ROTEIRO HISTÓRICO
Reverência
ao passado em São Cristovãopor DANIELA DE
LACERDA
De quinze em
quinze dias eles saem pelas
simpáticas ruazinhas da quarta
cidade cidade mais antiga do
Brasil entoando canções
saudosistas com seus violões. O
projeto, chamado Cidade Seresta,
chega a reunir cinco mil pessoas
em torno das apresentações
gratuitas dos seresteiros. Mais
nostálgico só mesmo o cenário
escolhido para as românticas
caminhadas. Na poética São
Cristovão, primeira capital do
estado de Sergipe, respira-se e
cultua-se o passado.
Emoldurada por
conventos, igrejas, museus e
casas coloniais, erguidas pelos
portugueses no século 17, a
cidade caracteriza-se pelo apego
às tradições dos que a
fundaram, no distante ano de
1590. Aos visitantes, os
moradores apresentam, com
orgulho, este perfil histórico e
as ações que vêm sendo
desenvolvidas para preservar os
monumentos e costumes locais, a
exemplo do projeto das serestas,
iniciado no mês de março.
O programa
começa e termina na Praça de
São Francisco, cartão-postal da
cidade. Era lá, na parte alta,
onde concentrava-se o poder
político e religioso, logo que a
cidade foi criada, pelos
portugueses. Hoje, é reduto
histórico. O pátio reúne três
museus, sedia as festas típicas
e é ponto de partida para a
tradicional procissão de Nosso
Senhor dos Passos, a quarta mais
importante celebração de
romaria e penitência de todo o
país, segundo o guia Nelson
Polito, formado em história, que
desenvolve um trabalho
voluntário no Museu de Arte
Sacra.
A religiosidade
é mesmo marcante em São
Cristovão. Dos três museus da
cidade, dois remetem ao tema. O
de Arte Sacra, classificado entre
os três melhores do país pelo
Patrimônio Histórico Nacional,
guarda cerca de 500 peças, dos
séculos 17 ao 19. As mais
conhecidas são dois famosos
santos do pau oco, daqueles
utilizados para contrabandear
ouro para a Europa, típicos do
barroco brasileiro.
O acervo
também abriga uma expressiva
imagem de Jesus Cristo com
traços asiáticos, datada do
século 17, feita em marfim e
madeira e trazida de Goa,
possessão portuguesa no sul da
Índia. Mais forte, uma das
esculturas com símbolos
cristãos encontradas no museu
liga a morte de Cristo às
figuras de dois pelicanos. Contam
as lendas locais que as aves saem
em busca de alimentos para os
filhotes e, quando não conseguem
encontrar, se autoflagelam e dão
o sangue para alimentá-los. Uma
referência ao sacrifício de
Jesus pelos homens ao morrer na
cruz.
As crenças
populares são ainda mais
evidentes no Museu dos Ex-Votos,
localizado no claustro da Igreja
da Ordem Terceira do Carmo. Lá
encontram-se cabeças, pernas e
braços em cera e madeira, fotos,
cruzes e, até, cabelos, entre
outros objetos levados pelos
devotos como pagamentos de
promessas, sendo o mais antigo
datado de 1856.
Outra
peça-chave para se conhecer São
Cristovão é o Mosteiro de Nossa
Senhora das Vitórias, onde moram
as irmãs beneditinas. Há 15
anos vivendo no lugar, elas são
imediatamente associadas às
atrações da cidade pelos
saborosos biscoitinhos que
preparam e vendem aos turistas e
moradores. De um modo ou de
outro, sempre se termina voltando
para a religião.
Por isso mesmo,
vale programar a visita para a
época da quaresma, quando
acontece a procissão e a festa
de Nosso Senhor dos Passos. O
evento é realizado num final de
semana e chega a atrair nada
menos que 20 mil pessoas. A
celebração tem início com uma
missa campal e continua com a
procissão, tendo à frente a
imagem de Nosso Senhor dos Passos
(peça que chegou a São
Cristovão num caixote de madeira
apenas com o nome da cidade
escrito, vários anos atrás).
Muitos fiéis
aproveitam a ocasião para
agradecer graças alcançadas e
deixar os ex-votos na cidade.
Alguns usam coroas de espinhos na
procissão, outros fazem o
percurso rolando pelas ruas da
cidade. E muitos vêm caminhando,
quilômetros e quilômetros, de
outros municípios da região
até São Cristovão.
Como não podia
deixar de ser, um dos principais
símbolos da cidade é um Cristo
fincado no Monte de São Gonçalo
no ano de 1924. A imagem, do
século 17, tem como base as
ruínas de uma Igreja que existia
no local. Mais uma homenagem ao
passado e à forte ligação do
povo de São Cristovão com as
suas religiões. Senha para
captar a essência dessa poética
cidadezinha, distante apenas 25
quilômetros de Aracaju pelos
limites físicos, mas a anos e
anos da modernidade que já
caracteriza a atual capital do
estado.