- - - - - - - -- - - - - - - -- - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 12 de julho de 1998

LITERATURA
Autora supera o temor de se encarar

Para a grande maioria dos escritores, só o fato de pensar em reler uma das suas obras pode ocasionar uma crise de depressão irrecuperável. Mas ao que parece, Lygia Fagundes Telles resolveu enfrentar esse tabu dos seus colegas de profissão e trabalhar na revisão e reedição de algumas das suas obras mais consagradas. Os primeiros livros reeditados, depois do aval da escritora, pela editora Rocco, foram: Seminário dos Ratos, Ciranda de Pedra e As Meninas. Um detalhe interessante é que todos esses trabalhos são posteriores à Ciranda de Pedra, considerado pela autora, e pelos críticos, o início da maturidade artística de Lygia. A própria escritora considera os trabalhos anteriores, a esse, como "imaturos".

Lygia descreve o livro de contos O Seminário dos Ratos como o seu trabalho "engajado". Essa obra também pode ser descrita através da palavra indignação. Esse sentimento é aqui tratado diante de quase todas as suas formas: a indignação diante do amor não-correspondido, diante dos problemas sociais e do medo de envelhecer.

As Meninas é uma das obras mais densas da escritora e mostra personagens mergulhadas em um poço de conflitos e monólogos interiores, que vem à superfície sempre que os sentimentos das personagens entram em contato com a realidade a sua volta. Um dos pontos mais importantes do livro é a linguagem rebuscadaque a autora escolheupara desenvolver as tramas presentes.

Ciranda de Pedra, publicado em 1954, é com certeza o trabalho mais famoso de lygia; uma obra fundamental e leitura obrigatória para os estudantes do 2ª grau. A obra conta a trajetória de Virgínia, uma personagem perdida entre o enlouquecimento e morte da mãe, entre um período em um colégio interno e diante de um relacionamento complicado com as irmãs e com o pai. Carlos Drummond de Andrade escreveu a definição perfeita para esse trabalho, que está presente na orelha do livro, e que poderia servir para definir toda a obra de Lygia: "...nos faz sofrer e ao mesmo tempo nos oferece o remédio compensador da própria arte, pois a força de criação resolve num plano mágico os conflitos que ela mesma suscita." (S.C.)


     

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