- - - - - - - -- - - - - - - -- - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 12 de julho de 1998

FESTIVIDADES
Beneditinos comemoram os 400 anos de sua chegada ao Brasil

por MARCUS LOPES
AE

SÃO PAULO - Segunda ordem religiosa mais antiga da capital, a primeira foi a dos jesuítas que fundaram a cidade, os beneditinos estão comemorando os 400 anos da chegada da Ordem de São Bento à então acanhada Vila de São Paulo, onde construíram o Mosteiro de São Bento. As comemorações começaram na sexta-feira passada, com o lançamento de um selo e uma solenidade litúrgica, com cantos gregorianos.

Terça-feira, data oficial da fundação do Mosteiro, começa o Festival Internacional São Bento de Órgão. Ele se estende até dezembro com programação especial, na Igreja de São Bento.

Do alto da colina, onde construíram o mosteiro, de 15 mil metros quadrados, a ordem presenciou a transformação da vila em metrópole. Seus habitantes perguntam hoje como é possível cerca de 40 monges viverem em um mosteiro encravado no centro de São Paulo.

"Não há lugar melhor para exercer uma atividade de irradiação e os desafios do centro são muitos", afirma dom Rocco Fraioli. "A localização nos causa alguns incômodos, mas torna possível que nossa liturgia seja apreciada e testemunhada por uma população muito maior", completa dom Estevão de Souza. Dom Rocco afirma que os monges mantêm contato com a comunidade, por meio do atendimento às pessoas carentes, do Colégio de São Bento e, principalmente, das missas.

Aos domingos, o canto gregoriano, chamado de "a Bíblia falada", tornou a missa das 10 horas uma atração turística e remete os cerca de 500 espectadores às origens da Igreja Católica. "Vivemos como uma grande família", explica dom Rocco, no jardim interno, a clausura, onde oram e fazem suas meditações. No meio do silêncio, sabiás e outros pássaros voam entre as plantas, entre elas duas árvores pau-brasil. "Como eles não são agredidos não fogem quando nos aproximamos".

DISCIPLINA - Vivendo em uma comunidade extremamtente organizada, os monges têm o seu líder, o abade, e as ordens são ditadas pela Regra de São Bento. Além das orações, todos trabalham e cada um é responsável por um setor, como lavanderia, cozinha, finanças, administração do mosteiro e atendimento a carentes.

A rotina começa cedo. Às 5h30, há a primeira oração em comum, o louvor ao novo dia. Serão mais quatro, incluindo a missa das 7 horas, até o encerramento oficial do dia, às 19h45. "Mas muitos acordam bem mais cedo, para preparar suas atividades", diz dom Mauro, monge há nove anos.

O monge explica o cotidiano do mosteiro, lembrando que há pouco tempo de sobra entre estudos, orações e trabalho. Assistir à TV é permitido, desde que as obrigações estejam cumpridas e os superiores sejam comunicados. "Para assistir aos jogos do Brasil, vários irmãos se desdobraram para concluir o que tinham de fazer, antes das partidas", explica dom Mauro.

Para sair do mosteiro é necessária autorização e geralmente por algum motivo importante, como aniversário dos pais ou avós. Mesmo assim, dom Mauro não considera sua vida solitária e isolada do mundo exterior. "Cada visita e até mesmo um cartão são formas de sabermos o que acontece lá fora", diz. Recebeu recentemente um cartão de seu irmão. "Era de um gato na capa (o personagem Garfield) com uma mensagem bonita".

As portas são muitas e os caminhos dão a impressão de um labirinto. Numa das várias salas, chama a atenção uma estante do século 18, própria para enormes livros, como os descritos no livro "O Nome da Rosa".

As comparações com a obra de Umberto Eco, porém, param aí, segundo dom Rocco. "Somos pessoas normais e trabalhamos muito, sem toda aquela mitificação da clausura", explica. O mito atrai muitos dos candidatos a monge que chegam diariamente à portaria. Apesar da exigência do segundo grau completo e a maioridade, para se tornar um monge são necessários mais de nove anos de estudos de teologia, filosofia, história e línguas. "É o tempo suficiente para ele meditar se realmente quer se dedicar à vida religiosa", garante dom Rocco.




   

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