- - - - - - - -- - - - - - - -- - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 12 de julho de 1998

ENTREVISTA / Lygia Fagundes Telles
Lygia Fagundes Telles muda de editora e revisa sua obra

"Eu quero a Maria Callas aos berros, aos berros", grita uma das personagens do livro de contos "A noite escura e mais eu". Esse grito é fruto de um desespero incomunicável e intransponível, como são também quase todos os sentimentos humanos. A autora dessa obra, a escritora Lygia Fagundes Telles, é perita em transpor para palavras todas as frustrações, angústias e mistérios que permeiam a estranha alma humana. Lygia está revisando e reeditando várias das suas obras esgotadas, para a sua nova editora, a Rocco, e preparando o lançamento, para esse segundo semestre, do seu novo livro "Invenções e Memórias". Nessa entrevista, concedida por telefone, ao repórter Schneider Carpeggiani, a escritora fala do seu novo trabalho, fala sobre como é revisar suas obras mais famosas e sobre o mistério da criação literária.

JORNAL DO COMMERCIO - Como é o trabalho de revisar obras tão consagradas como Ciranda de Pedra, O Seminário dos Ratos e As Meninas?

LYGIA FAGUNDES TELLES - Eu gosto de ler o que escrevi. Eu sou muito rigorosa, e gosto de reler para ver o que está em ordem. A minha nova editora, a Rocco, está reeditando os livros esgotados, e os primeiros a sair foram esses. O meu trabalho foi de fazer uma série de correções gráficas necessárias. Não me agradam os livros que escrevi antes de Ciranda de Pedra, que é de 1954, aquele era o trabalho de uma mocinha aflita.

JC - Como a senhora define o seu novo livro chamado Invenção e Memórias?

LFT - Esse livro tem uma epígrafe de Paulo Emílio Salles Gomes, que foi meu segundo marido, e fundador da cinemateca brasileira, da qual gosto muito: "Eu invento sempre, mas com a secreta esperança de estar inventando certo". Então esse livro tem imaginação e memória. Na minha opinião a imaginação sempre invade a memória. A minha memória fantasia muito.

JC - Na hora de escrever a senhora separa a escritora da personagem? Ou não?

LFT - É uma coisa só. É tudo impossível de separar. É impossível separar o bem do mal no Ser humano, esse Ser é com letra maiúscula mesmo. Nas profundezas é uma mistura impossível de separar. Não é como em um laboratório de físico-química que você separa. A natureza humana é uma coisa só.

JC - No conto A Coisa, do livro A Estrutura da Bolha de Sabão, tem a seguinte passagem: "Ele passou as mãos geladas, na face gelada". Só com esse simples gesto de passar as mãos no rosto, a senhora conseguiu resumir todo o estado emocional da personagem. Qual a importância do detalhe no seu trabalho?

LFT - O detalhe é muito importante. Quem trabalha muito com o detalhe é o Machado de Assis, ele coloca tudo em detalhes. Eu gosto muito do pôr menor, não me abalo com o total.

JC - Dois dos seus trabalhos falam da obra desse escritor: Um deles é uma versão sua sobre o conto de Machado A Missa do Galo.

LFT - Esse conto eu escrevi por causa de Osmam Lins. Ele deu uma tarefa a vários escritores para reescreverem esse conto, como se fossem personagens dele. Ele escreveu como se fosse o rapaz do conto. Já a Julieta, que era esposa de Osmam, escreveu como a própria Conceição. Ele passou para mim a personagem mais difícil. A minha personagem apenas flutua, não tem corpo, não pode agir. Eu fui todas as personagens sem ser nenhuma, fui onipresente.

JC - Também tem um livro seu chamado Capitu, que é uma espécie de continuação de Dom Casmurro. Por que escrever sobre as obras de Machado?

LFT - Eu gosto muito do trabalho de Machado de Assis. Ele oferece ao leitor a liberdade. Em Dom Casmurro você não sabe de nada, ele insinua tudo.

JC - Muitos dos seus trabalhos dão a impressão de não terem acabado naquele ponto, de precisarem que o leitor continue a história. A senhora também oferece liberdade ao leitor?

LFT - Eu ofereço às vezes a liberdade ao leitor, mas há coisas que eu preciso dizer e deixar claro. Por exemplo, no romance As Meninas, eu procuro tirar as máscaras de cada um. Eu sou testemunha do meu tempo e da minha sociedade. Hoje eu li na Folha de São Paulo uma matéria sobre as fortunas dos políticos; eles estão cada vez mais ricos. Já eu estou cada vez mais pobre, porque não sou político. Todo mundo está dando pão e circo; na hora da eleição dão até caviar e champanhe. Pelo menos, com essa copa, o circo está bom.

JC - A senhora se preocupa se o leitor compreende, ou não, a sua obra?

LFT - Eu faço o leitor fazer o que quiser com a situação. Estamos com 160 milhões de analfabetos no Brasil. São poucos os que sabem ler. Já que estamos nessa situação, não quero ser a palmatória do mundo. Eu não sou a mosca na sopa. Eu não quero confundir, eu quero denunciar. Estou tentando delatar as feridas do meu país, mas não tenho o poder de curar. Sou como um personagem de um conto meu, Anão de Jardim: Eu observo tudo sem conseguir fazer nada.

JC - Mas o seu trabalho como escritora consegue levar as pessoas a pensar, e isso é muito importante

LFT - Eu compreendo que a literatura e a arte em geral tem o poder de livrar o ser humano do vício. Uma vez, um homem, que nunca vi na minha vida, ligou aqui para casa e disse que leu uma passagem de A Disciplina do Amor e resolveu desistir de se matar. É nesse tipo de cura que eu acredito.

JC - Nesse livro que acabou de citar, A Disciplina Do Amor, tem uma definição sua sobre Kafka que é a seguinte: "O caos está na forma de apresentação do problema, não na sua essência". É possível dizer que o seu trabalho é o contrário do trabalho de Kafka?

LFT - O meu trabalho é exatamente o contrário de Kafka. Tudo está na essência. Eu falo sobre a dificuldade em separar o fundo da forma. De repente você percebe que eles estão comungados.

JC - Vários dos seus contos são bastante visuais. Chegam a dar impressão de serem um roteiro para um filme. A senhora pensa em imagens para escrever?

LFT - O meu filho Gofredo Telles, que é cineasta, também acha que meus contos são bastante imagéticos: sugerem um roteiro de cinema. Eu não penso nisso, são resultados inesperados do meu trabalho.

JC - No material de divulgação de Ciranda de Pedra, tem uma passagem que diz que a senhora teve a idéia do livro ao passar em frente a um casarão que estava sendo demolido e começou, então, a imaginar os dramas que se desenrolaram naquele cenário. Essa espécie de epifânia que leva a criação, geralmente lhe ocorre?

LFT - Geralmente as pessoas me perguntam como eu chego ao momento de criação. A inspiração, para mim, acontece de três formas diferentes: Primeiro a inspiração chega com algo que eu vejo; a imagem do fim de algo que existe, como no caso de Ciranda de Pedra. A inspiração também vem através de algo que eu escuto: Uma vez estava em um coquetel e escutei uma mulher dizer o sequinte a outra: "Mas fulano teve que morrer logo hoje, no dia da festa". Fiquei chocada com essa declaração e ela me levou a escrever uma das estórias do livro Antes do Baile Verde, que tem uma passagem semelhante a essa. Por último, a inspiração chega através do sonho. É o inconsciente trabalhando, é o mundo misterioso do fundo do mar. A Globo apresentou uma reportagem mostrando um fundo do mar bonitinho. Mas o fundo do mar não é assim, com certeza. Esse é o mistério da criação.


     

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