MENOS DE 50 ANOS
FHC
chama aposentados jovens de
vagabundosRIO - O
presidente Fernando Henrique
Cardoso afirmou, ontem, que
"pessoas que se aposentam
com menos de 50 anos são
vagabundos, que se locupletam de
um país de pobres e
miseráveis". Fernando
Henrique defendeu a reforma da
Previdência, que recentemente
impôs uma derrota ao Governo, na
Câmara, pelo voto equivocado do
ex-ministro e deputado Antônio
Kandir (PSDB-SP). "Quando se
perde uma votação, parece que o
mundo vem abaixo. Doce ilusão.
Basta ter convicção, para
entender o processo nacional e
saber que o que se perde hoje, se
ganha amanhã." Um dos
pontos polêmicos da reforma da
Previdência é justamente o que
define os 65 anos como idade
mínima para a aposentadoria.
Fernando
Henrique aproveitou a cerimônia
de abertura da 10ª edição do
Fórum Nacional, no auditório do
Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES), para
fazer um balanço de seu Governo;
rebater as críticas de que teria
optado pela economia, em
detrimento das questões sociais;
e apresentar a linha que marcará
sua campanha pela reeleição.
NEO-REPUBLICANO
- O presidente precisou de
quase uma hora para apresentar a
tese Uma utopia viável. "O
que obviamente é uma
contradição em termos, digo de
antemão, antes que um cronista
venha dizer que estou falando uma
bobagem", ressalvou. A
expressão, disse Fernando
Henrique, foi retirada de livro
do inglês Anthony Giddens, que
propõe um modelo entre a
esquerda e a direita, a chamada
"terceira via". No
discurso que levou para o BNDES,
e acabou não lendo, empolgado
com a chance de dar uma aula à
platéia, Fernando Henrique
classificava esse modelo de
"neo-republicanismo",
em oposição ao neoliberalismo.
Dentro de sua
"utopia viável", para
mostrar a diferença em relação
ao neoliberalismo, o presidente
afirmou que sua proposta não é
um Estado mínimo, mas sim
"essencial, onde as
questões de saúde, educação e
habitação sejam
contempladas". Este Estado
essencial, desenhado por Fernando
Henrique, seria, no entanto, mais
regulador do que intervencionista
na economia. "Precisamos
desprivatizar o Estado",
disse o presidente, criticando as
pressões do setor privado e
apresentando uma lista de
problemas decorrentes do
clientelismo e do fisiologismo.
SOCIAL -
O discurso foi diferente do que
marcou a campanha de 1994, quando
a economia, por conta do combate
à inflação, era o centro
principal da disputa, deixando de
lado as questões sociais.
"Em primeiro lugar, na minha
visão de Estado, vem a
democracia; em segundo, a
questão social; e, em terceiro,
a economia, porque acho que esta
deve ser mesmo a ordem das
coisas."
"A pobreza
e a miséria são hoje a nódoa
do Brasil, como foi a escravidão
no passado", disse o
presidente, parodiando o
abolicionista Joaquim Nabuco.
"Isso me envergonha." O
presidente aproveitou para
mostrar que, nas áreas em que o
programa Comunidade Solidária,
conduzido por sua mulher, Ruth
Cardoso, atua, houve redução da
taxa de mortalidade infantil.
O presidente
também fez uma leitura nova do
problema do desemprego. "O
nível de emprego no Brasil está
crescendo, ao mesmo tempo em que
há desemprego, porque a oferta
de mão-de-obra vem crescendo. E
isso porque estamos sofrendo o
efeito do crescimento
demográfico de há 20 anos,
quando a taxa (de natalidade) se
aproximava de 3%. Hoje, está em
1,4%. No Brasil do próximo
século, haverá diminuição da
oferta de mão-de-obra, se
mantivermos e ampliarmos o nível
de desenvolvimento. Não há
porque ter medo do
desemprego", concluiu.