- -- - - -- - - - - - - -- - - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 11 de agosto de 1998

PARTIDOS II
Sigla sobreviveu a muitas pressões do regime militar

A sigla PMDB nasceu de um palpite inteligente, que teve o poder de neutralizar a estratégia cuidadosamente montada pelo regime militar para deter o avanço eleitoral da oposição. Ao introduzir, na reforma partidária de 1979, a exigência de que todas as legendas adotassem a palavra partido, o Governo pretendia varrer do mapa político a sigla da única agremiação oposicionista de então: o MDB (Movimento Democrático Brasileiro), que tinha caído no gosto popular e vinha atraindo mais e mais votos a cada eleição, desde o pleito de 1974.

Soou estranho um "partido do movimento", mas deu certo. Apesar de parte de suas lideranças ter migrado para as novas legendas nascidas da reforma partidária, o PMDB conseguiu manter e ampliar o seu capital eleitoral, com a ajuda providencial de alguns erros estratégicos do Governo da época. O maior foi a adoção do voto vinculado, que obrigava o eleitor a optar pela chapa completa de um mesmo partido. Na prática, a medida - que destinava-se a beneficiar o governista PDS - praticamente inviabilizou as pequenas agremiações recém-criadas, e obrigou o então governador Tancredo Neves a reincorporar o seu Partido Popular ao PMDB. Assim, o País, embora formalmente livre do bipartidarismo, voltava a ter apenas dois grandes partidos.

Mas o PMDB sonhava mais alto, queria o poder. Já tinha tentado de maneiras um tanto quixotescas: através da "anticandidatura" de seu presidente Ulysses Guimarães; do lançamento de um general (Euler Bentes Monteiro) à Presidência; e da campanha das Diretas-já, um movimento que visava à aprovação da emenda Dante de Oliveira, covocando eleições diretas para o Palácio do Planalto. Mas a tentativa que deu certo usou o feitiço contra o feiticeiro. Foi com a ajuda de uma dissidência entre os aliados do Governo (que viria a transformar-se no atual PFL) que o PMDB conseguiu a maioria dos votos no Colégio Eleitoral. Em 84, o peemedebista moderado Tancredo Neves vencia Paulo Maluf.

Por uma dessas fatalidades que só o destino explica, Tancredo foi para o hospital (de onde só sairia morto) na véspera da posse, e quem assumiu foi o vice José Sarney, da ala governista dissidente e até recentemente presidente do partido oficial. Incrédulo, o PMDB caiu das nuvens, mas logo adaptou-se e tratou de ocupar como pôde os espaços (leia-se cargos) do poder. Durante o mandato Sarney, o partido amesquinhou sua imagem de luta contra o autoritarismo, mostrando um lado altamente fisiológico que em nada ficava a dever ao destronado PDS, e que viria a atingir o seu auge na prorrogação do mandato do presidente da República. Todo mundo entrou no jogo, sob a liderança do deputado Ulysses Guimarães, que na época acumulava as presidências da Câmara, da Constituinte, do PMDB e vice da República.

O eleitorado deu o troco. O PMDB, que lutou pelas diretas, nunca conseguiu eleger um presidente por essa via. Primeiro com Ulysses, depois com Orestes Quércia, a performance da legenda foi absolutamente pífia nas campanhas sucessórias. No Congresso, a situação era boa até às últimas eleições, quando o partido conseguiu eleger as maiores bancadas no Senado e na Câmara. Mas essa bancada peemedebista tornou-se apenas a terceira na Câmara e a segunda no Senado. Este ano, o partido, rachado entre uma corrente que defendia o apoio à reeleição de Fernando Henrique e outra, que preferia o lançamento de candidato próprio ao Palácio do Planalto, terminou não decidindo nada e perdendo o seu tempo no guia eleitoral.

 
     

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