CRUZEIRO
Uma
irresistível aventura no marpor MIGUEL RIOS
da Editoria de Esportes
Qualquer um que
deseje férias no Caribe corre
logo para uma agência de viagens
para acertar seu pacote. O
conteúdo é sempre o mesmo: um
hotel confortável, milhares de
panfletos com fotos e roteiros de
paisagens paradisíacas e um
serviço de guia para não perder
nenhuma praia badalada. Dá
certo. Mas há quem procure mais
que a velha fórmula dos agentes
turísticos. O pernambucano
Cleydson Nunes é um destes
turistas rebeldes.
Ao invés de
pegar um avião, ele usou um
veleiro. E nada de hotéis. A
cabine do barco servia
perfeitamente para as pernoites.
Guias contratados, muito menos. O
melhor é traçar e desbravar seu
próprio roteiro. O percurso do
rapaz assusta e deslumbra:
Recife/Caribe via Oceano
Atlântico. Como era muito longo,
Cleydson teve de dividi-lo em
duas etapas.
A primeira foi
há dois anos. Ele saiu do
Recife, foi a Fernando de Noronha
e passou por Natal. Depois pegou
a rota até Trinidad e Tobago, no
topo da América do Sul. Foram
1.200 milhas náuticas, em 10
dias só de mar. "Não é
enfadonho. Temos tanto o que
fazer no barco, que o tempo passa
rápido". Deixou o barco em
Trinidad junto com seus três
companheiros de viagem: Gilberto
Machado, Ivana Machado e a filha
do casal, Gabriela, todos
gaúchos.
Cleydson voltou
ao Recife de avião, em fevereiro
de 97. A segunda etapa - iniciada
no final do ano passado - foi
retomada do ponto em que ele
ficou. De lá, o veleiro
Garimpeiro chegou ao Mar do
Caribe. Foi aportando nas ilhas
que compõem as Pequenas
Antilhas, uma por uma,
descobrindo belezas específicas
e paisagens quase intocadas.
Somando todo o
percurso dá um total de 4.500
milhas náuticas. "Nunca
tinha feito uma viagem tão
grande e em tão pouco
tempo", comenta Cleydson.
Mas ele mesmo defende ter valido
a pena. "Vi coisas que
geralmente um turista tradicional
não vê. Num barco você tem
opções de ir à praia que
escolher e até descobrir lugares
quase virgens", lembra ele.
E foi assim na
maioria das mais de 30 ilhas
visitadas. De Granada até Virgem
Gorda, uma das Ilhas Virgens,
próxima à República
Dominicana. "Existem praias
inexploradas belíssimas em todas
as ilhas. Lugares fora dos
roteiros vendidos nas agências,
até porque são de difícil
acesso. Só barcos pequenos podem
chegar lá", explica
Cleydson. Locais onde ele só
chegou por estar navegando num
veleiro de 50 pés. Apesar de
pequeno, a garantia é de muito
conforto. "As acomodações
são boas e espaçosas para um
barco assim".
CASA NO MAR -
O Garimpeiro tem a estrutura de
uma casa. Geladeira, freezer,
vídeo-cassete e até
ar-condicionado em cada cabine. O
melhor de tudo é que numa viagem
assim, por incrível que pareça,
se gasta pouco. Não há
preocupação com roupas e a
comida se faz no barco mesmo. O
bom é que se pode pescar peixes
e lagostas por sua própria
conta, sem ter de pagar por eles.
Resumindo, tudo
é festa numa aventura destas.
Até mesmo os momentos difíceis.
Cruzar a Linha do Equador foi um
deles. É lá onde grande parte
das correntes de vento convertem.
"Passamos por lá em janeiro
do ano passado. Foram três dias
de chuva e ventos fortes",
recorda Cleydson. Outra ameaça
foi a erupção de um vulcão, em
Antígua, no começo de 97.
"Estávamos passando à
costa quando o céu se cobriu de
cinzas e tudo ficou escuro",
recorda mais uma vez.
O medo naquelas
horas, hoje são mais duas belas
lembranças da viagem.
Lembranças que se juntam às
belezas naturais, arquitetônicas
e humanas da Martinica, San
Martin, Ilhas Francesas e Ilhas
Saints, as que Cleydson mais
gostou. "As Ilhas Saints
são tão pequenas que as pessoas
não possuem carros. O transporte
é através de motonetas ou a pé
mesmo. As Ilhas francesas são
ímpares. Você sente o clima dos
trópicos unido à sofisticação
européia. Todas as boutiques e
grifes mais famosas e caras do
mundo têm representação
lá".
Outro ponto
forte é o coquetel cultural que
é o Caribe. Raças, línguas e
costumes, que holandeses,
ingleses, franceses, americanos,
negros e mais a tonelada de
turistas do mundo inteiro se
encarregaram de misturar.
"Sem um guia específico,
você se vê obrigado a ter um
contato direto com o povo e assim
desvendar e se inteirar do
espírito do local com bem mais
intimidade".
ROMÁRIO -
"Brasileiro no Caribe sempre
está em casa", garante o
navegador. Foi o que ele
constatou em Béquia, uma
ex-colônia inglesa. As pessoas
de lá ouvem falar do futebol
verde-amarelo, mas não conhecem
bem os jogadores. Ao saber que um
barco vindo do Brasil estava no
porto se juntaram e começaram a
fazer perguntas sobre Romário e
o resto da Seleção. "O
jeito de ser dos caribenhos se
aproxima muito do nosso. Assim
quando um brasileiro chega lá é
sempre festa".
Mais uma vez,
Cleydson teve de interromper a
viagem por conta dos estudos.
Voltou ao Recife dias após o
Carnaval. Mas nos seus planos já
está o próximo roteiro.
Embarcar novamente e chegar até
a Flórida. No caminho nada mais,
nada menos que as ilhas Grandes
Antilhas e as Bahamas para
explorar, uma a uma.