- - -...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 09 de agosto de 1998

DIA DOS PAIS III
Lei reduz o direito dos pais

por MARCIA CEZIMBRA
Da Agência Globo

O advogado Felipe Paiva, de 40 anos, provoca risos de suas secretárias quando recebe recados urgentes de que a máquina de lavar quebrou ou o chocolate em pó acabou. A "piada" aumenta quando ele larga às pressas reuniões importantes para resolver problemas das três crianças. "Quando me perguntam, gosto de dizer que estou saindo afobado por causa das crianças e de ver que me olham como seu eu fosse uma "perua". Outro dia, a máquina de lavar quebrou. Era uma sexta-feira e na segunda-feira recomeçavam as aulas. Os uniformes estavam sujos e tive que providenciar o conserto urgente", conta.

Felipe é um "pãe", apelido dos pais separados que exercem funções consideradas exclusivas das mães. Os "pães", porém, são minoria na sociedade brasileira: em apenas 15% dos casos de divórcio os filhos moram com os pais, segundo o IBGE. Na maioria dos casos, 85%, os filhos ficam com as mães, embora cresça a cada dia o número de pais, divorciados ou não, que participam intensamente no cotidiano dos filhos.

Um exemplo é o ator Herson Capri, que na novela da Globo Era uma vez vive o viúvo Álvaro, dedicado pai de quatro filhos, que se apaixona pela governanta Madalena (Drica Moraes), numa versão eletrônica do clássico A noviça rebelde. Na vida real, Herson Capri leva o pequeno Lucas, de apenas 1 ano, com a babá Jaqueline, para as gravações no Projac para dar atenção ao menino a cada intervalo das gravações. A mãe, Susana, trabalha o dia inteiro. "Acho que, além de amar o filho, o pai deve passar toda a sua experiência de vida. O amor pelo filho dá ao pai a vontade de prepará-lo para a vida", diz o ator, que tem dois filhos já grandes, Laura, de 20 anos, e Pedro, de 17 anos.

MAMADEIRAS - Já o goleiro do Vasco Carlos Germano, de 27 anos, reserva de Taffarel na Copa da França é especialista nas mamadeiras de Ana Carolina, de 3 anos, e Ana Cristina, de 1 ano. A mulher Ana, de 25, dorme a noite inteira e é ele que diz levantar da cama para atender às meninas na hora da fome. "Faço mamadeiras ótimas com chocolate em pó. Cuido delas sempre que posso durante o dia e vejo vídeos com elas todas as noites. Conheço todos os filmes infantis como A bela e a fera e Branca de Neve", diz.

Para Tony Belotto, guitarrista dos Titãs e autor do recém-lançado romance policial Belline e a esfinge, a paternidade não tem tantos mistérios. Ele tem três filhos, dois com a atriz global Malu Mader, sua mulher. "Um pai legal é alguém presente, que está ao lado dos filhos nos bons e nos maus momentos. Alguém que mesmo sem saber respostas exatas está sempre de mãos estendidas e braços abertos para os filhos. Não me importo com esse papo de funções de pai. O importante é amar e passar um exemplo de dignidade e respeito. O resto é conversa, muita conversa", acredita.

Um estudo iniciado há dois anos com pais e juízes de varas de Família pela psicóloga Leila Torraca de Brito, professora do curso de Psicologia Jurídica da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), indica que a participação do pai divorciado na educação dos filhos fica condicionada à permissão da ex-mulher. "A legislação precisa ser modificada. Ela reduz o pai a um visitador quinzenal e se esquece do direito da criança de ter um pai. Se as visitas são alvo de disputas entre os pais, a criança torna-se vítima das agressões do casal", explica a psicóloga.

Os pais que enfrentam dificuldades para conviver com os filhos terminam, por cansaço e estresse, desistindo das crianças. "Não temos dados do Brasil, mas na França, um terço dos filhos de pais separados perderam o contato com os pais. É preciso questionar esta sociedade que considera a mãe fundamental e ignora a importância do pai. Tudo conspira para que o pai seja afastado dos filhos", continua Leila Torraca de Brito.

Leila revela que os próprios juízes de varas de Família entendem que o Código Civil está obsoleto face à realidade da família contemporânea. Hoje, por exemplo, um juiz já não determina que o marido dê pensão alimentícia à ex-mulher. Ele só é obrigado a sustentar os filhos. "Se a mulher nunca trabalhou, os juízes determinam pensão por um período de seis meses a um ano. Neste prazo, a mulher deve começar a trabalhar. Mas, no caso da guarda dos filhos, a lei confunde as figuras de cônjuge e de pai. Determina visitas quinzenais nos fins de semana, o que é péssimo para a criança", argumenta.

A advogada Flora Strozemberg comenta que dificilmente um pai consegue hoje a guarda de uma criança pequena, mas, a partir dos 10 anos, o juiz já pode ouvir a criança, com a ajuda de um psicólogo, e entregá-la ao pai. "Muitas mães são verdadeiras medéias contemporâneas. Elas usam os filhos para agredir o pai e esquecem de amá-los. Querem fazê-los órfãos de pai. Se a criança diz que quer ver o pai, a mãe tem um ataque. Quer matar o pai na cabeça e no coração do filho. E quantas vezes pede ao namorado dinheiro para a criança só para ofender o pai em público? Minha experiência com estas mulheres é trágica", declara Flora Strozemberg.

DIFICULDADES - Foi assim com o terapeuta Benício Óvila, que se separou quando seu filho tinha 6 anos. A mãe resolveu dificultar o acesso ao filho para tentar reverter a situação. O menino, conseqüentemente, começou a apresentar problemas de fala. Quando falava com o pai ao telefone, nunca conseguia dizer que queria vê-lo. "Eu sempre perguntava se ele queria vir para a minha casa. Ele dizia: "Não sei, não sei...". Levei um tempo para entender que não tinha que perguntar isto para ele. Deveria ir até lá buscá-lo e pronto. Ele ficava feliz da vida".

Já o engenheiro Roberto Barbosa adiou a separação por medo do que aconteceria com as duas filhas, de 2 e 3 anos. "Cheguei a morar um mês na casa dos meus pais, mas foi um dramalhão. Quando ia visitá-las, elas nem haviam tomado banho. Percebi que a mãe não tinha condições de educá-las e que, pelo bem das crianças, teria que fazer o sacrifício de suportar o casamento", diz.

Segundo Flora Strozemberg, porém, já começa a se tornar comum nas Varas de Família os caso de mães que concluem ser melhor para os filhos que eles vivam com o pai, sem ter o sentimento de que estão abandonando os filhos. "A mãe pode concluir que é melhor para os filhos que vivam com o pai", acredita. Em suma, o número de "pães", este ser híbrido, misto de pai e de mãe, está crescendo.


     

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