- - - - - - - -- - - - - - - -- - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 12 de julho de 1998

ESTRESSE
Apnéia obstrutiva do sono pode levar a pessoa doente à morte

por LUCIENE DE ASSIS
AE

BRASÍLIA - A economiária Nara de Almeida Junqueira, 38 anos, assustou-se quando ouviu, do pneumologista Ronaldo Gomes de Almeida, que corria o risco de não chegar viva aos 40 anos. Nara descobriu-se portadora de uma doença chamada apnéia obstrutiva do sono, que consiste em paradas respiratórias freqüentes enquanto a pessoa está dormindo. A doença é causada pelo estresse contínuo, excesso de cafeína (contida principalmente no café e nos refrigerantes) ou pela ingestão exagerada de comida.

A sorte de Nara foi parar nas mãos do pneumologista Ronaldo Gomes de Almeida, da Clínica de Pneumologia e Estudos do Sono, em Brasília, e da equipe de especialistas de José Sobral Neto, presidente da Sociedade de Cardiologia de Brasília e médico pesquisador do Centro de Avaliação Cardiológica (Centrocard). Estimulados por estudos realizados durante o mestrado, esses médicos uniram os conhecimentos das duas especialidades, há um ano e meio, e descobriram que há uma relação direta entre os distúrbios provocados pela parada respiratória noturna, a apnéia, e várias doenças do coração.

Entre essas doenças estão a pressão alta, angina (dor no peito), insuficiência coronariana, a insuficiência cardíaca, as arritmias (o coração pode bater mais acelerado, taquicardia, ou mais devagar, bradicardia), e o infarto do miocárdio. O problema é tão grave e ainda pouco conhecido da maioria dos cardiologistas que José Sobral Neto pede aos colegas da especialidade que desconfiem da existência das paradas respiratórias noturnas quando estiverem diante das arritmias detectadas durante o sono.

Ele garante que a incidência de arritmias é elevada em pessoas com apnéia. É o que revela uma pesquisa feita pelo Laboratório do Sono, na Universidade de Sidney, Austrália. Os estudos mostram que a parada respiratória noturna atinge 4% das mulheres e 9% dos homens com idade entre 30 e 60 anos.

Nara é um exemplo típico, considerado grave pelos médicos. Antes de iniciar o tratamento da apnéia, em fevereiro do ano passado, os médicos descobriram que ela tinha 71 paradas respiratórias por hora, chegando a ficar até 29 segundos sem respirar. A oxigenação do sangue caía de 90% para 79%. A ânsia provocada pela falta de ar fazia com que ela despertasse 309 vezes por noite.

Exames ainda mais detalhados mostraram que a baixa oxigenação do sangue provocava 3.274 batimentos cardíacos (ectópicos) fora do ritmo convencional. "O normal é não ter nenhum batimento ectópico", esclarece o cardiologista José Sobral Neto.

INCIDÊNCIA - Um dos maiores centros de estudos da apnéia obstrutiva do sono, em Stanford, nos Estados Unidos, detectou que essa doença afeta 20 milhões de americanos. Mas, em todos os continentes da Terra, essa modalidade de apnéia geralmente atinge pessoas obesas, sedentárias, baixinhas, de pescoço curto e com história de casos na família, embora não existam estudos mostrando que a doença seja transmitida dos pais para os filhos.

A falta de oxigenação do sangue pela parada respiratória pode fazer o coração ficar até 13 segundos sem bater. "Isso pode ser fatal", alerta Sobral Neto. Pessoas nessas condições também estão mais propensas à pressão alta, à angina (dor no peito causada pela interrupção do fluxo de sangue nas artérias coronarianas) e ao infarto do miocárdio.

"Estamos avaliando, em 20 pacientes, a variabilidade cardíaca, um estudo inédito que verifica o controle que o sistema nervoso central (o cérebro) exerce sobre as batidas do coração", revela Sobral Neto. De acordo com o cardiologista, observa-se nesses pacientes um aumento do chamado tônus simpático, controlado pelo cérebro, que faz o coração bater mais acelerado, causando a arritmia.

"Estamos estudando a prevalência da apnéia durante o sono em pacientes hipertensos que não registram a queda fisiológica da pressão arterial enquanto dormem, como seria o normal". De acordo com Sobral Neto, esses casos confirmam a inexistência de relaxamento dos pacientes durante o sono. Apesar da ausência de estatísticas, mesmo internacionais, os médicos desconfiam que as pessoas que morrem dormindo podem ter como causa da morte a apnéia obstrutiva ou um tipo de arritmia causada pela apnéia.

Portanto, o perigo espreita quem ronca, tem paradas respiratórias, suspira e tem o sono interrompido por engasgos. O pneumologista Ronaldo Almeida recomenda a quem se enquadrar nessas situações a procurar um especialista o mais rápido possível, porque podem ser portadoras da apnéia obstrutiva do sono. "Geralmente, as pessoas nessas condições sentem muito sono durante o dia, se irritam com facilidade, não conseguem o descanso proporcionado pelo sono profundo e contínuo, sofrem lapsos de memória, sentem dor de cabeça pela manhã, reduzem a atividade intelectual e passam a ter impotência sexual", diz ele.




   

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