- - - -- - - - - - - - - - - -- - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 07 de maio de 1998

ROTEIRO HISTÓRICO
Reverência ao passado em São Cristovão

por DANIELA DE LACERDA

De quinze em quinze dias eles saem pelas simpáticas ruazinhas da quarta cidade cidade mais antiga do Brasil entoando canções saudosistas com seus violões. O projeto, chamado Cidade Seresta, chega a reunir cinco mil pessoas em torno das apresentações gratuitas dos seresteiros. Mais nostálgico só mesmo o cenário escolhido para as românticas caminhadas. Na poética São Cristovão, primeira capital do estado de Sergipe, respira-se e cultua-se o passado.

Emoldurada por conventos, igrejas, museus e casas coloniais, erguidas pelos portugueses no século 17, a cidade caracteriza-se pelo apego às tradições dos que a fundaram, no distante ano de 1590. Aos visitantes, os moradores apresentam, com orgulho, este perfil histórico e as ações que vêm sendo desenvolvidas para preservar os monumentos e costumes locais, a exemplo do projeto das serestas, iniciado no mês de março.

O programa começa e termina na Praça de São Francisco, cartão-postal da cidade. Era lá, na parte alta, onde concentrava-se o poder político e religioso, logo que a cidade foi criada, pelos portugueses. Hoje, é reduto histórico. O pátio reúne três museus, sedia as festas típicas e é ponto de partida para a tradicional procissão de Nosso Senhor dos Passos, a quarta mais importante celebração de romaria e penitência de todo o país, segundo o guia Nelson Polito, formado em história, que desenvolve um trabalho voluntário no Museu de Arte Sacra.

A religiosidade é mesmo marcante em São Cristovão. Dos três museus da cidade, dois remetem ao tema. O de Arte Sacra, classificado entre os três melhores do país pelo Patrimônio Histórico Nacional, guarda cerca de 500 peças, dos séculos 17 ao 19. As mais conhecidas são dois famosos santos do pau oco, daqueles utilizados para contrabandear ouro para a Europa, típicos do barroco brasileiro.

O acervo também abriga uma expressiva imagem de Jesus Cristo com traços asiáticos, datada do século 17, feita em marfim e madeira e trazida de Goa, possessão portuguesa no sul da Índia. Mais forte, uma das esculturas com símbolos cristãos encontradas no museu liga a morte de Cristo às figuras de dois pelicanos. Contam as lendas locais que as aves saem em busca de alimentos para os filhotes e, quando não conseguem encontrar, se autoflagelam e dão o sangue para alimentá-los. Uma referência ao sacrifício de Jesus pelos homens ao morrer na cruz.

As crenças populares são ainda mais evidentes no Museu dos Ex-Votos, localizado no claustro da Igreja da Ordem Terceira do Carmo. Lá encontram-se cabeças, pernas e braços em cera e madeira, fotos, cruzes e, até, cabelos, entre outros objetos levados pelos devotos como pagamentos de promessas, sendo o mais antigo datado de 1856.

Outra peça-chave para se conhecer São Cristovão é o Mosteiro de Nossa Senhora das Vitórias, onde moram as irmãs beneditinas. Há 15 anos vivendo no lugar, elas são imediatamente associadas às atrações da cidade pelos saborosos biscoitinhos que preparam e vendem aos turistas e moradores. De um modo ou de outro, sempre se termina voltando para a religião.

Por isso mesmo, vale programar a visita para a época da quaresma, quando acontece a procissão e a festa de Nosso Senhor dos Passos. O evento é realizado num final de semana e chega a atrair nada menos que 20 mil pessoas. A celebração tem início com uma missa campal e continua com a procissão, tendo à frente a imagem de Nosso Senhor dos Passos (peça que chegou a São Cristovão num caixote de madeira apenas com o nome da cidade escrito, vários anos atrás).

Muitos fiéis aproveitam a ocasião para agradecer graças alcançadas e deixar os ex-votos na cidade. Alguns usam coroas de espinhos na procissão, outros fazem o percurso rolando pelas ruas da cidade. E muitos vêm caminhando, quilômetros e quilômetros, de outros municípios da região até São Cristovão.

Como não podia deixar de ser, um dos principais símbolos da cidade é um Cristo fincado no Monte de São Gonçalo no ano de 1924. A imagem, do século 17, tem como base as ruínas de uma Igreja que existia no local. Mais uma homenagem ao passado e à forte ligação do povo de São Cristovão com as suas religiões. Senha para captar a essência dessa poética cidadezinha, distante apenas 25 quilômetros de Aracaju pelos limites físicos, mas a anos e anos da modernidade que já caracteriza a atual capital do estado.


     

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