- - - - - - - -- - - - - - - -- - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 12 de maio de 1998

ARTES PLÁSTICAS
Tudo o que é belo merece ser (bem) pintado

por FLÁVIA DE GUSMÃO

Ter cuidadoso é uma característica do arquiteto José Goiana e cuidadosamente ele começou, há três anos, uma nova carreira: a de artista plástico. Na época, escolheu pintar com aquarela: o tom lavado, menos vívido, proporcionado por esta técnica dizia bem à sua timidez de iniciante. Mais que isso, um iniciante que transitava com desenvoltura entre os iniciados - Goiana tem entre o seu rol de amigos íntimos vários artistas consagrados.

Foi então que ele deu o último passo que ainda separava o arquiteto do pintor, o primeiro nascido há 25 anos, o segundo ainda caminhando com hesitação. A aprovação veio de Guita Charifker, também aquarelista, que ele classifica como "uma referência importante". Fizeram coro Francisco Brennand, que já reconhecia nos desenhos de seus projetos um potencial para a pintura, e Gilberto Chateaubriand, um colecionador exigente que prefere desconversar a comprar uma tela ruim de um amigo - comprou três.

Nesta sua terceira individual, que será inaugurada nesta quinta-feira, às 20 horas, na Galeria Espaço Vivo (Av. Domingos Ferreira, 3.023), José Goiana deixou para trás a cautela e fez o que sempre quis, desde o início: se espalhar por toda amplitude da tela com cores fortes e primárias, desta vez contando com a consistência da tinta acrílica.

Embora os pruridos que o impediam de pintar até para si mesmo, como hobby, tenham ido embora junto com a água que lavou seus pincéis, Goiana deixa claro em suas telas o seu gosto profissional pela harmonia das formas. "Tinha medo de deixar a arquitetura de lado por causa da pintura", confessa, "Demorei a começar porque não sabia se tinha talento para a pintura e não valia a pena começar algo que teria de ser interrompido", admite.

Hoje, a excessiva autocrítica ocupa um espaço menor em seu trabalho. No lugar dela, surgiu um genuíno prazer em pintar "nos fins de semana e feriados", revela. A fonte deste prazer, segundo ele, é a falta de rigor excessivo consigo mesmo e a falta de necessidade de se enquadrar em algum gênero ou movimento, "até me programei a vida inteira para ser arquiteto".

É esse "descompromisso" que encanta nas suas telas. Seguidor da escola do modernismo racional, o arquiteto José Goiana acredita na valorização da qualidade do espaço interior e na sua adequação ao espaço exterior; o pintor se deixa levar pelo fascínio de brincar com várias composições de forma e cor, sem se preocupar com o conforto das pessoas que porventura habitassem as casa e sobrados que retrata. Como se o mundo fosse povoado por gente que sente o conforto do olhar.

O olho de Goiana capta o belo, mesmo que esta beleza precise ser recriada. Posicionado ao lado do Teatro Santa, ele vê o casario da Rua da Aurora, entre as folhas de um flamboyant, expurgado de toda a poluição visual que contamina os arredores. A beleza faz parte de sua personalidade e lhe é tão necessária quanto o lápis e o pincel. Para alcançá-la, ele não precisa ir tão longe: volta-se para o próprio lar e flagra a beleza das helicônias (flores preferidas de sua mulher), num único quadro mais gestualmente liberado, o equilíbrio de sua casa de praia, em Toquinho (que já foi matéria da revista de arquitetura e decoração A&D) e barcos e fachadas e em todo lugar onde more a beleza, o arquiteto e artista plástico José Goiana será um eterno voyeur.


     

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