DIA
DOS PAIS
Em
tempo de liberdadepor LUIZ CLAUDIO
FERREIRA
E SÉRGIO ROBERTO LIMA
Mesmo antes do
lançamento do primeiro disco, a
jovem banda pernambucana Songo
já tem um fã confesso que não
perde nem os ensaios. Não
desgruda os olhos principalmente
da atuação de Thiago, um dos
integrantes e seu filho. Mas, pai
é aquele homem especialista em
tudo que o filho faz. Por isso,
também, lê todas as reportagens
de uma aspirante a jornalista e
é louco pelo estilo e técnica
de um escultor. Esses ídolos do
professor de direito e
ex-procurador do Ministério
Público Everaldo Gaspar Andrade,
que estão muito longe dos
caminhos da magistratura e da
toga, são também apaixonados
pelo paizão.
Não é à toa.
O músico Thiago, de 21 anos, a
universitária Clarice, de 22, e
o "estudante-artista"
Daniel, de 19, têm a amizade e a
confiança de Gaspar para fazer o
que quiserem de suas vidas.
Escolheram livremente a
profissão, cada um dorme com sua
paixão nos quartos da casa do
pai, possuem a conta-corrente
conjunta com ele e nos diálogos
regados à cerveja surgem todos
os assuntos, sem qualquer
censura. Quem conhece, rotula-o
como "pai liberal", já
os filhos chamam-no de amigo.
Se ainda é
impossível saber se o perfil de
pai severo está se aposentando
com a chegada do terceiro
milênio, o exemplo de Gaspar
mostra que até aqueles com todos
os atributos para serem
conservadores estão libertando
os rebentos da repressão
patriarcal. A maioria absoluta
daqueles jovens que está
chegando hoje na casa dos 50 anos
sentiu na pele essa opressão. E
vários desses homens resolveram
não repetir o estilo. Viraram o
antigo modelo pelo avesso e são
considerados
"avançadinhos".
Conversam sobre as experiências
com drogas e sexo dos jovens com
a mesma naturalidade com que
falam sobre futebol.
Hoje, Dia dos
Pais, Gaspar não faz qualquer
questão que estejam todos
reunidos por causa da data.
"Estamos juntos sempre. Se
tiverem uma festa legal ou uma
viagem, estão mais do que
liberados". Possivelmente,
não haverá nada disso e os
filhos devem marcar presença na
casa do pai, onde ele vive com
sua segunda esposa. No local,
aliás, um dos quartos serve como
estúdio para os ensaios e as
gravações do grupo musical de
Thiago.
Hoje,
inclusive, pode ser mais uma
oportunidade para o grupo tocar e
ouvir a tietagem do pai. O filho
e o resto do conjunto ouvem tanto
os aplausos como os "pitacos
do velho" nas músicas.
"Sei que eles fazem um
trabalho sério. Dou total
apoio", garante o pai. Os
filhos confirmam: "Ele é o
máximo. Está com a gente
sempre. É aquele amigão que
todo mundo gostaria de ter",
diz Thiago.
A compreensão
e a liberdade proporcionadas por
Gaspar custam o preço da
"responsabilidade".
"Exijo que sejam sérios
quando o assunto é o futuro
deles", afirma. Na hora da
bronca, não há gritaria ou
escândalos. "Conversamos
como adultos". Não acredita
que haja mistério nesse tipo de
relação. A receita, segundo
ele, é conversar muito para não
haver hipocrisia. "Sei que
experimentaram drogas e não
gostaram. Deixo dormir com
namorados e namoradas dentro de
casa porque tenho certeza de que
iriam para um motel",
justifica.
GRAVIDEZ -
Os novos tempos também bateram
à porta da casa do empresário
Paulo Perruci. Ele garante que
não impõe nada às duas filhas
de 19 e 17 anos e vem se tornando
cada vez mais aberto. E, na sua
opinião, considera que foi uma
marca quando a mais nova, Paula,
então com 13 anos, engravidou.
"Fiquei triste e muito
preocupado por um tempo. Só
conversei com ela sobre o assunto
quando sabia que não ia mais
feri-la", lembra-se. Hoje, o
neto, já com 4 anos, tem todos
os paparicos e acabou se tornando
mais um filho. As meninas, no
caminho da maturidade, já
revelam seus problemas para o
pai, fato que ocorria somente com
a mãe.
Acredita que
isso está acontecendo porque
Fabiana, a mais velha, e Paula
estão saindo da adolescência.
"Hoje elas me olham como um
amigo. Pedem conselhos, me ajudam
no trabalho e confio no que elas
resolvem". A filha, Paula,
confirma que o pai deu todo o
apoio quando ela mais precisou.
"Continua sendo maravilhoso.
Se eu digo que vou sair, não
pergunta para onde eu vou, nem
com quem e muito menos a hora que
vou chegar. Na minha ausência,
ele é quem mais cuida do
Pedrinho (o neto)", garante.
Os "pais
liberais" afirmam que existe
um inconveniente nessa relação
super aberta com os filhos.
Indicam que onde existem muitas
opiniões nem todos saem
satisfeitos, mesmo porque nem
sempre concordam com as
resoluções da família.
"Toda democracia dá muito
trabalho. Por isso, devem existir
algumas regras para
controlar", diz Gaspar.
Essas "regras" servem
para manter a liberdade.
"Quem quiser educar com mão
de ferro não terá esse
problema, mas dificilmente terá
a amizade dos filhos",
receita Paulo Perruci.
MACONHA -
O empresário C.M.C., de 50 anos,
porém, é uma prova da idéia
comum de que "pais liberais
fazem filhos caretas". Seus
três filhos mais velhos - uma
moça de 24 anos e dois rapazes
de 22 e 17 - bem que poderiam ser
confundidos com qualquer outro
jovem de classe média alta. Ou
até mais "normais" do
que a maioria dos seus amigos.
Eles não fumam, bebem cerveja
apenas nos finais de semana e,
mesmo assim, com uma freqüência
menor do que a maior parte dos
jovens de sua idade e classe
social.
O empresário
também poderia ser incluído no
rol padrão de pai, se não fosse
o fato de que C.M.C. é
consumidor esporádico de maconha
desde os 18 anos de idade.
"Nunca fumei na frente dos
meus filhos, mas eles sabem e já
conversamos a respeito
disso", afirma. O medo de
que eles, ao contrário do pai,
venham a se tornar usuários
freqüentes e, pior, partam para
o consumo de drogas mais pesadas
é afastado com muito diálogo.
"Estou
certo de que, se meus filhos
estivessem fazendo uso de
qualquer tipo de droga, eu
saberia. Qualquer tipo de
problema eles me contam. O
segredo dessa minha segurança é
que sempre mantive uma relação
muito aberta com todos eles,
discutindo qualquer
assunto", garante o
empresário. "Este é o
segredo para que os pais percam
qualquer medo desse tipo:
franqueza", completa.