ESTRESSE
Apnéia
obstrutiva do sono pode levar a
pessoa doente à mortepor LUCIENE DE ASSIS
AE
BRASÍLIA -
A economiária Nara de Almeida
Junqueira, 38 anos, assustou-se
quando ouviu, do pneumologista
Ronaldo Gomes de Almeida, que
corria o risco de não chegar
viva aos 40 anos. Nara
descobriu-se portadora de uma
doença chamada apnéia
obstrutiva do sono, que consiste
em paradas respiratórias
freqüentes enquanto a pessoa
está dormindo. A doença é
causada pelo estresse contínuo,
excesso de cafeína (contida
principalmente no café e nos
refrigerantes) ou pela ingestão
exagerada de comida.
A sorte de Nara
foi parar nas mãos do
pneumologista Ronaldo Gomes de
Almeida, da Clínica de
Pneumologia e Estudos do Sono, em
Brasília, e da equipe de
especialistas de José Sobral
Neto, presidente da Sociedade de
Cardiologia de Brasília e
médico pesquisador do Centro de
Avaliação Cardiológica
(Centrocard). Estimulados por
estudos realizados durante o
mestrado, esses médicos uniram
os conhecimentos das duas
especialidades, há um ano e
meio, e descobriram que há uma
relação direta entre os
distúrbios provocados pela
parada respiratória noturna, a
apnéia, e várias doenças do
coração.
Entre essas
doenças estão a pressão alta,
angina (dor no peito),
insuficiência coronariana, a
insuficiência cardíaca, as
arritmias (o coração pode bater
mais acelerado, taquicardia, ou
mais devagar, bradicardia), e o
infarto do miocárdio. O problema
é tão grave e ainda pouco
conhecido da maioria dos
cardiologistas que José Sobral
Neto pede aos colegas da
especialidade que desconfiem da
existência das paradas
respiratórias noturnas quando
estiverem diante das arritmias
detectadas durante o sono.
Ele garante que
a incidência de arritmias é
elevada em pessoas com apnéia.
É o que revela uma pesquisa
feita pelo Laboratório do Sono,
na Universidade de Sidney,
Austrália. Os estudos mostram
que a parada respiratória
noturna atinge 4% das mulheres e
9% dos homens com idade entre 30
e 60 anos.
Nara é um
exemplo típico, considerado
grave pelos médicos. Antes de
iniciar o tratamento da apnéia,
em fevereiro do ano passado, os
médicos descobriram que ela
tinha 71 paradas respiratórias
por hora, chegando a ficar até
29 segundos sem respirar. A
oxigenação do sangue caía de
90% para 79%. A ânsia provocada
pela falta de ar fazia com que
ela despertasse 309 vezes por
noite.
Exames ainda
mais detalhados mostraram que a
baixa oxigenação do sangue
provocava 3.274 batimentos
cardíacos (ectópicos) fora do
ritmo convencional. "O
normal é não ter nenhum
batimento ectópico",
esclarece o cardiologista José
Sobral Neto.
INCIDÊNCIA
- Um dos maiores centros de
estudos da apnéia obstrutiva do
sono, em Stanford, nos Estados
Unidos, detectou que essa doença
afeta 20 milhões de americanos.
Mas, em todos os continentes da
Terra, essa modalidade de apnéia
geralmente atinge pessoas obesas,
sedentárias, baixinhas, de
pescoço curto e com história de
casos na família, embora não
existam estudos mostrando que a
doença seja transmitida dos pais
para os filhos.
A falta de
oxigenação do sangue pela
parada respiratória pode fazer o
coração ficar até 13 segundos
sem bater. "Isso pode ser
fatal", alerta Sobral Neto.
Pessoas nessas condições
também estão mais propensas à
pressão alta, à angina (dor no
peito causada pela interrupção
do fluxo de sangue nas artérias
coronarianas) e ao infarto do
miocárdio.
"Estamos
avaliando, em 20 pacientes, a
variabilidade cardíaca, um
estudo inédito que verifica o
controle que o sistema nervoso
central (o cérebro) exerce sobre
as batidas do coração",
revela Sobral Neto. De acordo com
o cardiologista, observa-se
nesses pacientes um aumento do
chamado tônus simpático,
controlado pelo cérebro, que faz
o coração bater mais acelerado,
causando a arritmia.
"Estamos
estudando a prevalência da
apnéia durante o sono em
pacientes hipertensos que não
registram a queda fisiológica da
pressão arterial enquanto
dormem, como seria o
normal". De acordo com
Sobral Neto, esses casos
confirmam a inexistência de
relaxamento dos pacientes durante
o sono. Apesar da ausência de
estatísticas, mesmo
internacionais, os médicos
desconfiam que as pessoas que
morrem dormindo podem ter como
causa da morte a apnéia
obstrutiva ou um tipo de arritmia
causada pela apnéia.
Portanto, o
perigo espreita quem ronca, tem
paradas respiratórias, suspira e
tem o sono interrompido por
engasgos. O pneumologista Ronaldo
Almeida recomenda a quem se
enquadrar nessas situações a
procurar um especialista o mais
rápido possível, porque podem
ser portadoras da apnéia
obstrutiva do sono.
"Geralmente, as pessoas
nessas condições sentem muito
sono durante o dia, se irritam
com facilidade, não conseguem o
descanso proporcionado pelo sono
profundo e contínuo, sofrem
lapsos de memória, sentem dor de
cabeça pela manhã, reduzem a
atividade intelectual e passam a
ter impotência sexual", diz
ele.