POSITIVO
Todo
cuidado tomado não evita uma
gravidezpor GABRIELA
MICHELOTTI e ALEXANDRA OZÓRIO DE
ALMEIDA
AF
Aos 19 anos, no
primeiro semestre da faculdade, a
jornalista Fernanda Fenner
engravidou de Marcos, então com
18 anos, seu namorado havia
apenas seis meses. Usando como
método anticoncepcional um mix
de tabelinha e camisinha,
Fernanda tinha procurado um
médico para começar a tomar
pílula, mas, ao levar os exames
pedidos, constatou que era tarde
demais: já estava grávida.
"Quando
recebi o teste, ri e chorei ao
mesmo tempo. Decidi não contar
nada pra ninguém para tomar a
decisão sozinha, sem pressão.
Depois de pensar muito, resolvi
que teria o filho, mesmo se o
Marcos não quisesse",
lembra Fernanda, agora com 27
anos.
Ao voltar para
a faculdade com um barrigão,
Fernanda estava com medo da
reação dos colegas.
"Cheguei no meio de uma aula
e ficou todo mundo me olhando,
sem falar nada, até que alguém
perguntou: - O que aconteceu?. Eu
respondi: - Engoli uma melancia.
Todo mundo riu, e o clima
melhorou", conta.
O drama das
mulheres que engravidaram tomando
a falsa pílula de farinha lembra
o dilema daquelas que engravidam
por acidente, mesmo usando
métodos anticoncepcionais.
Apesar de bastante seguros,
ocorrem reversões de vasectomias
ou laqueaduras, camisinhas
estouram, o DIU sai do lugar e as
pílulas falham em 1% dos casos.
"Estou
entre aquelas 0,001% que
engravidam com DIU", brinca
a engenheira Cláudia Martinelli,
35, que levou um susto há 7
anos, quando descobriu que estava
grávida.
Cláudia notou
que seu corpo estava diferente e,
depois de um atraso de 15 dias na
menstruação, fez o teste.
"Eu namorava o Marcelo havia
um ano e meio. Decidimos passar
um tempo separados para decidir.
Eu fiquei em São Paulo e ele foi
para a praia", lembra.
Cada um dos
dois chegou à mesma conclusão:
o melhor seria ir morar juntos e
ter a criança. Mas a gravidez
não foi tranqüila. "Eu
tirei o DIU para evitar
infecções, mas tive um
descolamento da placenta com
sangramentos durante a
gravidez", conta Cláudia,
que precisou ficar de repouso
durante três meses.
Hoje, Cláudia
está feliz com o
"azar" que teve.
"Eu uso DIU de novo e, às
vezes, fico torcendo para ele dar
outra falhadinha. Sem a mãozinha
do acaso, talvez eu não tivesse
me casado e não teria essa filha
maravilhosa que eu adoro",
confessa a engenheira, que
explica não ter disponibilidade
de tempo para ter outro filho
agora.
DOWN - A
jornalista Fernanda também não
se arrependeu de ter levado a
gravidez acidental até o fim,
mesmo tendo dado à luz um filho
com síndrome de Down, Rafael,
hoje com 7 anos.
"Logo
depois do parto, senti um clima
diferente. O bebê não vinha,
ninguém falava nada, meu marido
dizia que amava o nosso bebê de
qualquer jeito. Desesperei, achei
que meu filho estava morto.
Quando o médico finalmente me
contou, fiquei até
aliviada", diz Fernanda, 27.
Apesar de às
vezes já ter sentido vontade de
"sair correndo", como
toda mãe, Fernanda afirma estar
feliz com a decisão que tomou.
"O Rafael me motiva, me
deixa mais forte, corajosa,
persistente. Ele é muito
carinhoso, querido". O
casamento de Fernanda e Marcos
durou apenas dois anos. Ela
gostaria de ter outros filhos,
mas diz que o problema é
arranjar namorado. "Homem
já tem medo de filho, um
excepcional assusta ainda
mais".
Razões para
não ter (mais) um filho não
faltam: pouco dinheiro, espaço,
tempo, instabilidade no
casamento, prioridades
profissionais. Por que, então,
muitas mulheres, que não têm
convicções religiosas, nem
princípios morais contra o
aborto, decidem levar adiante uma
gravidez acidental?
MITO - A
psicanalista Ana Verônica
Mautner acha que o medo do aborto
pesa muito nessa hora. "As
mulheres que usam
anticoncepcionais regularmente
têm maior aversão à idéia de
um aborto. A tendência delas é
acabar aceitando a
gravidez", afirma.
Marcelo Zugaib,
chefe do Departamento de
Ginecologia e Obstetrícia da
USP, diz que demora um certo
tempo até que essas mulheres se
acostumem com a idéia de serem
mães. "Elas vão se
ajustando no decorrer do
pré-natal, enquanto o bebê
cresce na barriga", diz.
A também
jornalista Adna de Oliveira, 38,
já tinha três filhos quando
descobriu pertencer a esse 1% que
escapa da garantia da pílula
anticoncepcional. "Sei que
sou muito fértil, então sempre
andava com uma cartela de pílula
dentro da bolsa e deixava outra
no criado-mudo", conta Adna.
Ela tinha
jurado que não teria mais
filhos. "Eu tinha acabado de
começar em um emprego novo,
estava supervaidosa, fazendo
regime e nem passou pela minha
cabeça que poderia estar
grávida", diz. Adna não
sentiu nenhum dos sintomas da
gravidez, a não ser inchaço nos
seios, e continuou menstruando,
até que suas colegas começaram
a desconfiar, achavam que ela
"andava muito
sensível".
Quando foi ao
médico, já estava grávida de
quatro meses. "Chorei, não
sabia o que fazer e nem como
contar para as pessoas. Eu tinha
acabado de ser contratada e
ninguém ia acreditar que a
gravidez foi acidental",
afirma.
Adna conta que
fez uma lista de clínicas de
aborto e chegou a ligar para
saber o preço de uma no bairro
de Santana (região norte de SP).
"O fato de eles só me
aceitarem lá até a metade do
quarto mês me pressionou a tomar
uma decisão rápida. Optei por
ter o bebê", lembra.
O marido de
Adna deixou a decisão para ela,
embora achasse que não era hora
de ter mais um filho.
"Comecei a pensar que, se o
bebê veio, mesmo eu tomando
cuidado e com tantas condições
adversas, é porque ele tinha de
nascer. Aos poucos, comecei a
sentir necessidade de proteger o
meu filho", conta.
A psicanalista
Ana Verônica diz que existe um
fator de superstição. "A
mulher pensa que, se o filho
vingou, é porque merece viver.
Entram elementos mitológicos, do
Moisés que quer viver e a mãe
pensa em tirar. Lembra a
história de Cristo: quando é
para acontecer, acontece, até
quando a mãe é virgem, como no
caso de Maria", diz.
O nascimento do
filho de Adna também não foi
fácil. Adrian, agora com 3 anos,
sofreu hemorragia e precisou
ficar cinco dias na UTI. A
jornalista conta que, ao ver o
filho doente, quase "morreu
de remorso" por ter pensado
em tirá-lo. "Hoje, ele é o
filho mais ligado a mim, até por
causa desse histórico",
diz.
O segundo filho
da empresária Julia Borba
Becheli, 43, também chegou na
"pior hora". Ela
engravidou enquanto ainda
amamentava sua primeira filha,
Ana Carolina, que tinha apenas
três meses. "Foi um momento
delicado. Eu estava praticamente
na depressão pós-parto quando
engravidei de novo. Quando vi que
não tinha jeito, comecei a
curtir", diz Julia, que teve
João Guilherme, hoje com 15
anos.