- - - - - - - -- - - - - - - -- - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 12 de maio de 1998

DE PORTUGAL
Multidões ululantes invadem Lisboa

Apesar da Copa do Mundo se realizar na França, confesso que, em Lisboa, estarei apreensivo. Na minha recente e curta estada no Recife, constatei que os brasileiros estão absolutamente convencidos que conquistarão o penta Campeonato. Isto parece ser um dado adquirido. O óbvio ululante, como diria Nélson Rodrigues. Fiquei (e estou) preocupado.

- E se o Brasil perder? perguntava, e o semblante das pessoas era de espanto, como se tratasse de uma hipótese de tal forma absurda, que nem sequer merecia ser considerada.

Há um excesso de otimismo que, para mim, parece perigoso.

Espero que o governo brasileiro e o Itamarati não compartilhem dessa confiança cega e pensem e planejem uma maneira de atender os milhares de "órfãos" que ficarão à mercê do deus dará, perdidos pelas ruas francesas, "reruminando-se" na fossa, se o cataclismo acontecer.

Imaginemos o cenário. O Brasil passa sem (ou com) dificuldades a primeira fase, classifica-se para a segunda, vai à meia-final, e perde. Será uma frustação muito grande para a qual, psicologicamente, não está preparado. Se a "derrota" tivesse acontecido apenas no último jogo, na decisão, o drama não seria tão intenso nem a frustação tão agravada.

Continuemos a imaginar. Dos 80 a 100 mil torcedores que deverão se deslocar à França para acompanhar a Seleção, cerca de 90 por cento (no barato) serão, de certeza, monoglotas, isto é, falam apenas o português. Claro está que não irão permanecer no país. Não faria mais sentido, visto não terem mais por quem nem porque torcer. Nem motivação. Aí começa o perigo a rondar.

Ficariam sabendo, então, que em Lisboa, Portugal, está havendo uma feira, um congresso, uma coisa qualquer, um festival talvez. Trata-se da Expo-98. Então resolvem ver que bicho é este e partem céleres para a capital portuguesa. Aí o meu medo.

Invadirão em hordas, de trem, automóvel, ônibus ou avião, sem reservas de hospedagem, sem conhecimentos da cidade nem do que está a se passar à sua volta.

Lisboa prevê receber milhões de turistas até o final de setembro, quando a Expo termina. Esta multidão aguardada, há muito já planejou a viagem e a estadia - está dentro dos conformes. O que não está previsto é a invasão desta legião de "derrotados", que têm como perspectiva imediata apenas a quitação das 35 prestações que vão ter de pagar à companhia de turismo que lhes financiou a viagem.

Quando tal acontecer, comunico que fugirei de Lisboa e pedirei asilo na embaixada mais próxima da minha casa, porque eu sei que vai sobrar para mim.


     

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