MÃE
II
Em
duas realidades opostas, a
atribulada tarefa de ser mãeA cozinheira Josenice
Ribeiro da Silva, de 37 anos,
mora numa invasão em Rio Doce,
Olinda. O mais novo dos seus seis
filhos tem 2 anos e a mais velha
tem 14, e já é mãe de uma
menina de 4 meses. Um outro filho
é surdo-mudo e sofre de um tipo
de leucemia que o faz ter
convulsões constantes. O marido
está desempregado, assim como o
pai da neta de Josenice, de 22
anos, que mora na mesma casa de
três cômodos. A irmã mais
velha da cozinheira, de 42 anos,
também mora com ela e não pode
trabalhar por problemas de
saúde. Josenice trabalha para
sustentar dez pessoas e ganha um
salário mínimo por mês.
A empresária
Tânia Spinelli, 46 anos, mora
num confortável apartamento em
Piedade. Tem três filhas e uma
delas faz universidade nos
Estados Unidos. Depois que ficou
viúva, Tânia assumiu parte da
empresa do marido, com sede na
Holanda. Por causa disso, a
empresária viaja a cada três
semanas para a Europa, onde fica
por, pelo menos, 20 dias.
Josenice e
Tânia parecem viver em mundos
opostos, mas, além de estarem
juntas nas estatísticas do IBGE
que dizem haver mais de 8,4
milhões de brasileiras chefes de
família, as duas carregam o
orgulho de superar as
dificuldades para conseguir ser
mães. A empresária procura
vencer as barreiras do tempo e da
geografia para acompanhar os
problemas e dividir as alegrias
com as filhas. A cozinheira
carrega a tarefa - para muitos,
quase impossível de ser cumprida
num ambiente como o que ela vive
- de desviar os filhos da
marginalidade e superar as
necessidades básicas de um ser
humano, como a fome.
Nos momentos de
ausência, as filhas mais velhas
geralmente acabam cumprindo o
papel das mães. Natália, 22
anos, faz as vezes de Tânia
quando ela está no exterior e
cuida da irmã mais nova, de 11
anos. "Quando não se tem
marido, a gente tem que
desempenhar vários papéis na
criação dos filhos, mas é
impossível ser mãe nas 24
horas. Nem eu gostaria de tentar
fazer isso. Minha ausência deixa
minhas filhas mais maduras",
acredita Tânia.
Apesar disso,
ela lembra de momentos em que a
função de mãe foi mais exigida
do que a de profissional.
"Certa vez, eu estava na
Holanda, quando Natália me ligou
dizendo que havia terminado um
noivado de quatro anos e
meio", relembra. Apesar de a
filha dizer que estava bem, a
empresária antecipou a volta ao
Brasil. "Senti que ela
precisava de alguém com quem
conversar".
Como se não
bastasse o trabalho, por causa da
filha que vive nos Estados
Unidos, Juliana, de 20 anos,
Tânia viaja a cada três meses
para ter contato com ela.
"É muito difícil ser mãe
nessas condições, mas criei
minhas filhas para conviverem com
essa realidade", confessa a
empresária. Quando está no
Brasil, ela diz que seu horário
de trabalho vai até a metade da
tarde, para passar mais tempo com
as filhas, sobretudo a caçula,
que perdeu o pai aos 7 anos.
OUTRA
REALIDADE - Valdenice, a
filha mais velha de Josenice, tem
oito anos a menos do que
Natália, mas já está vivendo
uma experiência para a qual se
exige maturidade - a de ser mãe.
"Ela é muito criança. Não
gostaria que estivesse passando
por isso", lamenta a mãe
dela. Valdenice também cuida dos
cinco irmãos (inclusive do
irmão doente, Vanderson, de 10
anos) e ainda é dona de casa e
cuida das tarefas domésticas
enquanto a mãe está no
trabalho.
Usando um
raciocínio e palavras de uma
mulher politizada, Josenice, que
chegou a concluir o segundo grau,
se diz inconformada em ter de
dormir com fome para deixar a
comida para os filhos. "Eu
trabalho, então deveria ter o
direito de dar comida aos meus
filhos sem precisar sentir fome.
Tem alguma coisa errada nessa
estrutura social em que a gente
vive", reclama, embora não
saiba apontar esse erro.
Por causa
disso, Josenice dá uma
educação aos filhos que define
como "pé no chão".
"Não digo a eles que terão
tudo na vida. Digo-lhes que não
vêm de uma família de
prestígio na sociedade e, por
isso, terão que ralar duas vezes
mais do que eu se quiserem ter
mais do que eu pude dar",
teoriza. Ao mesmo tempo, ela
afirma que sabe que não dá o
que eles precisam, mas é o que
pode. "É triste assumir que
seus filhos não vivem, vegetam,
mas sei que me dou ao máximo
para evitar que isso estivesse
acontecendo".