JOELMIR
BETTING
Uma
nova agenda
Em sua 10ª
edição anual, o Fórum Nacional
de Altos Estudos discute, esta
semana, na sede do BNDES, no Rio,
o Brasil do ano 2010. Com a
estabilização da moeda, a
caminho da estabilidade da
economia, já dá para rascunhar
cenários de uma década e meia
com relativa segurança
acadêmica, suspira o ex-ministro
João Paulo dos Reis Velloso,
coordenador do Fórum Nacional.
Com o adendo: "A
estabilização é o fator
condicionante. Tudo o mais são
fatores condicionados".
Tradução: sem
trancafiar a inflação na jaula
européia de 3% ao ano (há oito
anos a inflação brasileira
chegou a cravar 84% ao mês) não
há como avançar nas reformas do
Estado brasileiro, não há como
rebaixar a dívida pública, a
carga fiscal e a taxa de juros.
Não há como reativar o consumo,
a produção e o emprego. E não
há como iniciar o resgate da
dívida social, calvário
diuturno de 66 milhões de
brasileiros ainda sem túnel.
Uf! Com a
carestia medida pelo Dieese
acumulando variação de apenas
4,1% nos últimos 12 meses - sem
congelamento, sem tabelamento e
sem "brutal recessão"
-, o Fórum Nacional se permite o
refresco de engavetar a
discussão do passado e
engatilhar a construção do
futuro. Da nova agenda nacional
ganham relevância a melindrosa
reengenharia do Estado brasileiro
e a cautelosa retomada do
crescimento sustentado da
economia ainda em transe.
Até
quinta-feira, cabeças coroadas
da ciência econômica e da
"rationale" política
examinam o novo papel do Estado
na sociedade brasileira. Uma
transformação pelo Estado e, a
um só tempo, uma revolução
dentro do Estado, diria Mário
Henrique Simonsen (1935-1997). A
onda é global: nem o Estado
máximo nem o Estado mínimo,
escreve o embaixador Rubens
Ricúpero, presidente da Unctad,
instituto da ONU que trata de
comércio e desenvolvimento:
"A salvação da pátria
desloca-se para o Estado ótimo.
Cada nação que cuide de equipar
e ativar o respectivo Estado
ótimo".
Na agenda do
Fórum Nacional, toma-se como
novo fator condicionante não
mais a estabilização já
(quase) consolidada, mas a
conquista do nosso Estado ótimo.
Sem mistério: o trato da chamada
"coisa pública", mais
coisa do que pública, ainda
transita no caldo de cultura de
governos que não governam, não
se governam e não se deixam
governar. Com o lembrete: é no
descalabro das contas públicas
que o vírus da inflação
renasce, recrudesce e se
reabastece.
Na abertura do
Fórum Nacional, ontem, o
presidente Fernando Henrique
Cardoso não perdeu o fio da
meada: o Estado brasileiro deve
fazer hora extra na agenda
social, prioridade primeira para
a decolagem do século 21, o
século do vai ou racha ou
rebenta o caixa. Uma escolha
entre o Primeiro Mundo e o Quarto
Mundo.
Já
passou
Em todo o
mundo, o Estado produtor de
mercadorias e serviços
estratégicos é bananeira que
já deu cacho. Foi muito bom
enquanto durou na produção de
petróleo, energia,
telecomunicação, transportes.
Áreas que o setor privado hoje
produz melhor e mais barato.
Gente
& Cia.
Estratégico é
o investimento direto em gente:
educação, saúde, previdência,
segurança, justiça e programas
sociais de emergência. São
funções típicas de governo na
promoção da dignidade humana.
Um
árbitro
Igualmente
função de governo é a ação
arbitral nos embates da sociedade
cada vez mais complexa. São os
marcos regulatórios (e
fiscalizatórios) do grande
contrato nacional.
Um
sonho
Na área
econômica, o Fórum Nacional
discute o mercado do ano 2010.
Que não será um mercado aberto
nem fechado. Será um mercado
regulado e pactuado dentro da
competição civilizada. Amém.
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