JUSTIÇA II
Papel
do orientador é essencial para
programaEles não ganham nenhum
salário e chegam a pagar para
trabalhar. Fazem as vezes de
amigo, professor e até de pai e
de mãe, se a necessidade exigir.
No papel de orientador,
contabilizam parte dos méritos
obtidos pelo Programa de
Liberdade Assistida, mas também,
precisam aprender a administrar
frustrações, resistências e
perdas. No caso da dona de casa
Verônica Maria da Silva,
orientadora do Grupo Semente do
Amanhã, a tarefa inclui também
conviver com os ciúmes dos dois
filhos, que nem sempre aceitam,
com bom olhos, ver a atenção da
mãe ser dividida com outro
adolescente.
Verônica hoje
acompanha o menor E.R.L., um
trabalho que tem lhe trazido
muitas alegrias. "Ele vem se
esforçando para cumprir todas as
exigências feitas pelo juiz.
Além disso, E.R. tem recebido o
apoio da família, o que facilita
muito o meu trabalho. Quanto mais
desestruturada for a relação
dentro de casa, mais difícil é
a recuperação do menor",
observa, lembrando que o único
entrave para o cumprimento total
da medida é o fato do
adolescente não estar
trabalhando. "Essa é uma
das grandes dificuldades do
programa. Sem oportunidade de
trabalho, o menor fica mais
vulnerável para praticar novas
infrações", avalia.
Com a
experiência de quase quatro anos
na função de orientadora,
Verônica nem sempre viu seu
esforço e dedicação
recompensados. Antes de E.R.L.,
ela acompanhava um adolescente
que foi assassinado durante o
cumprimento da medida
sócio-educativa. "Na
época, eu fiquei arrasada,
achando que não havia sentido em
continuar com esse trabalho. Eu
passei quase um ano tentando
manter o menor afastado da
delinqüência, mas ele terminou
morrendo, provavelmente, por
envolvimento com drogas. Foi uma
baque muito grande para
mim", recorda a orientadora.
Verônica diz
que chegou a se sentir culpada,
achando que deveria ter levado o
menor para sua casa, uma vez que
ele não tinha nenhum apoio
familiar. "Com o tempo, eu
percebi que esse não era o meu
papel. O que eu podia fazer por
ele, eu fiz",
tranqüiliza-se. Ela diz que, em
situações como essa, o
orientador precisa ter bem
definido até onde vão suas
responsabilidades com o menor.
"Essa confusão pode
acontecer, principalmente, quando
o adolescente encontra na gente a
sua única referência familiar.
É preciso saber administrar essa
carência, inclusive do nosso
lado", observa.
LAÇOS -
A dificuldade enfrentada pela
orientadora do Grupo Semente do
Amanhã ronda a vida de todos os
orientadores engajados no
Programa de Liberdade Assistida.
"Durante o acompanhamento da
medida, cria-se um laço de
família muito forte. De certa
forma, é como se fosse um filho
seu, que você tenta ajudar, mas
nem sempre dá certo. Existe um
interesse do menor muito grande
em se recuperar, mas são tantas
as dificuldades que, muitas
vezes, esse esforço não é
suficiente", comenta o
orientador do Grupo Mirim Brasil,
Nivaldo Pereira. Segundo ele, a
falta de trabalho e a
resistência para voltar a
estudar são alguns dos
principais obstáculos para o
cumprimento da medida.
No momento, ele
orienta o adolescente D.A.S., 17
anos, que já teve várias
passagens pelo Centro de
Ressocialização de Paratibe.
"A gente precisa ter muita
convicção para não desistir
diante das dificuldades. O menor
que eu acompanho, por exemplo,
não voltou a delinqüir, mas
ainda resiste em tirar um simples
documento que vai ajudá-lo a
conseguir um emprego",
explica. Nivaldo garante que,
apesar de todos os
questionamentos que povoam a
mente do orientador, o trabalho
tem suas compensações. "O
mais importante é saber que
você acreditou e contribuiu para
que a chance dada ao adolescente
fosse direcionada da melhor
maneira possível", avalia.