PARTIDOS II
Sigla
sobreviveu a muitas pressões do
regime militarA sigla PMDB nasceu de
um palpite inteligente, que teve
o poder de neutralizar a
estratégia cuidadosamente
montada pelo regime militar para
deter o avanço eleitoral da
oposição. Ao introduzir, na
reforma partidária de 1979, a
exigência de que todas as
legendas adotassem a palavra
partido, o Governo pretendia
varrer do mapa político a sigla
da única agremiação
oposicionista de então: o MDB
(Movimento Democrático
Brasileiro), que tinha caído no
gosto popular e vinha atraindo
mais e mais votos a cada
eleição, desde o pleito de
1974.
Soou estranho
um "partido do
movimento", mas deu certo.
Apesar de parte de suas
lideranças ter migrado para as
novas legendas nascidas da
reforma partidária, o PMDB
conseguiu manter e ampliar o seu
capital eleitoral, com a ajuda
providencial de alguns erros
estratégicos do Governo da
época. O maior foi a adoção do
voto vinculado, que obrigava o
eleitor a optar pela chapa
completa de um mesmo partido. Na
prática, a medida - que
destinava-se a beneficiar o
governista PDS - praticamente
inviabilizou as pequenas
agremiações recém-criadas, e
obrigou o então governador
Tancredo Neves a reincorporar o
seu Partido Popular ao PMDB.
Assim, o País, embora
formalmente livre do
bipartidarismo, voltava a ter
apenas dois grandes partidos.
Mas o PMDB
sonhava mais alto, queria o
poder. Já tinha tentado de
maneiras um tanto quixotescas:
através da
"anticandidatura" de
seu presidente Ulysses
Guimarães; do lançamento de um
general (Euler Bentes Monteiro)
à Presidência; e da campanha
das Diretas-já, um movimento que
visava à aprovação da emenda
Dante de Oliveira, covocando
eleições diretas para o
Palácio do Planalto. Mas a
tentativa que deu certo usou o
feitiço contra o feiticeiro. Foi
com a ajuda de uma dissidência
entre os aliados do Governo (que
viria a transformar-se no atual
PFL) que o PMDB conseguiu a
maioria dos votos no Colégio
Eleitoral. Em 84, o peemedebista
moderado Tancredo Neves vencia
Paulo Maluf.
Por uma dessas
fatalidades que só o destino
explica, Tancredo foi para o
hospital (de onde só sairia
morto) na véspera da posse, e
quem assumiu foi o vice José
Sarney, da ala governista
dissidente e até recentemente
presidente do partido oficial.
Incrédulo, o PMDB caiu das
nuvens, mas logo adaptou-se e
tratou de ocupar como pôde os
espaços (leia-se cargos) do
poder. Durante o mandato Sarney,
o partido amesquinhou sua imagem
de luta contra o autoritarismo,
mostrando um lado altamente
fisiológico que em nada ficava a
dever ao destronado PDS, e que
viria a atingir o seu auge na
prorrogação do mandato do
presidente da República. Todo
mundo entrou no jogo, sob a
liderança do deputado Ulysses
Guimarães, que na época
acumulava as presidências da
Câmara, da Constituinte, do PMDB
e vice da República.
O eleitorado
deu o troco. O PMDB, que lutou
pelas diretas, nunca conseguiu
eleger um presidente por essa
via. Primeiro com Ulysses, depois
com Orestes Quércia, a
performance da legenda foi
absolutamente pífia nas
campanhas sucessórias. No
Congresso, a situação era boa
até às últimas eleições,
quando o partido conseguiu eleger
as maiores bancadas no Senado e
na Câmara. Mas essa bancada
peemedebista tornou-se apenas a
terceira na Câmara e a segunda
no Senado. Este ano, o partido,
rachado entre uma corrente que
defendia o apoio à reeleição
de Fernando Henrique e outra, que
preferia o lançamento de
candidato próprio ao Palácio do
Planalto, terminou não decidindo
nada e perdendo o seu tempo no
guia eleitoral.