- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 11 de agosto de 1998

Cinema pernambucano

No plano cultural, Pernambuco sempre ocupou um lugar de destaque no espaço nacional. Não nos referimos somente à literatura (principalmente a poesia e o ensaio), ou ao jornalismo, à música e ao teatro, cuja tradição vem de longos anos. Também não nos fixaremos naqueles autores, compositores ou atores que conquistaram renome depois que se fixaram nas duas metrópoles do Centro-Sul, mesmo sem desprezar suas raízes nordestinas. E estes são muitos.

Nosso comentário, hoje, é referente ao cinema. E lembramos, inicialmente, que aqui brotou nos anos vinte o "Ciclo do Recife". Em 1925, com o filme "Aitaré da Praia", o cineasta Ari Severo conseguiu chamar a atenção dos críticos do Rio de Janeiro, então capital do país, para sua tentativa de libertar a produção cinematográfica brasileira do modelo então perseguido, que se apoiava na influência dos faroestes norte-americanos. Outro sucesso pernambucano da mesma época foi o filme "A Filha do Advogado". Jota Soares é um dos nomes intimamente ligados a esse ciclo de filmes concebidos e realizados no Recife e seus arredores. A esses dois pioneiros viria se juntar depois o nome de Firmo Neto, nascido no Acre mas que se realizou como cineasta, montador, fotógrafo e professor de cinema na capital pernambucana.

O cinema é uma arte (ou combinação de artes) de custos muito elevados. Por isso mesmo, tende a se concentrar em poucas áreas, de preferência naquelas em que existam grupos econômicos com visão aberta, dispostos a financiar as produções, seja arriscando capitais, seja para se beneficiarem das vantagens da legislação, quando esta cria incentivos para tal ramo de atividade. Entre nós, não é fácil obter recursos, e poucos estão dispostos a participar dessa aventura. Maiores razões temos, assim, para saudar a coragem daqueles que a praticam em Pernambuco.

Depois dos pioneiros dos anos vinte, tivemos e filmagem do nosso primeiro filme falado, o precaríssimo mas heróico "Coelho sai", de Firmo Neto, seguindo o modelo dos musicais carnavalescos feitos pela Atlântica, no Rio. Cinema feito em Pernambuco, mas concebido bem longe, foi o de Alberto Cavalcanti, na década de cinquenta, com "O canto do mar", tendo José de Souza Alencar como assistente de produção. Depois, um longo período de inércia, somente quebrado pelo "Ciclo do Super-8", na década de 70. Este valeu como demonstração de coragem e talento individual, servindo para ensinar que é possível fazer alguma coisa positiva, mesmo quando os meios utilizados são precários.

Eis que, nesta última década do Século XX, volta-se a praticar cinema em Pernambuco e, ainda por cima, arrebatando prêmios em festivais nacionais. Depois da consagração pública do filme "O Baile Perfumado", de Paulo Caldas e Lírio Ferreira, com ator local tendo participação destacada, outros filmes aqui produzidos foram premiados, entre eles "Simião Martiniano - o Camelô do Cinema", assinado por Clara Angélica e Hilton Lacerda, com menções importantes, como a de contribuição à linguagem cinematográfica; e "Clandestina Felicidade", por Beto Normal e Marcelo Gomes, com destaque para a atriz.

Não se pense que esses recriadores de cultura estão "nadando em dinheiro", em face de ajudas governamentais, ou encontrem facilidade de exibição de seus filmes. Todas as empresas exibidoras fazem sua programação no eixo Rio-São Paulo e, em geral, estão vinculadas aos meios cinematográficos norte-americanos, pouco importância dando à produção nacional, menos ainda à que é realizada por grupos locais acima da divisa do Rio de Janeiro com o Espírito Santo. E quanto aos incentivos federais, mais de 70 por cento são distribuídos entre os dois principais centros de produção do país, Rio e São Paulo. Norte e Nordeste, Centro-Oeste e Sul (do Paraná ao Rio Grande) disputam os vinte e tantos por cento restantes.

Ainda assim, segundo o otimista Amin Stepple, "a ressurgência do cinema pernambucano é fato consumado". Ele dirigiu, em parceria com o crítico de cinema Fernando Spencer, o documentário "Cinema Pernambucano - 70 anos". E admite que vivemos um novo ciclo cinematográfico. Só podemos desejar que não seja um ciclo passageiro, de fim de século, dependente apenas da abnegação de uns poucos. Mas que estabeleça vínculos com o futuro, através de ligações firmes com a realidade financeira de uma indústria que custa caro, mas pode por sua vez estimular todas as outras formas de atividades culturais de uma cidade e de uma região.

 
 

 

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