- - - - - - - -- - - - - - - -- - - - -- - - ---Jornal do Commercio - Recife, 12 de julho de 1998

JUSTIÇA II

Papel do orientador é essencial para programa

Eles não ganham nenhum salário e chegam a pagar para trabalhar. Fazem as vezes de amigo, professor e até de pai e de mãe, se a necessidade exigir. No papel de orientador, contabilizam parte dos méritos obtidos pelo Programa de Liberdade Assistida, mas também, precisam aprender a administrar frustrações, resistências e perdas. No caso da dona de casa Verônica Maria da Silva, orientadora do Grupo Semente do Amanhã, a tarefa inclui também conviver com os ciúmes dos dois filhos, que nem sempre aceitam, com bom olhos, ver a atenção da mãe ser dividida com outro adolescente.

Verônica hoje acompanha o menor E.R.L., um trabalho que tem lhe trazido muitas alegrias. "Ele vem se esforçando para cumprir todas as exigências feitas pelo juiz. Além disso, E.R. tem recebido o apoio da família, o que facilita muito o meu trabalho. Quanto mais desestruturada for a relação dentro de casa, mais difícil é a recuperação do menor", observa, lembrando que o único entrave para o cumprimento total da medida é o fato do adolescente não estar trabalhando. "Essa é uma das grandes dificuldades do programa. Sem oportunidade de trabalho, o menor fica mais vulnerável para praticar novas infrações", avalia.

Com a experiência de quase quatro anos na função de orientadora, Verônica nem sempre viu seu esforço e dedicação recompensados. Antes de E.R.L., ela acompanhava um adolescente que foi assassinado durante o cumprimento da medida sócio-educativa. "Na época, eu fiquei arrasada, achando que não havia sentido em continuar com esse trabalho. Eu passei quase um ano tentando manter o menor afastado da delinqüência, mas ele terminou morrendo, provavelmente, por envolvimento com drogas. Foi uma baque muito grande para mim", recorda a orientadora.

Verônica diz que chegou a se sentir culpada, achando que deveria ter levado o menor para sua casa, uma vez que ele não tinha nenhum apoio familiar. "Com o tempo, eu percebi que esse não era o meu papel. O que eu podia fazer por ele, eu fiz", tranqüiliza-se. Ela diz que, em situações como essa, o orientador precisa ter bem definido até onde vão suas responsabilidades com o menor. "Essa confusão pode acontecer, principalmente, quando o adolescente encontra na gente a sua única referência familiar. É preciso saber administrar essa carência, inclusive do nosso lado", observa.

LAÇOS - A dificuldade enfrentada pela orientadora do Grupo Semente do Amanhã ronda a vida de todos os orientadores engajados no Programa de Liberdade Assistida. "Durante o acompanhamento da medida, cria-se um laço de família muito forte. De certa forma, é como se fosse um filho seu, que você tenta ajudar, mas nem sempre dá certo. Existe um interesse do menor muito grande em se recuperar, mas são tantas as dificuldades que, muitas vezes, esse esforço não é suficiente", comenta o orientador do Grupo Mirim Brasil, Nivaldo Pereira. Segundo ele, a falta de trabalho e a resistência para voltar a estudar são alguns dos principais obstáculos para o cumprimento da medida.

No momento, ele orienta o adolescente D.A.S., 17 anos, que já teve várias passagens pelo Centro de Ressocialização de Paratibe. "A gente precisa ter muita convicção para não desistir diante das dificuldades. O menor que eu acompanho, por exemplo, não voltou a delinqüir, mas ainda resiste em tirar um simples documento que vai ajudá-lo a conseguir um emprego", explica. Nivaldo garante que, apesar de todos os questionamentos que povoam a mente do orientador, o trabalho tem suas compensações. "O mais importante é saber que você acreditou e contribuiu para que a chance dada ao adolescente fosse direcionada da melhor maneira possível", avalia.


     

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