- - - - - - - -- - - - - - - -- - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 12 de julho de 1998

LAPAROSCOPIA
Médico usa animais para ensinar novas cirurgias

por LUIZ ROBERTO DE SOUZA QUEIROZ
AE

Há quase 10 anos, o gastroenterologista Thomaz Szego foi um dos primeiros cirurgiões brasileiros a usar a técnica da laparoscopia para extirpar a vesícula, reduzir hérnias e outros procedimentos que antes eram feitos "a céu aberto", com longas incisões no corpo do paciente. Professor da técnica inovadora, Thomaz ensina seus alunos a operarem usando cães e, mais recentemente, leitões, porque "na laparoscopia o médico não olha para o paciente, mas sim para uma câmara de TV e o treinamento é muito difícil, porque no vídeo todos os movimentos aparecem invertidos".

"Em praticamente todas as técnicas cirúrgicas o treinamento é feito em animais", explica Thomaz, "mas faz parte da ética anestesiar os animais, para que não sintam dor, evitar ao máximo qualquer sofrimento e preservar sua dignidade", ensina ele, que é afeiçoado aos animais e até há pouco tinha quatro cachorros. O médico afirma, porém, que como em qualquer setor, não é possível dizer que todos os médicos sigam as normas da ética.

Já na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo, há uma Comissão de Ética para analisar todas as propostas de trabalhos envolvendo animais e a patologista Nívea Lopes de Souza diz que, havendo possibilidade de substituição por outros testes, os animais não são usados, e quando o são, o projeto precisa prever como minorar a dor e reduzir o sofrimento, embora ela mesma reconheça que isso nem sempre é possível.

A veterinária lembra que, para testar a eficácia de um soro antiofídico ou contra o botulismo, por exemplo, é preciso inocular a toxina num animal e em seguida ministrar o antídoto, e esses procedimentos envolvem muitos animais, até que se garanta a segurança e a dosagem adequada. Num caso como o dos rodeios que são feitos no Interior, a veterinária considera inadmissível que se faça o animal sofrer, porque aí não há benefício para a saúde do ser humano, mas o animal sofre para que os espectadores tenham lazer. Por isso mesmo a Comissão que ela dirige emitiu um parecer contra o uso do Sedem, uma corda que se prende na virilha de touros e cavalos, para que eles saltem nos rodeios e ofereçam um bom espetáculo.

MATANÇA - Mesmo nas instituições afamadas, entretanto, não é sempre que os animais usados em laboratório são tratados convenientemente. Na comunidade científica paulista e mesmo dentro do Butantã houve muita reclamação contra a matança, em abril, de 130 cavalos da Fazenda São Joaquim, que o Butantã mantém em Araçariguama, e que foram abatidos porque estavam contaminados com anemia infecciosa eqüina.

Os cavalos são usados para a preparação de anti-corpos, matéria-prima para soros. O sistema, que já é usado há um século, consiste em injetar pequenas e crescentes quantidades de veneno de cobra, por exemplo, no cavalo que não morre, porque o veneno é pouco. O organismo do animal desenvolve anticorpos contra a toxina do veneno e novamente é inoculado, até que seu organismo seja capaz de tornar inócuas grandes quantidades de veneno.

O animal é então sangrado, mas numa quantidade que também não é mortal, e desse sangue é extraído o soro para uso humano e também animal. O problema é que esses cavalos ficam debilitados, têm problemas renais e hepáticos freqüentes e necessitam de um cuidado especial que, aparentemente, o Butantã não lhes deu. Segundo médicos do Butantã, que evidentemente não querem ser identificados. O exame periódico dos animais, que deve ser feito de seis em seis meses, tinha sido feito pela última vez há dois anos, e a conseqüência é que a doença se espalhou.

PROIBIÇÃO - Em algumas instituições, os animais de laboratório são encarados com todo o respeito, tanto que na Faculdade de Medicina da USP anualmente é oficiada uma missa tanto pelos animais sacrificados em experiências e treinamento, como por intenção dos indigentes cujos corpos foram usados nas aulas para os futuros médicos.

Em outros hospitais, entretanto, houve muita reclamação no passado contra os maus tratos a que eram submetidos os animais, tanto que o ex-prefeito Jânio Quadros tentou regulamentar o uso de cães de rua, capturados pelo Centro de Zoonoses, que os entregava aos hospitais, e depois desistiu, simplesmente baixando uma proibição de que os cães fossem utilizados, o que atrapalhou bastante o trabalho dos pesquisadores.

 




   

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