MEDICINA
II
Depressão
avança em todo o mundopor FABIANA MORAES
Enviada especial
A depressão,
uma das doenças mais populares
deste final de século, é hoje a
principal causa de suicídios no
mundo. Cerca de 15% das pessoas
tratadas ou em tratamento se
matam, principalmente a
população masculina. As
previsões sobre a doença são
graves: em 2020, ela poderá ser
a segunda maior causa das mortes
em todo o mundo, perdendo apenas
para problemas cardíacos.
O assunto foi
tema do Congresso Mundial de
Psiquiatria Biológica, que
aconteceu entre 26 e 30 de abril,
no Centro de Convenções
Rebouças, em São Paulo. Durante
a semana, especialistas de todo o
mundo debateram novas formas de
tratamento, a utilização de
antidepressivos e
tranqüilizantes e lançaram
questões sobre a falta de
estrutura para doentes
depressivos no Brasil.
Simultaneamente ao congresso,
aconteceu o Primeiro Curso para
Jornalistas Sobre Saúde Mental,
realizado no hotel Maksoud Plaza,
também em São Paulo.
Uma das
palestras realizadas nos eventos
tratou sobre a questão da
depressão na mulher, principal
alvo da doença. A psiquiatra
Vivian Burt, da Universidade de
Los Angeles, Estados Unidos,
alertou para o fato da depressão
acometer preferencialmente
mulheres na idade fértil, entre
18 e 44 anos. De acordo com a
especialista, pessoas no período
pós parto são mais atingidas
pela doença, fato que está
sendo atribuído à queda do
nível de estrógeno no
organismo. "As mulheres são
mais predispostas à doença por
diversos fatores sociais, como a
tarefa de conciliar a vida
profissional com a
familiar", acredita Vivian.
Vinte e um por
cento das mulheres sofrem algum
tipo de depressão, enquanto
12,7% dos homens apresentam o
mesmo problema. Nelas, a
depressão é mais longa, mais
crônica e recorrente.
"Também observamos que a
depressão é mais sazonal entre
as mulheres, um fato que gera
ainda mais preocupação, pois,
caso uma pessoa já tenha
apresentado a doença alguma vez,
torna-se ainda mais vulnerável
à ela", explica. O
alarmante é que, optando em ter
filhos mais tarde, é provável
que elas já tenham apresentado
algum sintoma da doença, ficando
ainda mais predispostas à
depressão após ter o bebê.
A especialista
lembrou que algumas parturientes
chegam a matar os próprios
filhos durante as crises mais
graves da doença. "Em Los
Angeles, temos uma média de
cinco casos de assassinatos de
bebês pelas próprias mães por
ano". Vivian defende o uso
de medicamentos antidepressivos
durante a gravidez, mesmo nos
três primeiros meses de
gestação, quando o feto ainda
está sendo formado.
"Durante a gravidez, os
riscos de uma crise aumentam, mas
algumas mulheres recusam-se a
ingerir antidepressivos com medo
que ocorra algum dano ao
feto".
Ela afirma que
as pessoas que não se tratam na
gravidez correm risco ainda maior
de apresentar depressão pós
parto. "Em levantamentos
realizados em cerca de 2 mil
pacientes, constatamos que drogas
como o Prozac não afetaram o
bebê", revela. As pesquisas
foram feitas em crianças que
tiveram mães depressivas em
tratamento médico, e foram
avaliados os QI's, o
comportamento e a linguagem.
DIVÃ
DE CLÍNICO - Para o
vice-presidente da Associação
Brasileira de psiquiatria (ABP),
Miguel Roberto Jorge, as pessoas
portadoras de depressão são
estigmatizadas socialmente, o que
as leva a não aceitarem a
doença. "O mais grave é
que 60% dos casos confirmados de
depressão no Brasil são
diagnosticados por médicos e
não por psiquiatras, o que nos
leva a crer que o número de
depressivos é ainda maior",
revela o médico.
A doença é a
porta de entrada para males como
o alcoolismo e os problemas
vasculares. "Muitas vezes,
as pessoas recorrem ao clínico
por causa de uma pancreatite
quando na verdade o problema é
outro. O médico diagnostica a
pancreatite, a pessoa se medica e
fica curada. Mas a depressão
continua lá", explica.
É importante
não confundir tristeza
temporária com depressão. O
primeiro caso dura cerca de seis
meses, enquanto pessoas
depressivas ficam mais de meio
ano sentindo ímpetos de se
matar, por exemplo. A mania por
remédios faz com que pessoas
não doentes procurem
antidepressivos e até
tranqüilizantes, este último
com o agravante de causar
dependência.
Pílulas como
Lexotan e Rivotil ocupam espaço
em milhares de prateleiras
domésticas, um fato que preocupa
os psiquiatras. "Existe um
grande mito em torno destes
medicamentos, mas é importante
lembrar que eles são vitais no
tratamento. A automedicação é
perigosa em qualque caso, pois
pode causar uma dependência
química", alerta Miguel
Roberto Jorge.