DESVIO
Dinheiro
sujo do Brasil é
"lavado" no Paraguaipor HUMBERTO TREZZI
RBS
Afamado pelo
contrabando de armas e de drogas,
pela falsificação de
eletrônicos e pela aquisição
de veículos brasileiros
roubados, o Paraguai pode agregar
mais uma acusação ao seu
nutrido currículo de
irregularidades: limpeza de
dinheiro sujo oriundo do Brasil.
Investigações da Polícia
Federal brasileira e do
Ministério Público Federal
concluíram que criminosos
brasileiros sonegadores de
impostos, traficantes, corruptos
enviaram R$ 7,5 bilhões, de
forma ilegal, para bancos
paraguaios. A quantia representa
quase o total do PIB do Paraguai,
a soma de riquezas produzidas
naquele país, que é de US$ 8
bilhões anuais. "É a maior
operação de lavagem de ganhos
ilícitos já investigada no
planeta", calcula Celso
Três, procurador da República
no município de Cascavel, oeste
do Paraná.
É em Cascavel
e no vizinho município de Foz do
Iguaçu, na fronteira do Paraná
com o Paraguai, uma zona
colonizada por gaúchos, com
intensa movimentação de todo o
tipo de contrabando, que ocorre a
maior parte da lavagem. A
descoberta surgiu depois da
Comissão Parlamentar de
Inquérito dos Precatórios, que
investigou irregularidades na
venda de títulos públicos
emitidos por Estados e
municípios brasileiros. A CPI
concluiu que parte do dinheiro
obtido com a comercialização
irregular desses papéis foi
parar em bancos paraguaios.
A intensa
movimentação de dinheiro
detectada pela CPI dos
Precatórios chamou a atenção
da Polícia Federal e o
Ministério Público Federal, que
solicitaram à Justiça a quebra
de sigilo dos correntistas que
mais enviaram dinheiro ao
Paraguai. As autoridades
descobriram que, de todas as
atividades criminosas que
resultam em lavagem de dinheiro
na fronteira, a menos expressiva
talvez seja a que resultou da
venda de títulos públicos. O
mesmo estratagema de disfarce dos
lucros obtidos ilegalmente com os
precatórios é usado há anos na
região fronteiriça para limpar
os ganhos de traficantes de
drogas, sonegadores de impostos e
corruptos brasileiros.
Estes diversos
grupos de criminosos mobilizam
uma rede de testas-de-ferro
conhecidos como
"laranjas" para abrir
contas em bancos e intermediar o
envio do dinheiro sujo aos bancos
paraguaios. As contas são
abertas por brasileiros e
paraguaios, em seqüência, de
tal forma que o nome do
verdadeiro dono do dinheiro (o
mafioso brasileiro) jamais
aparece. A operação, com
aparência perfeitamente legal,
é controlada por doleiros dos
dois lados da fronteira.
Tanto o laranja
como o verdadeiro dono do
dinheiro sujo cometem dois tipos
de crimes: envio dissimulado do
dinheiro ao exterior (evasão de
divisas), sem recolher o tributo
correspondente (sonegação
fiscal). O cálculo é que, dos
R$ 7,5 bilhões enviados no ano
passado de forma irregular pelos
brasileiros ao Paraguai, R$ 3
bilhões tenham sido sonegados,
quantia igual ao patrimônio da
Companhia Estadual de Energia
Elétrica (CEEE), a maior empresa
estabelecida no Rio Grande do
Sul.
A denúncia
criminal de apenas um caso, em
Cascavel, rendeu à Procuradoria
da República um processo com 200
investigados e 15 volumes de
relatórios, capazes de lotar uma
pequena sala. A causa envolve
duas mulheres: uma faxineira e
uma ambulante, que teriam cedido
suas contas para o envio de R$ 30
milhões ao Paraguai, sonegando
cerca de R$ 13 milhões em
impostos. O grosso do dinheiro
foi convertido em dólares e
movimentado pela casa de câmbio
Real, em Ciudad del Este.
Graças a novas
quebras de sigilo, o procurador
Celso Três descobriu que 26
pessoas de poucas posses enviaram
um total de R$ 294 milhões de
Cascavel para o Paraguai. Isso
apenas em 1997. A maior parte do
dinheiro depositado nas contas
destes testas-de-ferro veio de
São Paulo, Pará, Paraná e Rio
Grande do Sul. A Polícia Federal
abriu inquérito para investigar
quem são as mais de cem pessoas
e firmas que depositaram dinheiro
nas contas da camelô e da
faxineira. "É dinheiro de
sonegação, corrupção e
narcotráfico", observa o
procurador.
DESCOBERTA
CASUAL - A CPI dos Títulos
Públicos mostrou que pelo oeste
do Paraná transitavam, sem
qualquer controle, em direção
ao exterior, milhões de reais
transformados em dólares. E só
uma pequena parte desse dinheiro
se referia aos famosos
precatórios. A curiosidade em
saber quem eram os desconhecidos
que mandavam ao Paraguai fortunas
não-tributadas motivou a
abertura de uma investigação
por parte do procurador da
República Celso Antônio Três,
um gaúcho de Tapejara que atua
há dois anos em Cascavel (PR).
Procedimento semelhante foi
adotado por procuradores de Foz
do Iguaçu.
A descoberta de
que R$ 30 milhões circularam nas
contas de uma faxineira e de uma
cambista propiciaram a Celso
Três desenrolar um novelo de
fraudes.
O resultado foi
a descoberta de 26
testas-de-ferro, a decretação
de duas prisões temporárias, o
confisco dos bens de três
pessoas e o acúmulo de 15
volumes de documentos para
embasar a denúncia. "Assim
que descobrir os verdadeiros
donos dos cheques, vou denunciar
todos", promete o
procurador.
OPERAÇÃO
GOLPISTA - A transferência
do dinheiro ilícito para o maior
número de pessoas e locais
diferentes é o pressuposto
básico da lavagem. Quanto maior
o número de personagens
envolvidos na trama, mais
difícil para as autoridades
identificarem o verdadeiro dono
da fortuna. O esquema que lavou
US$ 20 milhões diários na
fronteira Brasil-Paraguai
funciona em cinco etapas:
1. Quem tem
dinheiro sujo (em geral um
sonegador de impostos, corrupto
ou narcotraficante) entrega sua
fortuna ilícita a uma casa de
câmbio. O dono do
estabelecimento, o doleiro,
contrata um laranja.
2. O laranja
abre uma conta em qualquer
agência bancária do Brasil e
nela deposita a fortuna ilegal.
3. Esse
dinheiro ilegal é transferido da
conta comum do laranja para uma
conta especial para estrangeiros,
a CC-5, aberta em outro banco
brasileiro.
Essa conta
pertence a uma das 150 casas de
câmbio e bancos de Ciudad del
Este (Paraguai). A CC-5 pode
estar em nome da própria casa de
câmbio ou o que é muito comum
de outro laranja, paraguaio. No
Paraguai, o apelido do laranja é
"presta nombres"
(empresta nomes).
4. O presta
nombres paraguaio saca o dinheiro
sujo na conta CC-5 e o transforma
em dólares (isso é permitido a
estrangeiros), remetidos
legalmente a uma conta em um
banco paraguaio. Ali a quantia é
depositada na conta do verdadeiro
dono do dinheiro (o brasileiro
sonegador, traficante ou
corrupto).
5. Quando o
verdadeiro dono quer, os dólares
depositados no Paraguai em seu
nome são transformados em reais
e voltam ao Brasil, legalizados.
Todos os finais de tarde, cerca
de 20 carros-fortes vindos de
Ciudad del Este atravessam a
Ponte da Amizade em direção aos
bancos de Foz do Iguaçu.
Carregam dinheiro gasto pelos
muambeiros no Paraguai e reais
lavados pelas máfias
brasileiras.