- - -...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 09 de agosto de 1998

DIA DOS PAIS
Em tempo de liberdade

por LUIZ CLAUDIO FERREIRA
E SÉRGIO ROBERTO LIMA

Mesmo antes do lançamento do primeiro disco, a jovem banda pernambucana Songo já tem um fã confesso que não perde nem os ensaios. Não desgruda os olhos principalmente da atuação de Thiago, um dos integrantes e seu filho. Mas, pai é aquele homem especialista em tudo que o filho faz. Por isso, também, lê todas as reportagens de uma aspirante a jornalista e é louco pelo estilo e técnica de um escultor. Esses ídolos do professor de direito e ex-procurador do Ministério Público Everaldo Gaspar Andrade, que estão muito longe dos caminhos da magistratura e da toga, são também apaixonados pelo paizão.

Não é à toa. O músico Thiago, de 21 anos, a universitária Clarice, de 22, e o "estudante-artista" Daniel, de 19, têm a amizade e a confiança de Gaspar para fazer o que quiserem de suas vidas. Escolheram livremente a profissão, cada um dorme com sua paixão nos quartos da casa do pai, possuem a conta-corrente conjunta com ele e nos diálogos regados à cerveja surgem todos os assuntos, sem qualquer censura. Quem conhece, rotula-o como "pai liberal", já os filhos chamam-no de amigo.

Se ainda é impossível saber se o perfil de pai severo está se aposentando com a chegada do terceiro milênio, o exemplo de Gaspar mostra que até aqueles com todos os atributos para serem conservadores estão libertando os rebentos da repressão patriarcal. A maioria absoluta daqueles jovens que está chegando hoje na casa dos 50 anos sentiu na pele essa opressão. E vários desses homens resolveram não repetir o estilo. Viraram o antigo modelo pelo avesso e são considerados "avançadinhos". Conversam sobre as experiências com drogas e sexo dos jovens com a mesma naturalidade com que falam sobre futebol.

Hoje, Dia dos Pais, Gaspar não faz qualquer questão que estejam todos reunidos por causa da data. "Estamos juntos sempre. Se tiverem uma festa legal ou uma viagem, estão mais do que liberados". Possivelmente, não haverá nada disso e os filhos devem marcar presença na casa do pai, onde ele vive com sua segunda esposa. No local, aliás, um dos quartos serve como estúdio para os ensaios e as gravações do grupo musical de Thiago.

Hoje, inclusive, pode ser mais uma oportunidade para o grupo tocar e ouvir a tietagem do pai. O filho e o resto do conjunto ouvem tanto os aplausos como os "pitacos do velho" nas músicas. "Sei que eles fazem um trabalho sério. Dou total apoio", garante o pai. Os filhos confirmam: "Ele é o máximo. Está com a gente sempre. É aquele amigão que todo mundo gostaria de ter", diz Thiago.

A compreensão e a liberdade proporcionadas por Gaspar custam o preço da "responsabilidade". "Exijo que sejam sérios quando o assunto é o futuro deles", afirma. Na hora da bronca, não há gritaria ou escândalos. "Conversamos como adultos". Não acredita que haja mistério nesse tipo de relação. A receita, segundo ele, é conversar muito para não haver hipocrisia. "Sei que experimentaram drogas e não gostaram. Deixo dormir com namorados e namoradas dentro de casa porque tenho certeza de que iriam para um motel", justifica.

GRAVIDEZ - Os novos tempos também bateram à porta da casa do empresário Paulo Perruci. Ele garante que não impõe nada às duas filhas de 19 e 17 anos e vem se tornando cada vez mais aberto. E, na sua opinião, considera que foi uma marca quando a mais nova, Paula, então com 13 anos, engravidou. "Fiquei triste e muito preocupado por um tempo. Só conversei com ela sobre o assunto quando sabia que não ia mais feri-la", lembra-se. Hoje, o neto, já com 4 anos, tem todos os paparicos e acabou se tornando mais um filho. As meninas, no caminho da maturidade, já revelam seus problemas para o pai, fato que ocorria somente com a mãe.

Acredita que isso está acontecendo porque Fabiana, a mais velha, e Paula estão saindo da adolescência. "Hoje elas me olham como um amigo. Pedem conselhos, me ajudam no trabalho e confio no que elas resolvem". A filha, Paula, confirma que o pai deu todo o apoio quando ela mais precisou. "Continua sendo maravilhoso. Se eu digo que vou sair, não pergunta para onde eu vou, nem com quem e muito menos a hora que vou chegar. Na minha ausência, ele é quem mais cuida do Pedrinho (o neto)", garante.

Os "pais liberais" afirmam que existe um inconveniente nessa relação super aberta com os filhos. Indicam que onde existem muitas opiniões nem todos saem satisfeitos, mesmo porque nem sempre concordam com as resoluções da família. "Toda democracia dá muito trabalho. Por isso, devem existir algumas regras para controlar", diz Gaspar. Essas "regras" servem para manter a liberdade. "Quem quiser educar com mão de ferro não terá esse problema, mas dificilmente terá a amizade dos filhos", receita Paulo Perruci.

MACONHA - O empresário C.M.C., de 50 anos, porém, é uma prova da idéia comum de que "pais liberais fazem filhos caretas". Seus três filhos mais velhos - uma moça de 24 anos e dois rapazes de 22 e 17 - bem que poderiam ser confundidos com qualquer outro jovem de classe média alta. Ou até mais "normais" do que a maioria dos seus amigos. Eles não fumam, bebem cerveja apenas nos finais de semana e, mesmo assim, com uma freqüência menor do que a maior parte dos jovens de sua idade e classe social.

O empresário também poderia ser incluído no rol padrão de pai, se não fosse o fato de que C.M.C. é consumidor esporádico de maconha desde os 18 anos de idade. "Nunca fumei na frente dos meus filhos, mas eles sabem e já conversamos a respeito disso", afirma. O medo de que eles, ao contrário do pai, venham a se tornar usuários freqüentes e, pior, partam para o consumo de drogas mais pesadas é afastado com muito diálogo.

"Estou certo de que, se meus filhos estivessem fazendo uso de qualquer tipo de droga, eu saberia. Qualquer tipo de problema eles me contam. O segredo dessa minha segurança é que sempre mantive uma relação muito aberta com todos eles, discutindo qualquer assunto", garante o empresário. "Este é o segredo para que os pais percam qualquer medo desse tipo: franqueza", completa.


     

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