DIA
DOS PAIS III
Lei
reduz o direito dos paispor MARCIA CEZIMBRA
Da Agência Globo
O advogado
Felipe Paiva, de 40 anos, provoca
risos de suas secretárias quando
recebe recados urgentes de que a
máquina de lavar quebrou ou o
chocolate em pó acabou. A
"piada" aumenta quando
ele larga às pressas reuniões
importantes para resolver
problemas das três crianças.
"Quando me perguntam, gosto
de dizer que estou saindo afobado
por causa das crianças e de ver
que me olham como seu eu fosse
uma "perua". Outro dia,
a máquina de lavar quebrou. Era
uma sexta-feira e na
segunda-feira recomeçavam as
aulas. Os uniformes estavam sujos
e tive que providenciar o
conserto urgente", conta.
Felipe é um
"pãe", apelido dos
pais separados que exercem
funções consideradas exclusivas
das mães. Os "pães",
porém, são minoria na sociedade
brasileira: em apenas 15% dos
casos de divórcio os filhos
moram com os pais, segundo o
IBGE. Na maioria dos casos, 85%,
os filhos ficam com as mães,
embora cresça a cada dia o
número de pais, divorciados ou
não, que participam intensamente
no cotidiano dos filhos.
Um exemplo é o
ator Herson Capri, que na novela
da Globo Era uma vez vive o
viúvo Álvaro, dedicado pai de
quatro filhos, que se apaixona
pela governanta Madalena (Drica
Moraes), numa versão eletrônica
do clássico A noviça rebelde.
Na vida real, Herson Capri leva o
pequeno Lucas, de apenas 1 ano,
com a babá Jaqueline, para as
gravações no Projac para dar
atenção ao menino a cada
intervalo das gravações. A
mãe, Susana, trabalha o dia
inteiro. "Acho que, além de
amar o filho, o pai deve passar
toda a sua experiência de vida.
O amor pelo filho dá ao pai a
vontade de prepará-lo para a
vida", diz o ator, que tem
dois filhos já grandes, Laura,
de 20 anos, e Pedro, de 17 anos.
MAMADEIRAS -
Já o goleiro do Vasco Carlos
Germano, de 27 anos, reserva de
Taffarel na Copa da França é
especialista nas mamadeiras de
Ana Carolina, de 3 anos, e Ana
Cristina, de 1 ano. A mulher Ana,
de 25, dorme a noite inteira e é
ele que diz levantar da cama para
atender às meninas na hora da
fome. "Faço mamadeiras
ótimas com chocolate em pó.
Cuido delas sempre que posso
durante o dia e vejo vídeos com
elas todas as noites. Conheço
todos os filmes infantis como A
bela e a fera e Branca de
Neve", diz.
Para Tony
Belotto, guitarrista dos Titãs e
autor do recém-lançado romance
policial Belline e a esfinge, a
paternidade não tem tantos
mistérios. Ele tem três filhos,
dois com a atriz global Malu
Mader, sua mulher. "Um pai
legal é alguém presente, que
está ao lado dos filhos nos bons
e nos maus momentos. Alguém que
mesmo sem saber respostas exatas
está sempre de mãos estendidas
e braços abertos para os filhos.
Não me importo com esse papo de
funções de pai. O importante é
amar e passar um exemplo de
dignidade e respeito. O resto é
conversa, muita conversa",
acredita.
Um estudo
iniciado há dois anos com pais e
juízes de varas de Família pela
psicóloga Leila Torraca de
Brito, professora do curso de
Psicologia Jurídica da
Universidade Estadual do Rio de
Janeiro (UERJ), indica que a
participação do pai divorciado
na educação dos filhos fica
condicionada à permissão da
ex-mulher. "A legislação
precisa ser modificada. Ela reduz
o pai a um visitador quinzenal e
se esquece do direito da criança
de ter um pai. Se as visitas são
alvo de disputas entre os pais, a
criança torna-se vítima das
agressões do casal",
explica a psicóloga.
Os pais que
enfrentam dificuldades para
conviver com os filhos terminam,
por cansaço e estresse,
desistindo das crianças.
"Não temos dados do Brasil,
mas na França, um terço dos
filhos de pais separados perderam
o contato com os pais. É preciso
questionar esta sociedade que
considera a mãe fundamental e
ignora a importância do pai.
Tudo conspira para que o pai seja
afastado dos filhos",
continua Leila Torraca de Brito.
Leila revela
que os próprios juízes de varas
de Família entendem que o
Código Civil está obsoleto face
à realidade da família
contemporânea. Hoje, por
exemplo, um juiz já não
determina que o marido dê
pensão alimentícia à
ex-mulher. Ele só é obrigado a
sustentar os filhos. "Se a
mulher nunca trabalhou, os
juízes determinam pensão por um
período de seis meses a um ano.
Neste prazo, a mulher deve
começar a trabalhar. Mas, no
caso da guarda dos filhos, a lei
confunde as figuras de cônjuge e
de pai. Determina visitas
quinzenais nos fins de semana, o
que é péssimo para a
criança", argumenta.
A advogada
Flora Strozemberg comenta que
dificilmente um pai consegue hoje
a guarda de uma criança pequena,
mas, a partir dos 10 anos, o juiz
já pode ouvir a criança, com a
ajuda de um psicólogo, e
entregá-la ao pai. "Muitas
mães são verdadeiras medéias
contemporâneas. Elas usam os
filhos para agredir o pai e
esquecem de amá-los. Querem
fazê-los órfãos de pai. Se a
criança diz que quer ver o pai,
a mãe tem um ataque. Quer matar
o pai na cabeça e no coração
do filho. E quantas vezes pede ao
namorado dinheiro para a criança
só para ofender o pai em
público? Minha experiência com
estas mulheres é trágica",
declara Flora Strozemberg.
DIFICULDADES
- Foi assim com o terapeuta
Benício Óvila, que se separou
quando seu filho tinha 6 anos. A
mãe resolveu dificultar o acesso
ao filho para tentar reverter a
situação. O menino,
conseqüentemente, começou a
apresentar problemas de fala.
Quando falava com o pai ao
telefone, nunca conseguia dizer
que queria vê-lo. "Eu
sempre perguntava se ele queria
vir para a minha casa. Ele dizia:
"Não sei, não
sei...". Levei um tempo para
entender que não tinha que
perguntar isto para ele. Deveria
ir até lá buscá-lo e pronto.
Ele ficava feliz da vida".
Já o
engenheiro Roberto Barbosa adiou
a separação por medo do que
aconteceria com as duas filhas,
de 2 e 3 anos. "Cheguei a
morar um mês na casa dos meus
pais, mas foi um dramalhão.
Quando ia visitá-las, elas nem
haviam tomado banho. Percebi que
a mãe não tinha condições de
educá-las e que, pelo bem das
crianças, teria que fazer o
sacrifício de suportar o
casamento", diz.
Segundo Flora
Strozemberg, porém, já começa
a se tornar comum nas Varas de
Família os caso de mães que
concluem ser melhor para os
filhos que eles vivam com o pai,
sem ter o sentimento de que
estão abandonando os filhos.
"A mãe pode concluir que é
melhor para os filhos que vivam
com o pai", acredita. Em
suma, o número de
"pães", este ser
híbrido, misto de pai e de mãe,
está crescendo.