- - - - - - - -- - - - - - - -- - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 12 de julho de 1998

PRESERVAÇÃO
Homem prefere perder a virgindade só ao casar

por PRISCILA LAMBERT
AF

Quem disse que eles só pensam "naquilo"? Fantasias e desejos sexuais à parte, ainda há homens que preferem não apressar a natureza e se preservar para "a hora certa". "Acredito que a preservação do homem e a descoberta a dois são fundamentais para a duração de uma relação", diz Ricardo Rodrigues de Souza, 24, virgem convicto. "Só vou transar quando achar uma mulher para casar".

Ainda há muitos "benjamins", personagem interpretado por Dustin Hoffman no filme "A Primeira Noite de um Homem" (1967), que reestreou recentemente no país. Benjamim é um jovem que se dedica aos estudos e tem sua iniciação sexual aos 20 anos.

Esses homens superam, ou escondem, inseguranças e encaram cobranças de amigos para ter uma experiência especial. Para o farmacêutico Paulo Gurgel, 31, meninos que transam aos 15 anos acabam banalizando o sexo. "Vira uma coisa mecânica, perde-se o valor de troca", diz.

Ele teve sua primeira relação sexual aos 21 anos, com a mulher com quem é casado até hoje. "Na minha adolescência, eu priorizava os estudos. Não separava e continuo não separando sexo de companheirismo", diz. Sua primeira vez não foi um problema. "Claro que só contei a ela que era virgem depois de transar. Eu sabia que ela não era. Mas minha performance superou a minha expectativa e a dela também".

TABU - Assim como Gurgel, na maioria das vezes eles escondem sua condição de virgem na primeira transa. Numa sociedade em que a primeira relação sexual do homem se dá entre 14 e 16 anos, a iniciação "tardia" ainda é um tabu, dizem os psicólogos.

"Atendo muitos meninos que começam a transar aos 18, 19 anos e não admitem isso a ninguém. Eles até inventam situações por achar que a inexperiência é uma ameaça à sua masculinidade", diz o terapeuta sexual Sidnei di Sessa. Benjamin, no filme, se mostra indignado e desconversa quando a parceira desconfia e pergunta se ele ainda é virgem.

R.A., 26, (que não quer ser identificado) não chegou a ser questionado. Mas omitiu. Ele esperou encontrar alguém que lhe despertasse o sentimento de cumplicidade e transou com uma namorada aos 19 anos. "Sou um dos últimos românticos, mas não achei que valesse a pena contar sobre minha inexperiência", diz.

"Isso poderia atrapalhar o clima. Fiquei nervoso, ansioso, mas me condicionei a agir como se fosse um homem experiente. Ela nunca desconfiou". R.A. também não se abria com amigos. "Na adolescência, todos querem investigar seu comportamento sexual e te chamam de bicha se você não 'come' ninguém. Eu evitava dizer para não dar margem a comentários hipócritas".

DEPOIMENTO I - "Eu era um garoto do interior, ingênuo, não pensava muito em sexo. E quando passei a me interessar, eu queria que acontecesse com uma mulher especial, de quem eu gostasse. Minha primeira experiência foi aos 21 anos, com a mulher com quem estou casado até hoje. Acho que fiz a coisa certa. Se eu tivesse iniciado minha vida sexual aos 15, tudo seria diferente. Eu não ia mais parar, o sexo se tornaria uma coisa mecânica e perderia o encanto. Minha primeira vez foi maravilhosa. É claro que pinta uma insegurança e, por isso, só contei que era virgem depois da transa. Ela ficou surpresa. A primeira noite superou minhas expectativas. As dela também, senão ela não estaria comigo até hoje. Apesar de ter tido apenas uma mulher, tenho uma boa bagagem. Mas a arte do sexo a gente aprende todo dia". Paulo Gilberto Von Atzingen Gurgel, 31, farmacêutico.

DEPOIMENTO II - "Tenho desejos e fantasias como qualquer rapaz de minha idade. Mas quando temos um objetivo, atingimos um autocontrole, uma força que torna as coisas mais fáceis. E meu objetivo é me guardar até encontrar a mulher que será minha companheira. Acredito que só assim um relacionamento pode ser completo, duradouro. Vi muita gente tendo filho em hora errada ou pegando doenças sexualmente transmissíveis. Eu não quero isso para mim. Acho que o sexo é importante no casamento. Muitos perguntam se eu não tenho medo de me decepcionar sexualmente com a mulher que eu escolher para casar, já que não vou conhecê-la intimamente antes. Eu digo que não. Se algo não for como o esperado, a gente tem que conversar, dizer como espera que seja, e tudo se ajeita. Leio muito sobre sexo e aconselho meus amigos a se cuidarem. Eles não me ridicularizam por eu ser virgem porque exponho meus pontos de vista. E eles me respeitam. Sou mórmon e também converso sobre isso com os rapazes da igreja. A religião ensina que devemos respeitar a lei da castidade. As namoradas que tive normalmente pensam como eu. Algumas não pensavam, aí começava a rolar uma intimidade, mas eu dizia: "espera aí, não é isso que eu quero". E elas passavam a me admirar mais. Meu ideal é encontrar uma garota também virgem, e transar só depois do casamento. Assim, faremos descobertas juntos e será o momento mais especial de minha vida. Mas não sou tão radical. Se rolar com a mulher da minha vida antes do casamento, e, se ela não for virgem, não vou me condenar". Ricardo Rodrigues de Souza, 24, estudante e representante de vendas.




   

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