- - - -...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 10 de maio de 1998

MEDICINA II
Depressão avança em todo o mundo

por FABIANA MORAES
Enviada especial

A depressão, uma das doenças mais populares deste final de século, é hoje a principal causa de suicídios no mundo. Cerca de 15% das pessoas tratadas ou em tratamento se matam, principalmente a população masculina. As previsões sobre a doença são graves: em 2020, ela poderá ser a segunda maior causa das mortes em todo o mundo, perdendo apenas para problemas cardíacos.

O assunto foi tema do Congresso Mundial de Psiquiatria Biológica, que aconteceu entre 26 e 30 de abril, no Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo. Durante a semana, especialistas de todo o mundo debateram novas formas de tratamento, a utilização de antidepressivos e tranqüilizantes e lançaram questões sobre a falta de estrutura para doentes depressivos no Brasil. Simultaneamente ao congresso, aconteceu o Primeiro Curso para Jornalistas Sobre Saúde Mental, realizado no hotel Maksoud Plaza, também em São Paulo.

Uma das palestras realizadas nos eventos tratou sobre a questão da depressão na mulher, principal alvo da doença. A psiquiatra Vivian Burt, da Universidade de Los Angeles, Estados Unidos, alertou para o fato da depressão acometer preferencialmente mulheres na idade fértil, entre 18 e 44 anos. De acordo com a especialista, pessoas no período pós parto são mais atingidas pela doença, fato que está sendo atribuído à queda do nível de estrógeno no organismo. "As mulheres são mais predispostas à doença por diversos fatores sociais, como a tarefa de conciliar a vida profissional com a familiar", acredita Vivian.

Vinte e um por cento das mulheres sofrem algum tipo de depressão, enquanto 12,7% dos homens apresentam o mesmo problema. Nelas, a depressão é mais longa, mais crônica e recorrente. "Também observamos que a depressão é mais sazonal entre as mulheres, um fato que gera ainda mais preocupação, pois, caso uma pessoa já tenha apresentado a doença alguma vez, torna-se ainda mais vulnerável à ela", explica. O alarmante é que, optando em ter filhos mais tarde, é provável que elas já tenham apresentado algum sintoma da doença, ficando ainda mais predispostas à depressão após ter o bebê.

A especialista lembrou que algumas parturientes chegam a matar os próprios filhos durante as crises mais graves da doença. "Em Los Angeles, temos uma média de cinco casos de assassinatos de bebês pelas próprias mães por ano". Vivian defende o uso de medicamentos antidepressivos durante a gravidez, mesmo nos três primeiros meses de gestação, quando o feto ainda está sendo formado. "Durante a gravidez, os riscos de uma crise aumentam, mas algumas mulheres recusam-se a ingerir antidepressivos com medo que ocorra algum dano ao feto".

Ela afirma que as pessoas que não se tratam na gravidez correm risco ainda maior de apresentar depressão pós parto. "Em levantamentos realizados em cerca de 2 mil pacientes, constatamos que drogas como o Prozac não afetaram o bebê", revela. As pesquisas foram feitas em crianças que tiveram mães depressivas em tratamento médico, e foram avaliados os QI's, o comportamento e a linguagem.

DIVÃ DE CLÍNICO - Para o vice-presidente da Associação Brasileira de psiquiatria (ABP), Miguel Roberto Jorge, as pessoas portadoras de depressão são estigmatizadas socialmente, o que as leva a não aceitarem a doença. "O mais grave é que 60% dos casos confirmados de depressão no Brasil são diagnosticados por médicos e não por psiquiatras, o que nos leva a crer que o número de depressivos é ainda maior", revela o médico.

A doença é a porta de entrada para males como o alcoolismo e os problemas vasculares. "Muitas vezes, as pessoas recorrem ao clínico por causa de uma pancreatite quando na verdade o problema é outro. O médico diagnostica a pancreatite, a pessoa se medica e fica curada. Mas a depressão continua lá", explica.

É importante não confundir tristeza temporária com depressão. O primeiro caso dura cerca de seis meses, enquanto pessoas depressivas ficam mais de meio ano sentindo ímpetos de se matar, por exemplo. A mania por remédios faz com que pessoas não doentes procurem antidepressivos e até tranqüilizantes, este último com o agravante de causar dependência.

Pílulas como Lexotan e Rivotil ocupam espaço em milhares de prateleiras domésticas, um fato que preocupa os psiquiatras. "Existe um grande mito em torno destes medicamentos, mas é importante lembrar que eles são vitais no tratamento. A automedicação é perigosa em qualque caso, pois pode causar uma dependência química", alerta Miguel Roberto Jorge.


     

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