PERSONALIDADE
Lúcio
Costa, modernidade e tradiçãopor FERNANDO DINIZ
MOREIRA
O Brasil
perdeu, recentemente, a principal
personagem de sua arquitetura do
século XX. Lúcio Costa não
merece este título apenas por
ter sido um dos arquitetos que
introduziram os conceitos
modernistas na nossa arquitetura,
mas sim pelo fato de ter dado a
esta um tom nacional, conseguindo
articular o projeto das
vanguardas com valores da
tradição local. Isto fez com
que a arquitetura brasileira,
entre as décadas de 40 e 60,
figurasse com destaque na
vanguarda internacional,
tornando-se um ícone de nossa
cultura e um símbolo da
constituição do país enquanto
nação moderna.
Nascido em
Toulon - França, em 1902, Lúcio
Costa foi detentor de uma sólida
formação humanista. Antes mesmo
de se formar na Escola Nacional
de Belas Artes (ENBA), em 1924,
já se interessava pelo
neocolonial, movimento que, sob
os auspícios de José Marianno
Filho, procurava, nos anos 20,
recuperar a arquitetura colonial
luso-brasileira e criar uma
identidade nacional para a nossa
arquitetura. Assim, empreendeu
inúmeras viagens para documentar
e estudar a arquitetura colonial
em diversos estados do Centro-sul
e do Nordeste, tornando-se
sensível às obras do passado.
No final da
década de 20, ao entrar em
contato com o pioneiro modernista
Gregori Warchavchik e com as
teorias funcionalistas que
estavam se desenvolvendo na
Europa, através das obras e
escritos de Gropius e Le
Corbusier, passou a ter dúvidas
em relação à coerência do
projeto neocolonial e a aderir
aos postulados modernistas.
Em 1930, Costa
é indicado pelo governo Vargas
para ser o novo diretor da ENBA.
Enquanto todos esperavam que ele
fosse dar continuidade à
orientação neocolonial,
instituiu um novo programa e
contratou novos professores, como
Warchavchik, Reidy e Buddeus.
Juntos, revolucionaram as formas
de ensino, introduzindo um novo
vocabulário de sólidos
geométricos puros e elementares,
novos métodos, problemas e
formas de apresentação. A
revolução no ensino foi total,
causando enorme sucesso entre o
alunado, que continha, neste
momento, jovens que iriam
revolucionar nossa arquitetura,
como Oscar Niemeyer, Luiz Nunes,
Vital Brazil e os irmãos Milton
e Marcelo Roberto. No entanto, a
reação acadêmica não tardaria
a vir, sobretudo na pessoa de
José Marianno Filho, que iniciou
uma ferrenha campanha na imprensa
visando desmoralizar e depor seu
antigo pupilo da direção.
A resposta de
Lúcio Costa, emitida com seu
reconhecido refinamento, é
talvez uma das mais lúcidas
interpretações para se entender
a especificidade da arquitetura
moderna brasileira. Neste artigo,
explicou que a sua admiração
pela arquitetura luso-brasileira
colonial, levou-o a estudá-la
com mais profundidade e a
compreender seu espírito e sua
lógica, a franqueza de seus
processos construtivos, a
adequação ao clima e a
simplicidade. Em suma, descobriu
o que ele chamou de
"princípios imanentes"
daquela arquitetura.
Assim, procurou
expor as contradições
existentes no movimento
neocolonial e mostrar que a
arquitetura moderna poderia
incorporar estes princípios,
tornando-se muito mais apta para
responder às necessidades de uma
nova época. Embora não tenha
conseguido manter Costa à frente
da ENBA, esta idéia tornar-se-ia
o argumento lógico da
arquitetura moderna brasileira,
sobretudo, na sua vertente
chamada "escola
carioca".
A "escola
carioca" procurava
incorporar nos seus edifícios
elementos da tradição colonial,
retomadas em uma nova linguagem,
como rótulas, venezianas e
azulejos de diferentes de cores e
padrões, usados para a
proteção das fachadas e
marcação do caráter
não-estrutural de superfícies.
Era também marcada pela
preocupação com a proteção
solar, que terminou por resultar
na adoção do brise-soleil,
empregado de diversas formas,
visando não só a proteção,
mas também a plasticidade das
fachadas. A acentuação do
aspecto plástico do edifício,
tão explorada por Niemeyer, foi
uma das características mais
marcantes desta escola. Seus
membros adotavam ainda partidos
leves e vazados, com proporções
elegantes e equilibradas e
recursos modernistas, como o uso
do pilotis e a planta livre.
Algumas obras
de Lúcio Costa, construídas no
Rio de Janeiro, no início da
década de 40, como as casas
Hungria Machado, Paes de Carvalho
e Barão de Saavedra, são
exemplos maiores desta síntese
entre modernidade e tradição.
As casas foram concebidas em
função de um jardim para onde
se voltam os cômodos principais,
conseguindo uma sábia e
tranqüila transição
interior-exterior. Costa atingiu
uma síntese perfeita entre
materiais modernos (concreto e
vidro) e tradicionais (madeira e
pedra). Utilizou vários
elementos da arquitetura
luso-brasileira como venezianas,
muxarabis, azulejos, cobertas em
telha canal com largos beirais e
varandas contèguas aos
dormitórios.
O mesmo
argumento repetiu-se no Parque
Hotel São Clemente, em Nova
Friburgo como pode-se comprovar
pela treliça no guarda-corpo do
corredor, pelo tradicional
telhado de uma água, e pela
varanda contínua da fachada
principal. Tudo isto está
harmoniosamente integrado em dois
volumes bem funcionais, que
possuem vários princípios
modernistas: a planta livre, o
jogo de pilotis, o sistema
modular, o brise-soleil, o pano
de vidro, além da estrutura de
concreto armado, brilhantemente
associada a uma de madeira. Nesta
obra, Lúcio Costa revelou senso
de proporção, simplicidade,
unidade, além de ter conseguido
uma perfeita inserção na
paisagem. Esta síntese seria
também atingida nos edifícios
que projetou para o Parque
Guinle, entre 1948 e 1954. Nestes
blocos prismáticos puros,
claramente influenciados pelos
princípios de Le Corbusier,
utilizou um cuidadoso jogo de
brise-soleil e elementos vazados,
que resultou em uma composição
ritmada, harmoniosa e
equilibrada.
Em meados da
década de 80, quando se pensava
que Lúcio Costa já havia
cessado suas atividades, ele
supreendeu-nos, com mais duas
casas, uma para sua filha Helena
e outra para a amiga Olivia
Byington, ambas situadas no
bairro da Gávea, no Rio de
Janeiro. São amplas residências
que, implantadas de forma a
respeitar os terrenos em declive,
encontram-se perfeitamente
integradas com o meio ambiente.
Novamente, Costa locou pátios
internos no centro das casas e
dispôs elementos coloniais
(muxarabis e telha canal) ao lado
de elementos modernos (concreto e
pilotis). As casas são discretas
e serenas, com rasgos e janelas,
espontaneamente resolvidos,
sulcados nas sólidas e calmas
paredes brancas.
Como a herança
de Lúcio Costa pode hoje nos ser
útil? É consensual que desde o
final dos anos 60, nossa
arquitetura vem arrastando-se com
poucas referências culturais,
rejeitando o passado,
desrespeitando hábitos, valores
e condições locais. Como já
apontou Ramón Gutiérrez, muitos
profissionais, deslumbrados com
imagens vindas de fora e dotados
de uma visão mecanicista e
individualista, vêem a cidade
apenas como um somatório de
obras individuais, um
"vale-tudo"
arquitetônico no qual predominam
aspectos como consumo, moda,
especulação e exibicionismo
arquitetural.
Uma parcela das
responsabilidades pela formação
deste quadro deve ser creditada
aos equívocos do próprio
modernismo. Mas uma necessária
revisão não deve ser guiada por
um sentimento rancoroso. O
movimento moderno representou uma
importante herança para a
cultura brasileira, contribuindo
para solidificar a identidade de
um país moderno.
Se pensarmos
qual seria a arquitetura para uma
nova sociedade, certamente a
mensagem de Lúcio Costa nos
poderá ser de grande utilidade.
Se ele fosse um jovem arquiteto
hoje, certamente optaria por uma
arquitetura que partisse do
atendimento de certos
necessidades básicas, que usasse
tecnologias e recursos
disponíveis e simples, que
trabalhasse dentro de uma escala
local, que respeitasse valores,
culturas e identidades locais e
que não tivesse estrelismo e
ostentação. Nosso arquiteto
mostrou que a história da
arquitetura deve servir como
referencial neste processo de
valorização da nossa
identidade, mas esta não pode
reduzir-se a um mero receituário
de elementos formais. Lúcio
Costa provou que o estudo e a
reflexão crítica sobre este
patrimônio, pelo qual dedicou
tantos anos de sua vida, são uma
lição para o futuro, pois é
nele que podemos encontrar a
identidade de um povo.
As obras de
Lúcio Costa fazem parte agora de
nosso patrimônio. Temos, então,
o dever de preservar e reforçar
o legado que recebemos.
Fernando Diniz
Moreira é professor do
Departamento de Arquitetura e
Urbanismo da Universidade Federal
de Pernambuco