DIA
DOS PAIS IV
Separação
pode distanciar pais e filhosNão é apenas a
legislação que distancia os
pais divorciados de seus filhos.
As leis do divórcio são
expressão de uma cultura que
reduz o homem a mero provedor,
segundo o professor de psicologia
Durval Ferreira, autor da tese de
doutorado O pai e a intimidade -
estudo de um grupo masculino, em
fase de redação para defesa no
final do ano na Faculdade de
Psicologia da PUC de São Paulo.
Para
desenvolver a tese, Durval abriu
uma clínica na PUC para discutir
a paternidade com homens
voluntários em sessões de
terapia de grupo gravadas com
autorização dos participantes.
A conclusão é que o homem vive
preso a uma imagem oficial de
orientação machista, que o
reduz ao mero provedor que vive
fora de casa e do ambiente
afetivo da família, que fica
limitada às funções da figura
feminina. "O homem não lida
bem com a sua própria
afetividade. E, com isto, não
sabe lidar com os filhos. Pais e
filhos não têm intimidade,
falta-lhes aproximação. As
mães são muito mais
próximas", atesta.
SEM LIMITES -
O resultado desta condição de
opressão cultural, segundo
Durval Ferreira, é que este
cotidiano de frustração afetiva
termina por deprimir o homem ou o
torna agressivo com os filhos.
"Ele se irrita porque não
sabe lidar com esta aproximação
afetiva. A solução seria buscar
ajuda psicológica em terapias,
mas o homem geralmente é avesso
à psicanálise", observa.
"Só recentemente os homens
começaram a buscar
significativamente os
consultórios de analistas, antes
freqüentados em grande maioria
por mulheres", comenta.
Uma prova disto
é o pequeno número que
inicialmente se ofereceu para
discutir a paternidade em
sessões clínicas: apenas seis,
dois dos quais abandonaram o
processo antes dos seis meses
previstos para o primeiro grupo.
Outra característica da
paternidade contemporânea que
apareceu na investigação do
professor foi a dificuldade de
estabelecer limites para os
filhos: "Os pais não sabem
o que fazer. Não querem
reprimir, mas não podem liberar
demais. Ficam perdidos",
conclui.
"A
orientadora de Durval Ferreira é
a psicóloga Rosane Mantilla de
Souza, autora de Paternidade em
transformação: o pai singular e
sua família, tese de doutorado
também da PUC de São Paulo. A
professora se deteve em analisar
um grupo de pais que conseguiram
criar sozinhos, seja porque
venceram a legislação que tende
a separá-los dos filhos, seja
porque a mulher abandonou a
família ou simplesmente
concordou com a nova situação.
INJUSTIÇA -
O colunista Ricardo Boechat é um
dos que consideram a Justiça
brasileira lesiva ao homem que
decide se separar. Mas ele diz
ter usado um argumento lógico e
racional. Há sete anos, ele
convenceu a mãe de seus três
filhos mais velhos a deixá-los
morar com ele. E espera que a
mãe de sua filha caçula, de 9
anos, que também mora em
Niterói, termine por aceitar o
seu argumento irrefutável e
mande em breve a menina para o
Rio de Janeiro, onde ele vive.
Boechat tem na
base de seu argumento, um
elemento puramente afetivo.
"Posso dizer que se não
fossem eles, eu não teria o
mesmo estímulo para fazer tudo o
que faço. Não é a missão de
pai que me agrada. É a
convivência com eles. Minha vida
com eles por perto tem mais
alegria. Gosto de fazer tudo com
eles. Ir à praia, jogar bola,
pescarias, viagens. Só não
danço em boates porque isto
nunca fiz nem quando jovem",
explica.
Para o chef de
cuisine Dominique Raymond, o
melhor pai é aquele que consegue
amar os filhos, sem
maltratá-los. "Estar com os
filhos é fácil,mas amá-los
profundamente é que é a
verdadeira missão",
acredita. Dominique Raymond
receberá de presente do Dia dos
Pais uma filha de verdade.
Ele adotou
plenamente a menina Luna, de 5
anos, sobrinha de sua mulher,
cujos pais morreram num acidente
de automóvel. No dia 12, ele
recebe a certidão definitiva de
Luna Françoise Holanda Raymond,
que viverá com sua filha
biológica, Alice, de 3 anos.
"Já era apaixonado por
Luna, a moreninha de olhos
puxados que agora é minha
filhinha", festeja.