ARTES PLÁSTICAS
Tudo
o que é belo merece ser (bem)
pintadopor FLÁVIA DE
GUSMÃO
Ter cuidadoso
é uma característica do
arquiteto José Goiana e
cuidadosamente ele começou, há
três anos, uma nova carreira: a
de artista plástico. Na época,
escolheu pintar com aquarela: o
tom lavado, menos vívido,
proporcionado por esta técnica
dizia bem à sua timidez de
iniciante. Mais que isso, um
iniciante que transitava com
desenvoltura entre os iniciados -
Goiana tem entre o seu rol de
amigos íntimos vários artistas
consagrados.
Foi então que
ele deu o último passo que ainda
separava o arquiteto do pintor, o
primeiro nascido há 25 anos, o
segundo ainda caminhando com
hesitação. A aprovação veio
de Guita Charifker, também
aquarelista, que ele classifica
como "uma referência
importante". Fizeram coro
Francisco Brennand, que já
reconhecia nos desenhos de seus
projetos um potencial para a
pintura, e Gilberto
Chateaubriand, um colecionador
exigente que prefere desconversar
a comprar uma tela ruim de um
amigo - comprou três.
Nesta sua
terceira individual, que será
inaugurada nesta quinta-feira,
às 20 horas, na Galeria Espaço
Vivo (Av. Domingos Ferreira,
3.023), José Goiana deixou para
trás a cautela e fez o que
sempre quis, desde o início: se
espalhar por toda amplitude da
tela com cores fortes e
primárias, desta vez contando
com a consistência da tinta
acrílica.
Embora os
pruridos que o impediam de pintar
até para si mesmo, como hobby,
tenham ido embora junto com a
água que lavou seus pincéis,
Goiana deixa claro em suas telas
o seu gosto profissional pela
harmonia das formas. "Tinha
medo de deixar a arquitetura de
lado por causa da pintura",
confessa, "Demorei a
começar porque não sabia se
tinha talento para a pintura e
não valia a pena começar algo
que teria de ser
interrompido", admite.
Hoje, a
excessiva autocrítica ocupa um
espaço menor em seu trabalho. No
lugar dela, surgiu um genuíno
prazer em pintar "nos fins
de semana e feriados",
revela. A fonte deste prazer,
segundo ele, é a falta de rigor
excessivo consigo mesmo e a falta
de necessidade de se enquadrar em
algum gênero ou movimento,
"até me programei a vida
inteira para ser arquiteto".
É esse
"descompromisso" que
encanta nas suas telas. Seguidor
da escola do modernismo racional,
o arquiteto José Goiana acredita
na valorização da qualidade do
espaço interior e na sua
adequação ao espaço exterior;
o pintor se deixa levar pelo
fascínio de brincar com várias
composições de forma e cor, sem
se preocupar com o conforto das
pessoas que porventura habitassem
as casa e sobrados que retrata.
Como se o mundo fosse povoado por
gente que sente o conforto do
olhar.
O olho de
Goiana capta o belo, mesmo que
esta beleza precise ser recriada.
Posicionado ao lado do Teatro
Santa, ele vê o casario da Rua
da Aurora, entre as folhas de um
flamboyant, expurgado de toda a
poluição visual que contamina
os arredores. A beleza faz parte
de sua personalidade e lhe é
tão necessária quanto o lápis
e o pincel. Para alcançá-la,
ele não precisa ir tão longe:
volta-se para o próprio lar e
flagra a beleza das helicônias
(flores preferidas de sua
mulher), num único quadro mais
gestualmente liberado, o
equilíbrio de sua casa de praia,
em Toquinho (que já foi matéria
da revista de arquitetura e
decoração A&D) e barcos e
fachadas e em todo lugar onde
more a beleza, o arquiteto e
artista plástico José Goiana
será um eterno voyeur.