LAPAROSCOPIA
Médico
usa animais para ensinar novas
cirurgiaspor LUIZ ROBERTO DE
SOUZA QUEIROZ
AE
Há quase 10
anos, o gastroenterologista
Thomaz Szego foi um dos primeiros
cirurgiões brasileiros a usar a
técnica da laparoscopia para
extirpar a vesícula, reduzir
hérnias e outros procedimentos
que antes eram feitos "a
céu aberto", com longas
incisões no corpo do paciente.
Professor da técnica inovadora,
Thomaz ensina seus alunos a
operarem usando cães e, mais
recentemente, leitões, porque
"na laparoscopia o médico
não olha para o paciente, mas
sim para uma câmara de TV e o
treinamento é muito difícil,
porque no vídeo todos os
movimentos aparecem
invertidos".
"Em
praticamente todas as técnicas
cirúrgicas o treinamento é
feito em animais", explica
Thomaz, "mas faz parte da
ética anestesiar os animais,
para que não sintam dor, evitar
ao máximo qualquer sofrimento e
preservar sua dignidade",
ensina ele, que é afeiçoado aos
animais e até há pouco tinha
quatro cachorros. O médico
afirma, porém, que como em
qualquer setor, não é possível
dizer que todos os médicos sigam
as normas da ética.
Já na
Faculdade de Medicina
Veterinária e Zootecnia da
Universidade de São Paulo, há
uma Comissão de Ética para
analisar todas as propostas de
trabalhos envolvendo animais e a
patologista Nívea Lopes de Souza
diz que, havendo possibilidade de
substituição por outros testes,
os animais não são usados, e
quando o são, o projeto precisa
prever como minorar a dor e
reduzir o sofrimento, embora ela
mesma reconheça que isso nem
sempre é possível.
A veterinária
lembra que, para testar a
eficácia de um soro antiofídico
ou contra o botulismo, por
exemplo, é preciso inocular a
toxina num animal e em seguida
ministrar o antídoto, e esses
procedimentos envolvem muitos
animais, até que se garanta a
segurança e a dosagem adequada.
Num caso como o dos rodeios que
são feitos no Interior, a
veterinária considera
inadmissível que se faça o
animal sofrer, porque aí não
há benefício para a saúde do
ser humano, mas o animal sofre
para que os espectadores tenham
lazer. Por isso mesmo a Comissão
que ela dirige emitiu um parecer
contra o uso do Sedem, uma corda
que se prende na virilha de
touros e cavalos, para que eles
saltem nos rodeios e ofereçam um
bom espetáculo.
MATANÇA -
Mesmo nas instituições
afamadas, entretanto, não é
sempre que os animais usados em
laboratório são tratados
convenientemente. Na comunidade
científica paulista e mesmo
dentro do Butantã houve muita
reclamação contra a matança,
em abril, de 130 cavalos da
Fazenda São Joaquim, que o
Butantã mantém em
Araçariguama, e que foram
abatidos porque estavam
contaminados com anemia
infecciosa eqüina.
Os cavalos são
usados para a preparação de
anti-corpos, matéria-prima para
soros. O sistema, que já é
usado há um século, consiste em
injetar pequenas e crescentes
quantidades de veneno de cobra,
por exemplo, no cavalo que não
morre, porque o veneno é pouco.
O organismo do animal desenvolve
anticorpos contra a toxina do
veneno e novamente é inoculado,
até que seu organismo seja capaz
de tornar inócuas grandes
quantidades de veneno.
O animal é
então sangrado, mas numa
quantidade que também não é
mortal, e desse sangue é
extraído o soro para uso humano
e também animal. O problema é
que esses cavalos ficam
debilitados, têm problemas
renais e hepáticos freqüentes e
necessitam de um cuidado especial
que, aparentemente, o Butantã
não lhes deu. Segundo médicos
do Butantã, que evidentemente
não querem ser identificados. O
exame periódico dos animais, que
deve ser feito de seis em seis
meses, tinha sido feito pela
última vez há dois anos, e a
conseqüência é que a doença
se espalhou.
PROIBIÇÃO -
Em algumas instituições, os
animais de laboratório são
encarados com todo o respeito,
tanto que na Faculdade de
Medicina da USP anualmente é
oficiada uma missa tanto pelos
animais sacrificados em
experiências e treinamento, como
por intenção dos indigentes
cujos corpos foram usados nas
aulas para os futuros médicos.
Em outros
hospitais, entretanto, houve
muita reclamação no passado
contra os maus tratos a que eram
submetidos os animais, tanto que
o ex-prefeito Jânio Quadros
tentou regulamentar o uso de
cães de rua, capturados pelo
Centro de Zoonoses, que os
entregava aos hospitais, e depois
desistiu, simplesmente baixando
uma proibição de que os cães
fossem utilizados, o que
atrapalhou bastante o trabalho
dos pesquisadores.