JUSTIÇA
Menor
infrator poderá ver o filho
nascerpor CIARA CARVALHO
Daqui a três
meses, E.R.L., 17 anos, vai ser
pai. Além da alegria da chegada
do primeiro filho, o adolescente
tem mais um motivo para
comemorar: embora tenha sido
detido, em flagrante, por assalto
a mão armada, ele vai poder
acompanhar o nascimento do filho
em liberdade. "Basta eu
pensar no dia que passei no
presídio de Paratibe para
agradecer a sorte de estar livre,
sem ser visto ou tratado como um
marginal", comenta,
aliviado. E.R.L. está entre os
cerca de 250 adolescentes
atendidos pelo Programa de
Liberdade Assistida - implantado
pela 2ª Vara da Infância e da
Juventude e que permite ao menor
infrator cumprir a medida em
regime aberto, na companhia dos
seus familiares.
Prevista pelo
Estatuto da Criança e do
Adolescente e aplicada em muitas
capitais brasileiras, a medida de
Liberdade Assistida ganha
características próprias em
Pernambuco. Seu maior diferencial
- a participação de pessoas da
comunidade no trabalho de
orientação dos adolescentes -
é justamente o principal ponto
responsável pelo sucesso do
programa, que hoje é copiado por
vários estados do território
nacional e até por outros
países, como o França e Angola,
por exemplo. "É muito mais
fácil confiar numa pessoa que
conhece a minha realidade de
perto, que não me vê com
preconceito ou descriminação
só porque eu pratiquei algo
errado", confirma o
adolescente E.R.L..
De fato, é na
relação entre o orientador e o
menor assistido que reside parte
da explicação do bom desempenho
do programa desenvolvido em
Pernambuco. As estatísticas da
2ª Vara da Infância e da
Juventude revelam que mais de 90%
dos jovens atendidos pela
Liberdade Assistida não voltam a
cometer novas infrações.
"Por ser uma pessoa da
comunidade, o orientador tem
condições de avaliar e
acompanhar todas as ações do
menor e sugerir, com rapidez, as
mudanças necessárias para
aprimoramento da medida",
explica o juiz titular da 2ª
Vara, Luiz Carlos Figueiredo.
A escolha do
orientador é feita observando o
perfil do menor e o bairro onde o
adolescente reside. "Temos
mais de 100 entidades conveniadas
ao Juizado, entre associações
de moradores, clubes de mãe e
grupos que trabalham com
crianças e adolescentes. São
desses núcleos que saem os
orientadores dos jovens",
explica a assistente social da
Vara da Infância e da Juventude,
Márcia Soares. A parceria parece
que tem dado certo. O juiz Luiz
Carlos Figueiredo ressalta que,
em quatro anos de implantação
da Liberdade Assistida, apenas
uma entidade foi descredenciada
do programa.
Um dos grupos
mais atuantes no trabalho de
articulação entre o juizado e
as associações comunitárias é
o Retome Sua Vida. Junto com o
Fecope e o Mirim Brasil, a
entidade faz o encaminhamento dos
menores, de acordo com a
localização e o tipo de
trabalho desenvolvido pelos
grupos e associações
comunitárias. "Quando o
juiz decreta a sentença de
Liberdade Assistida, nós
identificamos o perfil do menor e
sugerimos a entidade que possa
oferecer o melhor acompanhamento
para o adolescente", explica
Luciana Santos, uma das
orientadores do Retome Sua Vida.
NOVA FASE -
Os méritos e resultados obtidos
pelo programa têm ajudado a
conquistar novos espaços para
aplicação da medida. A
Fundação da Criança e do
Adolescente (Fundac) está
promovendo, em parceria com a 2ª
Vara da Infância e da Juventude,
um treinamento nas cidades pólos
do Interior para que o programa
de Liberdade Assistida possa ser
aplicado em todo Estado. "A
Fundac descobriu que, além de
ser muito mais caro, não tem
sentido encaminhar o menor para
Paratibe, em Paulista, onde o
adolescente fica longe da
família e quase sempre não
consegue se recuperar",
observa Luiz Carlos Figueiredo.
No interior, o
treinamento já foi realizado nas
cidades de Pesqueira e Carpina e,
na Região Metropolitana do
Recife, em Olinda. O último
município a participar da
capacitação foi Palmares.
"A nossa intenção é
mostrar que a medida é a
alternativa mais eficiente para
ressocialização de adolescentes
que cometeram infrações mais
leves, como o porte de drogas e o
assalto. Isso sempre esteve
escrito nos livros que tratam do
problema do menor e, finalmente,
faz parte da realidade de
Pernambuco", destaca