Política,
democracia e éticaA reedição mais
recente da tragédia que é a
seca nordestina; a mudança de um
superintendente da Sudene cujas
bandeiras eram a moralização e
a busca do prestígio perdido da
nossa agência de desenvolvimento
e sua volta aos objetivos
iniciais; uma campanha política
que se anuncia fisiológica e
decepcionante como as de anos
recentes; fatores como esses
fazem aparecer como urgentíssima
uma reforma política para valer.
O primeiro pensamento que nos vem
à mente, quando se fala em
reforma política, é: os
parlamentares aos quais interessa
a permanência desse estado de
coisas, pois, de outra maneira,
dificilmente seriam eleitos,
muito menos reeleitos, vão eles
empenhar-se nessa reforma?
A perfeita e
clássica saída para essa
questão e para outros problemas
que dificultam (muitas vezes,
impedem) nosso acesso à
antecâmara dos países que
importam teria sido aproveitar a
oportunidade que nos foi dada, em
1987-88, para elaborar uma
Constituição respeitável, em
vez da colcha de retalhos
descartável que supostamente nos
rege. Infelizmente, isso não nos
foi dado. De tanto conviver com
Constituições descartáveis,
elaboradas por uma maioria de
interessados na perpetuação da
política como negócio,
outorgadas pelo príncipe de
plantão, os brasileiros perderam
o respeito pelo que outros povos
consideram um documento
fundamental à legitimidade e
funcionalidade dos poderes,
direitos e deveres que constituem
um Estado moderno, democrático.
A começar pelos próprios
políticos e governantes.
Depois de mais
de 20 anos de ditadura, censura,
desrespeito aos direitos humanos
e constitucionais,
desmantelamento jurídico, bem
que poderíamos ter feito a
Constituição dos nossos sonhos.
Faltou grandeza, visão de
estadistas. Ainda se elaborou, em
vão, um esboço de documento que
deveria servir de base à
discussão dos constituintes.
Além disso, mais uma vez,
misturou-se Constituinte com
Congresso, o que não dá uma boa
mistura em nenhuma parte do
mundo. Para uma Constituinte se
elegem não necessariamente
políticos profissionais, mas
pessoas de destaque em diversos
setores da sociedade: juristas,
professores, trabalhadores
representativos de diversas
profissões, sábios que não
faltam em nenhum país. Essas
pessoas, não formando uma
maioria de políticos
profissionais, têm condições
de elaborar uma Constituição
voltada para as realidades e
interesses da sociedade, do país
como um todo, enxuta, não
casuística, sem entrar em
detalhes e minúcias que cabe à
legislação ordinária
contemplar.
Nossos líderes
e políticos optaram pelo de
sempre: Congresso-Constituinte
composto por políticos
profissionais, muitos deles que
haviam se aproveitado bastante
dos anos de ditadura. Havia até
senadores biônicos remanescentes
dos pacotes e decretos
ditatoriais. Resultado: a
composição dos diversos
interesses em jogo, nem sempre
interesses nacionais, resultou
numa colcha de retalhos, com
disposições freqüentemente
contraditórias e conflitantes.
Tanto que já se previu, nas
disposições transitórias, uma
reforma constitucional para
aplainar as arestas. Congresso e
governo sabotaram a reforma, que
só foi novamente cogitada quando
aqui aterrissaram idéias como
desestatização, globalização,
abertura de mercados, reforma do
Estado etc.; algumas trabalhadas
e adotadas conscientemente,
outras transformadas em simples
modismos por alguns políticos.
Ora, modismo não é algo que
dignifique o papel parlamentar.
Muitos
dispositivos da Constituição
não foram traduzidos em
legislação ordinária. Muitos
caíram simplesmente no
esquecimento, o que é
desabonador para um país que se
pretende sério. Daí a volta,
com insistência, da idéia de
reforma política. Alguns
pretendem reeditar um
Congresso-Constituinte, com os
mesmos vícios e debilidades de
outros que conhecemos por
ocasião da elaboração de
nossas periódicas
Constituições. É uma questão
difícil de resolver. A
transformação da Sudene em
distribuidora de cestas básicas
mostra como é difícil mudar
alguma coisa na área da nossa
política. Por iniciativa do
Congresso, não será fácil uma
reforma política para valer. O
governo, no entanto, que vem
contabilizando sucessivas
vitórias em seu programa de
reformas, bem que poderia enviar
aos parlamentares um projeto de
lei modernizando, democratizando,
o nosso modo de fazer política,
restaurando conceitos e práticas
de ética nesse terreno.