- - - - - - - -- - - - - - - -- - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 12 de julho de 1998

PERSONALIDADE
Lúcio Costa, modernidade e tradição

por FERNANDO DINIZ MOREIRA

O Brasil perdeu, recentemente, a principal personagem de sua arquitetura do século XX. Lúcio Costa não merece este título apenas por ter sido um dos arquitetos que introduziram os conceitos modernistas na nossa arquitetura, mas sim pelo fato de ter dado a esta um tom nacional, conseguindo articular o projeto das vanguardas com valores da tradição local. Isto fez com que a arquitetura brasileira, entre as décadas de 40 e 60, figurasse com destaque na vanguarda internacional, tornando-se um ícone de nossa cultura e um símbolo da constituição do país enquanto nação moderna.

Nascido em Toulon - França, em 1902, Lúcio Costa foi detentor de uma sólida formação humanista. Antes mesmo de se formar na Escola Nacional de Belas Artes (ENBA), em 1924, já se interessava pelo neocolonial, movimento que, sob os auspícios de José Marianno Filho, procurava, nos anos 20, recuperar a arquitetura colonial luso-brasileira e criar uma identidade nacional para a nossa arquitetura. Assim, empreendeu inúmeras viagens para documentar e estudar a arquitetura colonial em diversos estados do Centro-sul e do Nordeste, tornando-se sensível às obras do passado.

No final da década de 20, ao entrar em contato com o pioneiro modernista Gregori Warchavchik e com as teorias funcionalistas que estavam se desenvolvendo na Europa, através das obras e escritos de Gropius e Le Corbusier, passou a ter dúvidas em relação à coerência do projeto neocolonial e a aderir aos postulados modernistas.

Em 1930, Costa é indicado pelo governo Vargas para ser o novo diretor da ENBA. Enquanto todos esperavam que ele fosse dar continuidade à orientação neocolonial, instituiu um novo programa e contratou novos professores, como Warchavchik, Reidy e Buddeus. Juntos, revolucionaram as formas de ensino, introduzindo um novo vocabulário de sólidos geométricos puros e elementares, novos métodos, problemas e formas de apresentação. A revolução no ensino foi total, causando enorme sucesso entre o alunado, que continha, neste momento, jovens que iriam revolucionar nossa arquitetura, como Oscar Niemeyer, Luiz Nunes, Vital Brazil e os irmãos Milton e Marcelo Roberto. No entanto, a reação acadêmica não tardaria a vir, sobretudo na pessoa de José Marianno Filho, que iniciou uma ferrenha campanha na imprensa visando desmoralizar e depor seu antigo pupilo da direção.

A resposta de Lúcio Costa, emitida com seu reconhecido refinamento, é talvez uma das mais lúcidas interpretações para se entender a especificidade da arquitetura moderna brasileira. Neste artigo, explicou que a sua admiração pela arquitetura luso-brasileira colonial, levou-o a estudá-la com mais profundidade e a compreender seu espírito e sua lógica, a franqueza de seus processos construtivos, a adequação ao clima e a simplicidade. Em suma, descobriu o que ele chamou de "princípios imanentes" daquela arquitetura.

Assim, procurou expor as contradições existentes no movimento neocolonial e mostrar que a arquitetura moderna poderia incorporar estes princípios, tornando-se muito mais apta para responder às necessidades de uma nova época. Embora não tenha conseguido manter Costa à frente da ENBA, esta idéia tornar-se-ia o argumento lógico da arquitetura moderna brasileira, sobretudo, na sua vertente chamada "escola carioca".

A "escola carioca" procurava incorporar nos seus edifícios elementos da tradição colonial, retomadas em uma nova linguagem, como rótulas, venezianas e azulejos de diferentes de cores e padrões, usados para a proteção das fachadas e marcação do caráter não-estrutural de superfícies. Era também marcada pela preocupação com a proteção solar, que terminou por resultar na adoção do brise-soleil, empregado de diversas formas, visando não só a proteção, mas também a plasticidade das fachadas. A acentuação do aspecto plástico do edifício, tão explorada por Niemeyer, foi uma das características mais marcantes desta escola. Seus membros adotavam ainda partidos leves e vazados, com proporções elegantes e equilibradas e recursos modernistas, como o uso do pilotis e a planta livre.

Algumas obras de Lúcio Costa, construídas no Rio de Janeiro, no início da década de 40, como as casas Hungria Machado, Paes de Carvalho e Barão de Saavedra, são exemplos maiores desta síntese entre modernidade e tradição. As casas foram concebidas em função de um jardim para onde se voltam os cômodos principais, conseguindo uma sábia e tranqüila transição interior-exterior. Costa atingiu uma síntese perfeita entre materiais modernos (concreto e vidro) e tradicionais (madeira e pedra). Utilizou vários elementos da arquitetura luso-brasileira como venezianas, muxarabis, azulejos, cobertas em telha canal com largos beirais e varandas contèguas aos dormitórios.

O mesmo argumento repetiu-se no Parque Hotel São Clemente, em Nova Friburgo como pode-se comprovar pela treliça no guarda-corpo do corredor, pelo tradicional telhado de uma água, e pela varanda contínua da fachada principal. Tudo isto está harmoniosamente integrado em dois volumes bem funcionais, que possuem vários princípios modernistas: a planta livre, o jogo de pilotis, o sistema modular, o brise-soleil, o pano de vidro, além da estrutura de concreto armado, brilhantemente associada a uma de madeira. Nesta obra, Lúcio Costa revelou senso de proporção, simplicidade, unidade, além de ter conseguido uma perfeita inserção na paisagem. Esta síntese seria também atingida nos edifícios que projetou para o Parque Guinle, entre 1948 e 1954. Nestes blocos prismáticos puros, claramente influenciados pelos princípios de Le Corbusier, utilizou um cuidadoso jogo de brise-soleil e elementos vazados, que resultou em uma composição ritmada, harmoniosa e equilibrada.

Em meados da década de 80, quando se pensava que Lúcio Costa já havia cessado suas atividades, ele supreendeu-nos, com mais duas casas, uma para sua filha Helena e outra para a amiga Olivia Byington, ambas situadas no bairro da Gávea, no Rio de Janeiro. São amplas residências que, implantadas de forma a respeitar os terrenos em declive, encontram-se perfeitamente integradas com o meio ambiente. Novamente, Costa locou pátios internos no centro das casas e dispôs elementos coloniais (muxarabis e telha canal) ao lado de elementos modernos (concreto e pilotis). As casas são discretas e serenas, com rasgos e janelas, espontaneamente resolvidos, sulcados nas sólidas e calmas paredes brancas.

Como a herança de Lúcio Costa pode hoje nos ser útil? É consensual que desde o final dos anos 60, nossa arquitetura vem arrastando-se com poucas referências culturais, rejeitando o passado, desrespeitando hábitos, valores e condições locais. Como já apontou Ramón Gutiérrez, muitos profissionais, deslumbrados com imagens vindas de fora e dotados de uma visão mecanicista e individualista, vêem a cidade apenas como um somatório de obras individuais, um "vale-tudo" arquitetônico no qual predominam aspectos como consumo, moda, especulação e exibicionismo arquitetural.

Uma parcela das responsabilidades pela formação deste quadro deve ser creditada aos equívocos do próprio modernismo. Mas uma necessária revisão não deve ser guiada por um sentimento rancoroso. O movimento moderno representou uma importante herança para a cultura brasileira, contribuindo para solidificar a identidade de um país moderno.

Se pensarmos qual seria a arquitetura para uma nova sociedade, certamente a mensagem de Lúcio Costa nos poderá ser de grande utilidade. Se ele fosse um jovem arquiteto hoje, certamente optaria por uma arquitetura que partisse do atendimento de certos necessidades básicas, que usasse tecnologias e recursos disponíveis e simples, que trabalhasse dentro de uma escala local, que respeitasse valores, culturas e identidades locais e que não tivesse estrelismo e ostentação. Nosso arquiteto mostrou que a história da arquitetura deve servir como referencial neste processo de valorização da nossa identidade, mas esta não pode reduzir-se a um mero receituário de elementos formais. Lúcio Costa provou que o estudo e a reflexão crítica sobre este patrimônio, pelo qual dedicou tantos anos de sua vida, são uma lição para o futuro, pois é nele que podemos encontrar a identidade de um povo.

As obras de Lúcio Costa fazem parte agora de nosso patrimônio. Temos, então, o dever de preservar e reforçar o legado que recebemos.

Fernando Diniz Moreira é professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pernambuco

 
     

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