- - - -- - - - - - - - - - - -- - - - - - - -Jornal do Commercio - Recife, 06 de agosto de 1998

MIAMI III
Como curtir o pedaço mais latino dos Estados Unidos

Nenhum prefeito se elege em Miami sem os votos dos cubanos, e pense que esse é o segundo colégio eleitoral americano, depois da Califórnia. Os votos dos cubanos implicam uma sistemática política de desagravo ao governo Fidel Castro. Mais da metade dos habitantes da cidade veio da ilha onde o mesmo é ditador há 34 anos, e quase todos odeiam o cara, torcem para que ele morra ou que, no mínimo, abdique do cargo. E muitos são ricos, moram em condomínios de luxo e mandam em boa parte da cidade, a 150 quilômetros de Havana.

Foram várias levas de cubanos à Flórida, ao longo do século. A primeira representação significativa teve certa responsabilidade da empresa aérea Pan Am, que criou a rota Key West-Havana em 1927 e transformou a região em praia de veraneio. Os cubanos foram chegando e ficando com facilidade, pois os americanos torciam o nariz para o calor e os mosquitos, como se viu em matéria anterior.

Para entender a segunda leva, é preciso um pouco de história. Colonizada pelos espanhóis, ocupada, na seqüência, pelos Estados Unidos, Cuba tornou-se independente em 1902 e, mesmo assim, os americanos mantiveram uma base naval em Guantánamo e o direito de intervir em assuntos internos. O governo passou das mãos do ditador Gerardo Machado para as do ex-sargento Fulgencio Batista em 1933. Batista ficou no cargo até 1944, mas oito anos depois liderou um golpe de estado e estabeleceu nova ditadura.

Alguns setores da economia atraíram investimentos americanos (setores açucareiro, mineração, turismo, jogo), só que a população não viu a cor dos dólares. O governo impopular ganhou um oponente de peso: Fidel Castro. Atacou o quartel de La Moncada, em 1953, foi preso, libertado, exilou-se no México, retornou com um grupo de guerrilheiros e tomou Havana em 1959. Prometeu eleições em 18 meses, promoveu reforma agrária, nacionalizou empresas estrangeiras e fuzilou amigos de Batista.

E disse para os que quiseram ouvir que as portas da ilha estavam abertas para os contrários. Balsas e mais balsas, seis aviões por dia (em média) levaram cubanos para a Flórida. Os Estados Unidos romperam com o país em 1961, e logo após Fidel anunciou que Cuba seria um estado marxista-leninista. Um ano depois, os americanos decretaram bloqueio político e econômico contra a ilha, e o ditador, no poder até hoje, incentivou movimentos revolucionários em toda a América Latina.

Hoje os cubanos vivem, principalmente, no condado de Little Havana, que tem como artéria principal a Calle Ocho ou 8th Street, próxima ao aeroporto. No lugar só se fala espanhol e é ponto certo para se discutir sobre aqueles e outros assuntos ligados à ilha. Como não poderia deixar de ser, é de lá que vão soltar os primeiros rojões caso Fidel Castro saia do poder e, em última instância, morra. A maioria, no entanto, não cortou laços definitivamente com sua pária. Continuam a mandar dinheiro para seus familiares e alguns até sonham um dia em voltar para o berço.


     

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