- - - - - - - -- - - - - - - -- - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 12 de julho de 1998

POSITIVO
Todo cuidado tomado não evita uma gravidez

por GABRIELA MICHELOTTI e ALEXANDRA OZÓRIO DE ALMEIDA
AF

Aos 19 anos, no primeiro semestre da faculdade, a jornalista Fernanda Fenner engravidou de Marcos, então com 18 anos, seu namorado havia apenas seis meses. Usando como método anticoncepcional um mix de tabelinha e camisinha, Fernanda tinha procurado um médico para começar a tomar pílula, mas, ao levar os exames pedidos, constatou que era tarde demais: já estava grávida.

"Quando recebi o teste, ri e chorei ao mesmo tempo. Decidi não contar nada pra ninguém para tomar a decisão sozinha, sem pressão. Depois de pensar muito, resolvi que teria o filho, mesmo se o Marcos não quisesse", lembra Fernanda, agora com 27 anos.

Ao voltar para a faculdade com um barrigão, Fernanda estava com medo da reação dos colegas. "Cheguei no meio de uma aula e ficou todo mundo me olhando, sem falar nada, até que alguém perguntou: - O que aconteceu?. Eu respondi: - Engoli uma melancia. Todo mundo riu, e o clima melhorou", conta.

O drama das mulheres que engravidaram tomando a falsa pílula de farinha lembra o dilema daquelas que engravidam por acidente, mesmo usando métodos anticoncepcionais. Apesar de bastante seguros, ocorrem reversões de vasectomias ou laqueaduras, camisinhas estouram, o DIU sai do lugar e as pílulas falham em 1% dos casos.

"Estou entre aquelas 0,001% que engravidam com DIU", brinca a engenheira Cláudia Martinelli, 35, que levou um susto há 7 anos, quando descobriu que estava grávida.

Cláudia notou que seu corpo estava diferente e, depois de um atraso de 15 dias na menstruação, fez o teste. "Eu namorava o Marcelo havia um ano e meio. Decidimos passar um tempo separados para decidir. Eu fiquei em São Paulo e ele foi para a praia", lembra.

Cada um dos dois chegou à mesma conclusão: o melhor seria ir morar juntos e ter a criança. Mas a gravidez não foi tranqüila. "Eu tirei o DIU para evitar infecções, mas tive um descolamento da placenta com sangramentos durante a gravidez", conta Cláudia, que precisou ficar de repouso durante três meses.

Hoje, Cláudia está feliz com o "azar" que teve. "Eu uso DIU de novo e, às vezes, fico torcendo para ele dar outra falhadinha. Sem a mãozinha do acaso, talvez eu não tivesse me casado e não teria essa filha maravilhosa que eu adoro", confessa a engenheira, que explica não ter disponibilidade de tempo para ter outro filho agora.

DOWN - A jornalista Fernanda também não se arrependeu de ter levado a gravidez acidental até o fim, mesmo tendo dado à luz um filho com síndrome de Down, Rafael, hoje com 7 anos.

"Logo depois do parto, senti um clima diferente. O bebê não vinha, ninguém falava nada, meu marido dizia que amava o nosso bebê de qualquer jeito. Desesperei, achei que meu filho estava morto. Quando o médico finalmente me contou, fiquei até aliviada", diz Fernanda, 27.

Apesar de às vezes já ter sentido vontade de "sair correndo", como toda mãe, Fernanda afirma estar feliz com a decisão que tomou. "O Rafael me motiva, me deixa mais forte, corajosa, persistente. Ele é muito carinhoso, querido". O casamento de Fernanda e Marcos durou apenas dois anos. Ela gostaria de ter outros filhos, mas diz que o problema é arranjar namorado. "Homem já tem medo de filho, um excepcional assusta ainda mais".

Razões para não ter (mais) um filho não faltam: pouco dinheiro, espaço, tempo, instabilidade no casamento, prioridades profissionais. Por que, então, muitas mulheres, que não têm convicções religiosas, nem princípios morais contra o aborto, decidem levar adiante uma gravidez acidental?

MITO - A psicanalista Ana Verônica Mautner acha que o medo do aborto pesa muito nessa hora. "As mulheres que usam anticoncepcionais regularmente têm maior aversão à idéia de um aborto. A tendência delas é acabar aceitando a gravidez", afirma.

Marcelo Zugaib, chefe do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da USP, diz que demora um certo tempo até que essas mulheres se acostumem com a idéia de serem mães. "Elas vão se ajustando no decorrer do pré-natal, enquanto o bebê cresce na barriga", diz.

A também jornalista Adna de Oliveira, 38, já tinha três filhos quando descobriu pertencer a esse 1% que escapa da garantia da pílula anticoncepcional. "Sei que sou muito fértil, então sempre andava com uma cartela de pílula dentro da bolsa e deixava outra no criado-mudo", conta Adna.

Ela tinha jurado que não teria mais filhos. "Eu tinha acabado de começar em um emprego novo, estava supervaidosa, fazendo regime e nem passou pela minha cabeça que poderia estar grávida", diz. Adna não sentiu nenhum dos sintomas da gravidez, a não ser inchaço nos seios, e continuou menstruando, até que suas colegas começaram a desconfiar, achavam que ela "andava muito sensível".

Quando foi ao médico, já estava grávida de quatro meses. "Chorei, não sabia o que fazer e nem como contar para as pessoas. Eu tinha acabado de ser contratada e ninguém ia acreditar que a gravidez foi acidental", afirma.

Adna conta que fez uma lista de clínicas de aborto e chegou a ligar para saber o preço de uma no bairro de Santana (região norte de SP). "O fato de eles só me aceitarem lá até a metade do quarto mês me pressionou a tomar uma decisão rápida. Optei por ter o bebê", lembra.

O marido de Adna deixou a decisão para ela, embora achasse que não era hora de ter mais um filho. "Comecei a pensar que, se o bebê veio, mesmo eu tomando cuidado e com tantas condições adversas, é porque ele tinha de nascer. Aos poucos, comecei a sentir necessidade de proteger o meu filho", conta.

A psicanalista Ana Verônica diz que existe um fator de superstição. "A mulher pensa que, se o filho vingou, é porque merece viver. Entram elementos mitológicos, do Moisés que quer viver e a mãe pensa em tirar. Lembra a história de Cristo: quando é para acontecer, acontece, até quando a mãe é virgem, como no caso de Maria", diz.

O nascimento do filho de Adna também não foi fácil. Adrian, agora com 3 anos, sofreu hemorragia e precisou ficar cinco dias na UTI. A jornalista conta que, ao ver o filho doente, quase "morreu de remorso" por ter pensado em tirá-lo. "Hoje, ele é o filho mais ligado a mim, até por causa desse histórico", diz.

O segundo filho da empresária Julia Borba Becheli, 43, também chegou na "pior hora". Ela engravidou enquanto ainda amamentava sua primeira filha, Ana Carolina, que tinha apenas três meses. "Foi um momento delicado. Eu estava praticamente na depressão pós-parto quando engravidei de novo. Quando vi que não tinha jeito, comecei a curtir", diz Julia, que teve João Guilherme, hoje com 15 anos.




   

Índice | Editorial | Política | Brasil | Internacional | Cidades | Ciência/Meio Ambiente | Esportes | Economia |
Caderno C | Informática | Turismo | Charge | Colunas | Regional | Veículos | Família | Especiais

Últimas Notícias | JC Debate | Roteiro | Weekend | Bate-papo | Tábua de Marés
Fale com o JC | Links | Classificados | Rádio Jornal| Edições Anteriores | Assinantes