Biotecnologia de PlantasO cenário da seca no
Nordeste, com famílias se
alimentando de palma forrageira
ou dependente de cestas básicas
- quando não, fazendo saques
para obter comida - é
angustiante. Mas, não deve
elevar o nosso constrangimento a
ponto de omitir algumas notícias
alentadoras, mesmo que seus
resultados só possam aparecer
plenamente depois de passado o
pesadelo que se repete de tantos
em tantos anos. Uma delas: os
esforços oficiais para a
criação pioneira de um Centro
de Biotecnologia de Plantas, em
Pernambuco.
Trata-se,
efetivamente, da aplicação dos
avanços da ciência contra as
hostilidades do meio ambiente,
através da obtenção de mudas
mais resistentes à falta de
água, e por isso é um assunto a
ser divulgado e discutido durante
e depois da seca. A Secretaria de
Ciência, Tecnologia e Meio
Ambiente, através do seu
titular!, o físico Sérgio
Rezende, trouxe a Pernambuco o
professor Robert Bruce Goldberg,
da Universidade de Califórnia,
para colaborar na implantação
do projeto, teoricamente ligado
à decifração do código
genético de várias espécies
vegetais. Para apoiar o cientista
visitante, considerado uma das
autoridades internacionais em
biologia molecular, o secretário
e professor pernambucano espera
contar com o que de melhor existe
na comunidade científica, nas
áreas de pesquisa da
matemática, da física, da
químicas e da biologia, aí
incluídos os estudiosos de
engenharia genética.
O Centro a ser
criado já encontrará, em
Pernambuco, um grupo de
pesquisadores - ligados à UFPE e
à Universidade de Havana, em
Cuba - que vêm trabalhando
juntos numa biofábrica de
cana-de-açúcar, no distrito de
Itapirema, município de Goiana.
Nesse mesmo local, numa área de
200 hectares, será criada a
primeira unidade de
biotecnologia, devendo ali
desenvolver espécies mais
resistentes de mudas de banana,
abacaxi, tomate e café, além da
cana-de-açúcar. É de registrar
que, ultrapassando os
"embargos" de natureza
política, especialistas de Cuba
e dos Estados Unidos estarão
trabalhando juntos com a mesma
finalidade, e no solo brasileiro,
acompanhados por cientistas que
trabalham em Pernambuco.
Juntamente com
a Secretaria de Ciência,
Tecnologia e Meio Ambiente,
estão comprometidos com o
projeto técnicos do Instituto de
Pesquisas Agronômicas - IPA, da
Secretaria da Agricultura -, e
professores da UFPE e da UFRPE.
Os custos estão sendo
viabilizados, através de
convênio com outro órgão
estadual, a Facepe, para a
montagem do laboratório de
fisiologia vegetal, bioquímica,
genética, biologia molecular e
informática.
Afirmam os seus
idealizadores que se trata de um
projeto que permitirá a
Pernambuco uma oferta continuada
de mudas próprias para o
semi-árido e demais
microrregiões agrícolas em que
se divide o Estado, com um mais
adequado controle de pragas
comuns à lavoura. No que se
refere à cana-de-açúcar, a
biofábrica instalada em
Itapirema já vem produzindo,
segundo fontes oficiais, 150 mil
mudas saudáveis por mês. E
agora ali estão sendo testados
alguns dos usos alternativos dos
seus derivados, já de
conhecimento de todos há várias
décadas, mas até agora não
concretizados. Entre esses usos
possíveis, pelo menos desde 1958
são feitas referências à
ração animal tendo a palha como
matéria-prima, e a produção de
aglomerados do
"bagaço" da cana para
móveis e habitações populares.
Agora, com a criação do Centro
de Biotecnologia de Plantas,
parece que essas idéias vão
deixar de ser apenas assunto de
reuniões e congressos, podendo
transformar-se em realidade.
Mesmo quando o
presente está a exigir ações
emergenciais, pois a fome não
espera pela próxima colheita, é
preciso pensar no futuro. Um
projeto como o do Centro de
Biotecnologia de Plantas
transcende as circunstâncias
meteorológicas e também as
políticas. Seja qual for o rumo
das próximas eleições, deve
ser considerado prioritário pelo
atual e pelo futuro governo.