FESTIVIDADES
Beneditinos
comemoram os 400 anos de sua
chegada ao Brasilpor MARCUS LOPES
AE
SÃO PAULO -
Segunda ordem religiosa mais
antiga da capital, a primeira foi
a dos jesuítas que fundaram a
cidade, os beneditinos estão
comemorando os 400 anos da
chegada da Ordem de São Bento à
então acanhada Vila de São
Paulo, onde construíram o
Mosteiro de São Bento. As
comemorações começaram na
sexta-feira passada, com o
lançamento de um selo e uma
solenidade litúrgica, com cantos
gregorianos.
Terça-feira,
data oficial da fundação do
Mosteiro, começa o Festival
Internacional São Bento de
Órgão. Ele se estende até
dezembro com programação
especial, na Igreja de São
Bento.
Do alto da
colina, onde construíram o
mosteiro, de 15 mil metros
quadrados, a ordem presenciou a
transformação da vila em
metrópole. Seus habitantes
perguntam hoje como é possível
cerca de 40 monges viverem em um
mosteiro encravado no centro de
São Paulo.
"Não há
lugar melhor para exercer uma
atividade de irradiação e os
desafios do centro são
muitos", afirma dom Rocco
Fraioli. "A localização
nos causa alguns incômodos, mas
torna possível que nossa
liturgia seja apreciada e
testemunhada por uma população
muito maior", completa dom
Estevão de Souza. Dom Rocco
afirma que os monges mantêm
contato com a comunidade, por
meio do atendimento às pessoas
carentes, do Colégio de São
Bento e, principalmente, das
missas.
Aos domingos, o
canto gregoriano, chamado de
"a Bíblia falada",
tornou a missa das 10 horas uma
atração turística e remete os
cerca de 500 espectadores às
origens da Igreja Católica.
"Vivemos como uma grande
família", explica dom
Rocco, no jardim interno, a
clausura, onde oram e fazem suas
meditações. No meio do
silêncio, sabiás e outros
pássaros voam entre as plantas,
entre elas duas árvores
pau-brasil. "Como eles não
são agredidos não fogem quando
nos aproximamos".
DISCIPLINA -
Vivendo em uma comunidade
extremamtente organizada, os
monges têm o seu líder, o
abade, e as ordens são ditadas
pela Regra de São Bento. Além
das orações, todos trabalham e
cada um é responsável por um
setor, como lavanderia, cozinha,
finanças, administração do
mosteiro e atendimento a
carentes.
A rotina
começa cedo. Às 5h30, há a
primeira oração em comum, o
louvor ao novo dia. Serão mais
quatro, incluindo a missa das 7
horas, até o encerramento
oficial do dia, às 19h45.
"Mas muitos acordam bem mais
cedo, para preparar suas
atividades", diz dom Mauro,
monge há nove anos.
O monge explica
o cotidiano do mosteiro,
lembrando que há pouco tempo de
sobra entre estudos, orações e
trabalho. Assistir à TV é
permitido, desde que as
obrigações estejam cumpridas e
os superiores sejam comunicados.
"Para assistir aos jogos do
Brasil, vários irmãos se
desdobraram para concluir o que
tinham de fazer, antes das
partidas", explica dom
Mauro.
Para sair do
mosteiro é necessária
autorização e geralmente por
algum motivo importante, como
aniversário dos pais ou avós.
Mesmo assim, dom Mauro não
considera sua vida solitária e
isolada do mundo exterior.
"Cada visita e até mesmo um
cartão são formas de sabermos o
que acontece lá fora", diz.
Recebeu recentemente um cartão
de seu irmão. "Era de um
gato na capa (o personagem
Garfield) com uma mensagem
bonita".
As portas são
muitas e os caminhos dão a
impressão de um labirinto. Numa
das várias salas, chama a
atenção uma estante do século
18, própria para enormes livros,
como os descritos no livro
"O Nome da Rosa".
As
comparações com a obra de
Umberto Eco, porém, param aí,
segundo dom Rocco. "Somos
pessoas normais e trabalhamos
muito, sem toda aquela
mitificação da clausura",
explica. O mito atrai muitos dos
candidatos a monge que chegam
diariamente à portaria. Apesar
da exigência do segundo grau
completo e a maioridade, para se
tornar um monge são necessários
mais de nove anos de estudos de
teologia, filosofia, história e
línguas. "É o tempo
suficiente para ele meditar se
realmente quer se dedicar à vida
religiosa", garante dom
Rocco.