Cinema pernambucanoNo plano cultural,
Pernambuco sempre ocupou um lugar
de destaque no espaço nacional.
Não nos referimos somente à
literatura (principalmente a
poesia e o ensaio), ou ao
jornalismo, à música e ao
teatro, cuja tradição vem de
longos anos. Também não nos
fixaremos naqueles autores,
compositores ou atores que
conquistaram renome depois que se
fixaram nas duas metrópoles do
Centro-Sul, mesmo sem desprezar
suas raízes nordestinas. E estes
são muitos.
Nosso
comentário, hoje, é referente
ao cinema. E lembramos,
inicialmente, que aqui brotou nos
anos vinte o "Ciclo do
Recife". Em 1925, com o
filme "Aitaré da
Praia", o cineasta Ari
Severo conseguiu chamar a
atenção dos críticos do Rio de
Janeiro, então capital do país,
para sua tentativa de libertar a
produção cinematográfica
brasileira do modelo então
perseguido, que se apoiava na
influência dos faroestes
norte-americanos. Outro sucesso
pernambucano da mesma época foi
o filme "A Filha do
Advogado". Jota Soares é um
dos nomes intimamente ligados a
esse ciclo de filmes concebidos e
realizados no Recife e seus
arredores. A esses dois pioneiros
viria se juntar depois o nome de
Firmo Neto, nascido no Acre mas
que se realizou como cineasta,
montador, fotógrafo e professor
de cinema na capital
pernambucana.
O cinema é uma
arte (ou combinação de artes)
de custos muito elevados. Por
isso mesmo, tende a se concentrar
em poucas áreas, de preferência
naquelas em que existam grupos
econômicos com visão aberta,
dispostos a financiar as
produções, seja arriscando
capitais, seja para se
beneficiarem das vantagens da
legislação, quando esta cria
incentivos para tal ramo de
atividade. Entre nós, não é
fácil obter recursos, e poucos
estão dispostos a participar
dessa aventura. Maiores razões
temos, assim, para saudar a
coragem daqueles que a praticam
em Pernambuco.
Depois dos
pioneiros dos anos vinte, tivemos
e filmagem do nosso primeiro
filme falado, o precaríssimo mas
heróico "Coelho sai",
de Firmo Neto, seguindo o modelo
dos musicais carnavalescos feitos
pela Atlântica, no Rio. Cinema
feito em Pernambuco, mas
concebido bem longe, foi o de
Alberto Cavalcanti, na década de
cinquenta, com "O canto do
mar", tendo José de Souza
Alencar como assistente de
produção. Depois, um longo
período de inércia, somente
quebrado pelo "Ciclo do
Super-8", na década de 70.
Este valeu como demonstração de
coragem e talento individual,
servindo para ensinar que é
possível fazer alguma coisa
positiva, mesmo quando os meios
utilizados são precários.
Eis que, nesta
última década do Século XX,
volta-se a praticar cinema em
Pernambuco e, ainda por cima,
arrebatando prêmios em festivais
nacionais. Depois da
consagração pública do filme
"O Baile Perfumado", de
Paulo Caldas e Lírio Ferreira,
com ator local tendo
participação destacada, outros
filmes aqui produzidos foram
premiados, entre eles
"Simião Martiniano - o
Camelô do Cinema", assinado
por Clara Angélica e Hilton
Lacerda, com menções
importantes, como a de
contribuição à linguagem
cinematográfica; e
"Clandestina
Felicidade", por Beto Normal
e Marcelo Gomes, com destaque
para a atriz.
Não se pense
que esses recriadores de cultura
estão "nadando em
dinheiro", em face de ajudas
governamentais, ou encontrem
facilidade de exibição de seus
filmes. Todas as empresas
exibidoras fazem sua
programação no eixo Rio-São
Paulo e, em geral, estão
vinculadas aos meios
cinematográficos
norte-americanos, pouco
importância dando à produção
nacional, menos ainda à que é
realizada por grupos locais acima
da divisa do Rio de Janeiro com o
Espírito Santo. E quanto aos
incentivos federais, mais de 70
por cento são distribuídos
entre os dois principais centros
de produção do país, Rio e
São Paulo. Norte e Nordeste,
Centro-Oeste e Sul (do Paraná ao
Rio Grande) disputam os vinte e
tantos por cento restantes.
Ainda assim,
segundo o otimista Amin Stepple,
"a ressurgência do cinema
pernambucano é fato
consumado". Ele dirigiu, em
parceria com o crítico de cinema
Fernando Spencer, o documentário
"Cinema Pernambucano - 70
anos". E admite que vivemos
um novo ciclo cinematográfico.
Só podemos desejar que não seja
um ciclo passageiro, de fim de
século, dependente apenas da
abnegação de uns poucos. Mas
que estabeleça vínculos com o
futuro, através de ligações
firmes com a realidade financeira
de uma indústria que custa caro,
mas pode por sua vez estimular
todas as outras formas de
atividades culturais de uma
cidade e de uma região.