DE PORTUGAL
Multidões
ululantes invadem LisboaApesar da Copa do Mundo
se realizar na França, confesso
que, em Lisboa, estarei
apreensivo. Na minha recente e
curta estada no Recife, constatei
que os brasileiros estão
absolutamente convencidos que
conquistarão o penta Campeonato.
Isto parece ser um dado
adquirido. O óbvio ululante,
como diria Nélson Rodrigues.
Fiquei (e estou) preocupado.
- E se o Brasil
perder? perguntava, e o semblante
das pessoas era de espanto, como
se tratasse de uma hipótese de
tal forma absurda, que nem sequer
merecia ser considerada.
Há um excesso
de otimismo que, para mim, parece
perigoso.
Espero que o
governo brasileiro e o Itamarati
não compartilhem dessa
confiança cega e pensem e
planejem uma maneira de atender
os milhares de
"órfãos" que ficarão
à mercê do deus dará, perdidos
pelas ruas francesas,
"reruminando-se" na
fossa, se o cataclismo acontecer.
Imaginemos o
cenário. O Brasil passa sem (ou
com) dificuldades a primeira
fase, classifica-se para a
segunda, vai à meia-final, e
perde. Será uma frustação
muito grande para a qual,
psicologicamente, não está
preparado. Se a
"derrota" tivesse
acontecido apenas no último
jogo, na decisão, o drama não
seria tão intenso nem a
frustação tão agravada.
Continuemos a
imaginar. Dos 80 a 100 mil
torcedores que deverão se
deslocar à França para
acompanhar a Seleção, cerca de
90 por cento (no barato) serão,
de certeza, monoglotas, isto é,
falam apenas o português. Claro
está que não irão permanecer
no país. Não faria mais
sentido, visto não terem mais
por quem nem porque torcer. Nem
motivação. Aí começa o perigo
a rondar.
Ficariam
sabendo, então, que em Lisboa,
Portugal, está havendo uma
feira, um congresso, uma coisa
qualquer, um festival talvez.
Trata-se da Expo-98. Então
resolvem ver que bicho é este e
partem céleres para a capital
portuguesa. Aí o meu medo.
Invadirão em
hordas, de trem, automóvel,
ônibus ou avião, sem reservas
de hospedagem, sem conhecimentos
da cidade nem do que está a se
passar à sua volta.
Lisboa prevê
receber milhões de turistas até
o final de setembro, quando a
Expo termina. Esta multidão
aguardada, há muito já planejou
a viagem e a estadia - está
dentro dos conformes. O que não
está previsto é a invasão
desta legião de
"derrotados", que têm
como perspectiva imediata apenas
a quitação das 35 prestações
que vão ter de pagar à
companhia de turismo que lhes
financiou a viagem.
Quando tal
acontecer, comunico que fugirei
de Lisboa e pedirei asilo na
embaixada mais próxima da minha
casa, porque eu sei que vai
sobrar para mim.