- - - -...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 10 de maio de 1998

MÃE II
Em duas realidades opostas, a atribulada tarefa de ser mãe

A cozinheira Josenice Ribeiro da Silva, de 37 anos, mora numa invasão em Rio Doce, Olinda. O mais novo dos seus seis filhos tem 2 anos e a mais velha tem 14, e já é mãe de uma menina de 4 meses. Um outro filho é surdo-mudo e sofre de um tipo de leucemia que o faz ter convulsões constantes. O marido está desempregado, assim como o pai da neta de Josenice, de 22 anos, que mora na mesma casa de três cômodos. A irmã mais velha da cozinheira, de 42 anos, também mora com ela e não pode trabalhar por problemas de saúde. Josenice trabalha para sustentar dez pessoas e ganha um salário mínimo por mês.

A empresária Tânia Spinelli, 46 anos, mora num confortável apartamento em Piedade. Tem três filhas e uma delas faz universidade nos Estados Unidos. Depois que ficou viúva, Tânia assumiu parte da empresa do marido, com sede na Holanda. Por causa disso, a empresária viaja a cada três semanas para a Europa, onde fica por, pelo menos, 20 dias.

Josenice e Tânia parecem viver em mundos opostos, mas, além de estarem juntas nas estatísticas do IBGE que dizem haver mais de 8,4 milhões de brasileiras chefes de família, as duas carregam o orgulho de superar as dificuldades para conseguir ser mães. A empresária procura vencer as barreiras do tempo e da geografia para acompanhar os problemas e dividir as alegrias com as filhas. A cozinheira carrega a tarefa - para muitos, quase impossível de ser cumprida num ambiente como o que ela vive - de desviar os filhos da marginalidade e superar as necessidades básicas de um ser humano, como a fome.

Nos momentos de ausência, as filhas mais velhas geralmente acabam cumprindo o papel das mães. Natália, 22 anos, faz as vezes de Tânia quando ela está no exterior e cuida da irmã mais nova, de 11 anos. "Quando não se tem marido, a gente tem que desempenhar vários papéis na criação dos filhos, mas é impossível ser mãe nas 24 horas. Nem eu gostaria de tentar fazer isso. Minha ausência deixa minhas filhas mais maduras", acredita Tânia.

Apesar disso, ela lembra de momentos em que a função de mãe foi mais exigida do que a de profissional. "Certa vez, eu estava na Holanda, quando Natália me ligou dizendo que havia terminado um noivado de quatro anos e meio", relembra. Apesar de a filha dizer que estava bem, a empresária antecipou a volta ao Brasil. "Senti que ela precisava de alguém com quem conversar".

Como se não bastasse o trabalho, por causa da filha que vive nos Estados Unidos, Juliana, de 20 anos, Tânia viaja a cada três meses para ter contato com ela. "É muito difícil ser mãe nessas condições, mas criei minhas filhas para conviverem com essa realidade", confessa a empresária. Quando está no Brasil, ela diz que seu horário de trabalho vai até a metade da tarde, para passar mais tempo com as filhas, sobretudo a caçula, que perdeu o pai aos 7 anos.

OUTRA REALIDADE - Valdenice, a filha mais velha de Josenice, tem oito anos a menos do que Natália, mas já está vivendo uma experiência para a qual se exige maturidade - a de ser mãe. "Ela é muito criança. Não gostaria que estivesse passando por isso", lamenta a mãe dela. Valdenice também cuida dos cinco irmãos (inclusive do irmão doente, Vanderson, de 10 anos) e ainda é dona de casa e cuida das tarefas domésticas enquanto a mãe está no trabalho.

Usando um raciocínio e palavras de uma mulher politizada, Josenice, que chegou a concluir o segundo grau, se diz inconformada em ter de dormir com fome para deixar a comida para os filhos. "Eu trabalho, então deveria ter o direito de dar comida aos meus filhos sem precisar sentir fome. Tem alguma coisa errada nessa estrutura social em que a gente vive", reclama, embora não saiba apontar esse erro.

Por causa disso, Josenice dá uma educação aos filhos que define como "pé no chão". "Não digo a eles que terão tudo na vida. Digo-lhes que não vêm de uma família de prestígio na sociedade e, por isso, terão que ralar duas vezes mais do que eu se quiserem ter mais do que eu pude dar", teoriza. Ao mesmo tempo, ela afirma que sabe que não dá o que eles precisam, mas é o que pode. "É triste assumir que seus filhos não vivem, vegetam, mas sei que me dou ao máximo para evitar que isso estivesse acontecendo".


     

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