ENTREVISTA / Lygia Fagundes
Telles
Lygia
Fagundes Telles muda de editora e
revisa sua obra"Eu quero a
Maria Callas aos berros, aos
berros", grita uma das
personagens do livro de contos
"A noite escura e mais
eu". Esse grito é fruto de
um desespero incomunicável e
intransponível, como são
também quase todos os
sentimentos humanos. A autora
dessa obra, a escritora Lygia
Fagundes Telles, é perita em
transpor para palavras todas as
frustrações, angústias e
mistérios que permeiam a
estranha alma humana. Lygia está
revisando e reeditando várias
das suas obras esgotadas, para a
sua nova editora, a Rocco, e
preparando o lançamento, para
esse segundo semestre, do seu
novo livro "Invenções e
Memórias". Nessa
entrevista, concedida por
telefone, ao repórter Schneider
Carpeggiani, a escritora fala do
seu novo trabalho, fala sobre
como é revisar suas obras mais
famosas e sobre o mistério da
criação literária.
JORNAL DO
COMMERCIO - Como é o trabalho de
revisar obras tão consagradas
como Ciranda de Pedra, O
Seminário dos Ratos e As
Meninas?
LYGIA
FAGUNDES TELLES - Eu gosto de
ler o que escrevi. Eu sou muito
rigorosa, e gosto de reler para
ver o que está em ordem. A minha
nova editora, a Rocco, está
reeditando os livros esgotados, e
os primeiros a sair foram esses.
O meu trabalho foi de fazer uma
série de correções gráficas
necessárias. Não me agradam os
livros que escrevi antes de
Ciranda de Pedra, que é de 1954,
aquele era o trabalho de uma
mocinha aflita.
JC - Como a
senhora define o seu novo livro
chamado Invenção e Memórias?
LFT -
Esse livro tem uma epígrafe de
Paulo Emílio Salles Gomes, que
foi meu segundo marido, e
fundador da cinemateca
brasileira, da qual gosto muito:
"Eu invento sempre, mas com
a secreta esperança de estar
inventando certo". Então
esse livro tem imaginação e
memória. Na minha opinião a
imaginação sempre invade a
memória. A minha memória
fantasia muito.
JC - Na hora
de escrever a senhora separa a
escritora da personagem? Ou não?
LFT - É
uma coisa só. É tudo
impossível de separar. É
impossível separar o bem do mal
no Ser humano, esse Ser é com
letra maiúscula mesmo. Nas
profundezas é uma mistura
impossível de separar. Não é
como em um laboratório de
físico-química que você
separa. A natureza humana é uma
coisa só.
JC - No
conto A Coisa, do livro A
Estrutura da Bolha de Sabão, tem
a seguinte passagem: "Ele
passou as mãos geladas, na face
gelada". Só com esse
simples gesto de passar as mãos
no rosto, a senhora conseguiu
resumir todo o estado emocional
da personagem. Qual a
importância do detalhe no seu
trabalho?
LFT - O
detalhe é muito importante. Quem
trabalha muito com o detalhe é o
Machado de Assis, ele coloca tudo
em detalhes. Eu gosto muito do
pôr menor, não me abalo com o
total.
JC - Dois
dos seus trabalhos falam da obra
desse escritor: Um deles é uma
versão sua sobre o conto de
Machado A Missa do Galo.
LFT -
Esse conto eu escrevi por causa
de Osmam Lins. Ele deu uma tarefa
a vários escritores para
reescreverem esse conto, como se
fossem personagens dele. Ele
escreveu como se fosse o rapaz do
conto. Já a Julieta, que era
esposa de Osmam, escreveu como a
própria Conceição. Ele passou
para mim a personagem mais
difícil. A minha personagem
apenas flutua, não tem corpo,
não pode agir. Eu fui todas as
personagens sem ser nenhuma, fui
onipresente.
JC - Também
tem um livro seu chamado Capitu,
que é uma espécie de
continuação de Dom Casmurro.
Por que escrever sobre as obras
de Machado?
LFT - Eu
gosto muito do trabalho de
Machado de Assis. Ele oferece ao
leitor a liberdade. Em Dom
Casmurro você não sabe de nada,
ele insinua tudo.
JC - Muitos
dos seus trabalhos dão a
impressão de não terem acabado
naquele ponto, de precisarem que
o leitor continue a história. A
senhora também oferece liberdade
ao leitor?
LFT - Eu
ofereço às vezes a liberdade ao
leitor, mas há coisas que eu
preciso dizer e deixar claro. Por
exemplo, no romance As Meninas,
eu procuro tirar as máscaras de
cada um. Eu sou testemunha do meu
tempo e da minha sociedade. Hoje
eu li na Folha de São Paulo uma
matéria sobre as fortunas dos
políticos; eles estão cada vez
mais ricos. Já eu estou cada vez
mais pobre, porque não sou
político. Todo mundo está dando
pão e circo; na hora da
eleição dão até caviar e
champanhe. Pelo menos, com essa
copa, o circo está bom.
JC - A
senhora se preocupa se o leitor
compreende, ou não, a sua obra?
LFT - Eu
faço o leitor fazer o que quiser
com a situação. Estamos com 160
milhões de analfabetos no
Brasil. São poucos os que sabem
ler. Já que estamos nessa
situação, não quero ser a
palmatória do mundo. Eu não sou
a mosca na sopa. Eu não quero
confundir, eu quero denunciar.
Estou tentando delatar as feridas
do meu país, mas não tenho o
poder de curar. Sou como um
personagem de um conto meu, Anão
de Jardim: Eu observo tudo sem
conseguir fazer nada.
JC - Mas o
seu trabalho como escritora
consegue levar as pessoas a
pensar, e isso é muito
importante
LFT - Eu
compreendo que a literatura e a
arte em geral tem o poder de
livrar o ser humano do vício.
Uma vez, um homem, que nunca vi
na minha vida, ligou aqui para
casa e disse que leu uma passagem
de A Disciplina do Amor e
resolveu desistir de se matar. É
nesse tipo de cura que eu
acredito.
JC - Nesse
livro que acabou de citar, A
Disciplina Do Amor, tem uma
definição sua sobre Kafka que
é a seguinte: "O caos está
na forma de apresentação do
problema, não na sua
essência". É possível
dizer que o seu trabalho é o
contrário do trabalho de Kafka?
LFT - O
meu trabalho é exatamente o
contrário de Kafka. Tudo está
na essência. Eu falo sobre a
dificuldade em separar o fundo da
forma. De repente você percebe
que eles estão comungados.
JC - Vários
dos seus contos são bastante
visuais. Chegam a dar impressão
de serem um roteiro para um
filme. A senhora pensa em imagens
para escrever?
LFT - O
meu filho Gofredo Telles, que é
cineasta, também acha que meus
contos são bastante imagéticos:
sugerem um roteiro de cinema. Eu
não penso nisso, são resultados
inesperados do meu trabalho.
JC - No
material de divulgação de
Ciranda de Pedra, tem uma
passagem que diz que a senhora
teve a idéia do livro ao passar
em frente a um casarão que
estava sendo demolido e começou,
então, a imaginar os dramas que
se desenrolaram naquele cenário.
Essa espécie de epifânia que
leva a criação, geralmente lhe
ocorre?
LFT -
Geralmente as pessoas me
perguntam como eu chego ao
momento de criação. A
inspiração, para mim, acontece
de três formas diferentes:
Primeiro a inspiração chega com
algo que eu vejo; a imagem do fim
de algo que existe, como no caso
de Ciranda de Pedra. A
inspiração também vem através
de algo que eu escuto: Uma vez
estava em um coquetel e escutei
uma mulher dizer o sequinte a
outra: "Mas fulano teve que
morrer logo hoje, no dia da
festa". Fiquei chocada com
essa declaração e ela me levou
a escrever uma das estórias do
livro Antes do Baile Verde, que
tem uma passagem semelhante a
essa. Por último, a inspiração
chega através do sonho. É o
inconsciente trabalhando, é o
mundo misterioso do fundo do mar.
A Globo apresentou uma reportagem
mostrando um fundo do mar
bonitinho. Mas o fundo do mar
não é assim, com certeza. Esse
é o mistério da criação.