- - - -...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 10 de maio de 1998

MÃE
Quando a mãe não está tão perto

por SÉRGIO ROBERTO LIMA

Maria da Conceição de Mendonça Silva, de 22 anos, recebeu a reportagem do JC, na semana passada, com os olhos cheios d'água. "É que eu estava dormindo", despistou. Logo depois, confessou que se lembrou do filho quando viu pelas grades da Colônia Penal Feminina algumas crianças brincando em frente ao presídio.

Desde que foi presa, há um ano e sete meses, não são os sete anos que ainda terá de passar na penitenciária a sua principal queixa. A maior preocupação dela é o filho, Gênesis, de 3 anos, que está sendo criado por uma irmã dela de apenas 16 anos. "Dá uma raiva quando eu sonho com o meu filho e acordo pensando que eu estou em casa", afirma. O choro, nessas horas, ela diz que é inevitável.

Durante a entrevista, ela pede ao repórter para procurar saber se o filho se recuperou do cansaço que o obrigou a ir embora na última visita dele ao presídio. "Preciso saber como ele está. Minha irmã não me dá um telefonema e eu não tenho como me comunicar com ela", lamenta.

Ao contrário da maioria das presidiárias, Conceição não tenta convencer as pessoas de que é inocente ou de que foi vítima da sua ingenuidade. Rindo da própria situação, ela conta como ajudou o companheiro no assalto a dois taxistas numa mesma noite, depois de sairem bêbados de um pagode. Ela jura que só soube que ele estava armado depois de assaltar o primeiro motorista. "Eu tenho até medo de pegar em arma", afirma.

Não satisfeito, o seu companheiro, segundo ela, decidiu fazer um segundo assalto. "Eu não podia deixar ele só. Na condição em que estava, ia acabar sendo pego pela polícia e depois bater na minha casa e acordar meus irmãos e meu filho", supõe. A embriaguez foi a culpada pela prisão do casal. O comparsa dela acabou disparando um tiro no próprio pé.

"A pior coisa é ver um filho doente e não poder sair para ir levá-lo ao médico", reclama, resumindo um sentimento de impotência que ela garante ser dela e das outras 132 das 156 presidiárias que são mães. Para lembrar do filho, um garoto louro e esperto, Conceição colou uma foto do ator Macaulay Culkin, "o pestinha", na parede da sua cela.

Uma válvula de escape do sentimento materno para a presidiária é cuidar dos filhos das colegas. "Sempre que uma presidiária tem filho, sou eu quem cuida. Mas na hora de passar as fraldas, bate uma saudade e aí eu choro muito me lembrando de Gênesis", comenta.

Os planos de Conceição para quando ganhar a liberdade são arranjar um emprego e, talvez, ter outro filho. O companheiro foi condenado a nove anos de prisão e está na Penitenciária Aníbal Bruno. Ela admite que gostaria de que eles ficassem juntos. Ele planeja, no entanto, ir viver em São Paulo. "Nesse caso, eu fico. Quero criar meu filho aqui e só uma mulher muito burra larga o filho por causa de homem".


     

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