MIAMI III
Como
curtir o pedaço mais latino dos
Estados UnidosNenhum prefeito se elege
em Miami sem os votos dos
cubanos, e pense que esse é o
segundo colégio eleitoral
americano, depois da Califórnia.
Os votos dos cubanos implicam uma
sistemática política de
desagravo ao governo Fidel
Castro. Mais da metade dos
habitantes da cidade veio da ilha
onde o mesmo é ditador há 34
anos, e quase todos odeiam o
cara, torcem para que ele morra
ou que, no mínimo, abdique do
cargo. E muitos são ricos, moram
em condomínios de luxo e mandam
em boa parte da cidade, a 150
quilômetros de Havana.
Foram várias
levas de cubanos à Flórida, ao
longo do século. A primeira
representação significativa
teve certa responsabilidade da
empresa aérea Pan Am, que criou
a rota Key West-Havana em 1927 e
transformou a região em praia de
veraneio. Os cubanos foram
chegando e ficando com
facilidade, pois os americanos
torciam o nariz para o calor e os
mosquitos, como se viu em
matéria anterior.
Para entender a
segunda leva, é preciso um pouco
de história. Colonizada pelos
espanhóis, ocupada, na
seqüência, pelos Estados
Unidos, Cuba tornou-se
independente em 1902 e, mesmo
assim, os americanos mantiveram
uma base naval em Guantánamo e o
direito de intervir em assuntos
internos. O governo passou das
mãos do ditador Gerardo Machado
para as do ex-sargento Fulgencio
Batista em 1933. Batista ficou no
cargo até 1944, mas oito anos
depois liderou um golpe de estado
e estabeleceu nova ditadura.
Alguns setores
da economia atraíram
investimentos americanos (setores
açucareiro, mineração,
turismo, jogo), só que a
população não viu a cor dos
dólares. O governo impopular
ganhou um oponente de peso: Fidel
Castro. Atacou o quartel de La
Moncada, em 1953, foi preso,
libertado, exilou-se no México,
retornou com um grupo de
guerrilheiros e tomou Havana em
1959. Prometeu eleições em 18
meses, promoveu reforma agrária,
nacionalizou empresas
estrangeiras e fuzilou amigos de
Batista.
E disse para os
que quiseram ouvir que as portas
da ilha estavam abertas para os
contrários. Balsas e mais
balsas, seis aviões por dia (em
média) levaram cubanos para a
Flórida. Os Estados Unidos
romperam com o país em 1961, e
logo após Fidel anunciou que
Cuba seria um estado
marxista-leninista. Um ano
depois, os americanos decretaram
bloqueio político e econômico
contra a ilha, e o ditador, no
poder até hoje, incentivou
movimentos revolucionários em
toda a América Latina.
Hoje os cubanos
vivem, principalmente, no condado
de Little Havana, que tem como
artéria principal a Calle Ocho
ou 8th Street, próxima ao
aeroporto. No lugar só se fala
espanhol e é ponto certo para se
discutir sobre aqueles e outros
assuntos ligados à ilha. Como
não poderia deixar de ser, é de
lá que vão soltar os primeiros
rojões caso Fidel Castro saia do
poder e, em última instância,
morra. A maioria, no entanto,
não cortou laços
definitivamente com sua pária.
Continuam a mandar dinheiro para
seus familiares e alguns até
sonham um dia em voltar para o
berço.