Pedra do Ingá (veja matéria abaixo).

Às vezes, o destino é até mais conhecido (como no velho e concorrido passeio a Fortaleza), mas a diferença é que, no meio do caminho, há paradas que antes não faziam parte da programação. Um dos pontos de visitação é o Porto de Amaro, local de maior produção de petróleo do Rio Grande do Norte, onde um técnico da Petrobras faz o papel do professor. Conhecer uma salina, em passeio guiado por um químico, é outra oportunidade para aprender um pouco mais sobre o que os livros de química só falam, mas não mostram, antes de se chegar à capital cearense e se esbaldar no Beach Park e em outros pontos badalados.

FORMAÇÃO - Nessas viagens, os guias não são apenas acompanhantes ou animadores das viagens. Eles se tornam professores fora da sala de aula. Por isso, a preparação deles é essencial para uma agência que segue o ramo pedagógico. A partir da solicitação do proprietário da Espaço Pedagógico, o Senac criou um curso de especialização para guias que trabalham com esse tipo de viagem. Dez dos guias da agência participaram do treinamento, a fim atender aos clientes da empresa (95% formados por escolas).

A Dora Turismo, outra agência que oferece excursões pedagógicas, capacitou seus guias através de cursos dados pelos alunos e professores do Mestrado em História da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). "Essa preparação é primordial", diz a proprietária da empresa, Auxiliadora Oliveira.

Outra companhia que passou a lidar com excursões escolares foi a Ostra Turismo, que tem dez anos de funcionamento. Há cinco, surgiu um novo segmento da agência especializado em turismo pedagógico, a Ostra Pedagógica. Só este ano, 3.200 alunos-turistas, do maternalzinho ao 3º ano do segundo grau, já participaram de passeios promovidos pela agência, desde um city tour de uma tarde em Olinda até uma viagem de cinco dias a Xingó.

Apesar de o turismo pedagógico não responder pela maior parte do movimento da agência (40% dos pacotes), três dos cinco funcionários da empresa trabalham exclusivamente com o braço pedagógico da Ostra. "Esse é um setor que está em crescimento", constata um dos proprietórios da Ostra Turismo, Ricardo Vieira.

A vantagem para a empresa que lida tanto com o turismo pedagógico como com o convencional, a exemplo da Ostra, é que não existe baixa estação. Quando acaba o ano letivo, começa o período de férias escolares e é a vez dos estudantes e dos pais aproveitarem as viagens tradicionais.

Mas mesmo as agências que concentram todo o movimento nos estudantes têm trabalho o ano inteiro. "Além dos meses de aulas corresponderem à maior parte do ano, há sempre turmas de formandos da 8ª série e do 3º ano que decidem comemorar a formatura viajando nas férias", diz Carlos Cavalcanti, da Espaço Pedagógico.


     

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