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Lolita
vende calcinhaspor ROBERTO MARTINS*
Recentes
noticiários na imprensa escrita
informam sobre uma das
tendências que está se
delineando no mundo da
publicidade que é a de algumas
agências criarem e consolidarem
dentro destas empresas, divisões
de entretenimento que devem
desenvolver projetos de cinema e
de produções para televisões a
cabo (produção e operação).
Para alguns publicitários os
negócios podem ir além,
multiplicando-se em projetos nas
áreas de salas de cinema,
música e outras atividades
relacionadas à comunicação.
Pesquisas
recentes realizadas pela Rede
Globo verificaram que, seguindo
palavras de um de seus gerentes
de marketing, "o povo gosta
de ver coisas bonitas, ofertadas
diariamente pela televisão, que
repassam muita cor, movimento e
emoção..." Pesquisa de
opinião pública encomendada
pela Rede Globo em março de 1997
ao Ibope, indicava claramente que
é a televisão o meio de
comunicação que mais chama a
atenção do consumidor. É na
televisão também que a
propaganda desperta mais
interesse de compra e
confiabilidade.
É a partir
desta moldura lastreada por dados
estatísticos que me é permitido
argumentar sobre as
possibilidades dos efeitos na
qualidade artística do cinema,
caso agências de publicidade
passem a ter algum papel de
importância na produção de
filmes. Não quero e nem posso
ser preconceituoso nem
estabelecer julgamentos
antecipados, mas declaro que temo
muito esta confluência de fatos,
qual seja: gostoo popularizado, o
extremo poder de sedução da
televisão e o controle da
produção de filmes por
agências de publicidade.
Para não
limitar a minha argumentação,
talvez nos limites de um
ensaísmo especulatório,
menciono aqui uma obra consumada
de um produto tipo
"filme-estética-publicidade".
Do diretor
Adrian Lyne, ex-publicitário,
responsável pela direção de
"Alucinações do
Passado", "Atração
Fatal" e "9 1/2 Semanas
de Amor, é lançado na Europa a
sua versão de Lolita, baseada no
romance de Wladimir Nabokov e que
foi anteriormente filmado por
Stanley Kubrick em 1962.
O que é que o
Lyne fez da novela de Nabokov? De
acordo com oo número de maio
próximo passado do The Times
Literary Supplement, página 23,
em artigo assinado por Linda
Holt, o filme de Lyne é uma
porcaria de refinamento kitsch.
Para mim, nenhuma surpresa,
principalmente se considerarmos a
tentativa do Lyne em
"estetizar" o 9 1/2
Semanas de Amor", que é um
"filme" mais apropriado
para vender sabonete de
"estrelas" factóides
de mulher.
De acordo com o
TLS de Londres, a Lolita de Lyne
já é dada prontinha para o
professor Humpert, enquanto que
no texto de Nabokov - e também
no filme de Kubrick - ele se
empenha em seduzir a frígida
Dolores Haze (Lolita). (É um
problema aí estabelecermos que
uma garota de um romance de 43
anos atrás possa ser chamada de
"frígida". Hoje,
talvez sim.) Escapa ao Lyne, pelo
que eu li no TLS, uma das maiores
qualidades do texto de Nabokov
que é a de triturar a cultura do
mau gosto popular
norte-americano.
A ninfeta
Lolita é ela própria um produto
vulgar da chamada "American
Popular Culture". Mas o Lyne
não está interessado nestas
qualidades que o Nabokov
presentearia a qualquer outro bom
cineasta. É por esta - e espero
que não por outras - que eu temo
o cinema mais ainda nas mentes,
nas mãos e nos cofres das
agências de publicidade.
* Roberto
Martins é sociólogo