PSICOPEDAGOGIA
II
Hospitais
são decadentes no BrasilUm dos assuntos mais
polêmicos abordados durante o
Congresso Mundial de Psicologia
foi a reforma dos hospitais
psiquiátricos no Brasil. A falta
de leitos para doentes mentais no
país é gritante: são 0,3%
vagas para cada mil habitantes,
enquanto a Organização Mundial
de Saúde (OMS) recomenda um
leito psiquiátrico para cada mil
habitantes. Na Alemanha, um dos
países referência no tratamento
aos doentes mentais, existem 1,5
vagas para cada mil pessoas.
"Os
doentes mentais brasileiros são
vistos como pacientes de segunda
classe, e os médicos que tratam
deles também", dispara o
professor titular e chefe de
Psiquiatria da Faculdade de
Medicina da Universidade de São
Paulo (USP), Wagner Gattaz. O
médico afirma ser contra o
projeto de lei de autoria do
deputado Paulo Delgado, que
propõe o fim dos hospitais
psiquiátricos. "É claro
que o sistema psiquiátrico
brasileiro é decadente, mas a
saída é melhorar esse sistema,
não acabar com ele", diz.
O projeto de
lei nº 8, de 1991, que tramita
no Senado há exatos nove anos,
propõe a criação de unidades
psiquiátricas em hospitais,
centros de atenção, centros de
convivência e hospitais-dia ou
hospitais-noite. As secretarias
estaduais de saúde ficariam
responsáveis pela reforma, e
não seria mais permitida a
criação de novos manicômios.
No projeto, Delgado cita a Lei
Basaglia, que pôs fim a todos os
hospitais psquiátricos na
Itália, como positiva, e afirma
que a experiência deu certo no
país.
CONTROVÉRSIAS
- A tese de Paulo
Delgado é derrubada tanto por
Wagner Gattaz quanto pelo senador
Lucídio Portela, que apresentou
voto em separado ao projeto de
lei de Delgado. "O projeto
contraria os princípios
técnicos e científicos da
prática psiquiátrica, além de
deixar os doentes mentais sem o
amparo que o poder público tem o
dever de oferecer", diz o
sub-projeto.
Já Gattaz
afirma que a Lei Basaglia, criada
em 1971, gerou um enorme número
de sem-teto naquele país.
"A base da lei é que o
doente deveria ser tratado pela
comunidade, mas, como tudo foi
feito precipitadamente, os
municípios não tiveram
estrutura para receber os
pacientes, que terminaram ficando
pelas ruas", conta Wagner
Gattaz.
As
conseqüências das leis foram
ainda mais graves. Segundo o
médico, muitos dos doentes,
durante as crises, eram levados a
centros não especializados e
recebiam altas doses de
anti-depressivos, permanecendo
sedados durante dias.