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ARTIGO
Autonomia,
a solução?
por MOZART
NEVES RAMOS*
Parece que a
solução para o problema
salarial e estrutural das
Universidades Federais
concentra-se em uma única
palavra: autonomia. Dê-se
autonomia e tudo estará
resolvido. De repente, das trevas
se fará a luz! Infelizmente, as
coisas não são bem assim. A
autonomia é um processo e não
um ato que se conclui com a sua
própria instalação, e, por
conseguinte, necessita ser
construída com responsabilidade
por todos os setores: Governo,
Congresso e universidades. A
autonomia não resolverá, por um
passe de mágica, os baixos
salários dos professores e
técnicos administrativos destas
universidades, que estão há
mais de três anos sem nenhum
reajuste. Todos concordam que um
novo plano de carreiras precisa
ser estabelecido, mas isto,
claro, com um orçamento de
pessoal compatível com as
demandas do mercado e dentro de
uma política institucional de
qualificação. Torna-se, assim,
urgente sanear a questão
salarial. E o Governo até que
concorda com isso, mas apenas
para aqueles que estão na ativa.
Justifica-se considerando as
grandes disparidades salariais
entre o professor da ativa e do
quadro inativo.
Olhando o
aspecto meramente financeiro, o
Governo tem suas razões. Um
professor da ativa da
Universidade Federal do Pará,
por exemplo, ganha, em média, R$
1.972,48, enquanto um do quadro
inativo, R$ 3.088,68, devidamente
respaldado pela legislação
vigente. Por outro lado,
disparidades também existem
entre os professores da ativa, de
idêntica qualificação, nas
diferentes universidades
federais. Estas diferenças
decorrem de ganhos em ações
judiciais, que são comuns a
todas elas. Por exemplo, um
professor com doutorado, em
regime de dedicação exclusiva,
da Universidade Federal do Ceará
(UFCE), ganha R$ 4.170,50 e o da
Universidade Federal de
Pernambuco (UFPE) recebe R$
2.986,30. Desta forma, a UFCE
entrará com mais vantagem na
autonomia do que a UFPE, no que
concerne à distribuição do
bolo orçamentário.
Além dessas
discrepâncias, outras questões
precisam ser sanadas. É urgente
que se defina um modelo de
reposição de pessoal docente e
de técnico-administrativo. A
falta de reposição tem
enormemente contribuído para que
os hospitais universitários
operem no vermelho. Sem falar no
comprometimento que isto tem
causado à qualidade do ensino e
da pesquisa. Hoje, as atividades
das bibliotecas e laboratórios
de ensino estão sendo mantidas,
de forma regular, graças à
participação de bolsistas.
Quanto ao
aspecto orçamentário, o
ministro da Educação, Paulo
Renato Souza, conseguiu, com
muito esforço, garantir, junto
à área econômica do Governo,
que os 75% dos 18% do orçamento
da educação fossem mantidos
para as universidades federais,
como vem ocorrendo até aqui.
Contudo, estes percentuais são
baseados nos valores
orçamentários executados em 97,
considerados insuficientes para
as atividades de manutenção e
investimento das universidades. E
isto é bastante preocupante para
quem precisa ser autônomo. Além
disso, é necessário que se
façam previsões de crescimento,
não só físicas, mas no âmbito
da própria qualificação do
corpo docente. A melhoria da
qualificação do corpo docente
leva, naturalmente, a um aumento
na folha de pessoal, que terá de
sair do bolo orçamentário da
universidade. Isto significa
redução de recursos para a
manutenção das atividades
acadêmicas, caso não haja uma
previsão de incremento
orçamentário para investimento
em qualificação, já que um
professor com doutorado, por
exemplo, ganha mais do que um com
mestrado. E não estou falando em
expansão do quadro.
Assim, pelos
exemplos que acabei de citar, a
autonomia antes de ser uma
solução é um desafio. É
preciso, pois, que se construa
uma atmosfera serena e de
equilíbrio no seio das
universidades federais, antes de
implantá-la. É essencial que se
busque uma solução adequada e
responsável para a questão
salarial, para que, novamente, a
normalidade retorne aos campi das
universidades federais. Todos
aguardam por isto.
*Mozart
Neves Ramos é Reitor da UFPE
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