JUSTIÇA III
Acusado
da morte de pataxó passou seis
meses no RecifeReferência em todo o
Brasil, o Programa de Liberdade
Assistida de Pernambuco recebeu,
há cerca de dois meses, um
adolescente envolvido num dos
crimes mais chocantes ocorridos
no país. O menor G.N.A.J., 17
anos, acusado da morte do índio
pataxó Galdino Jesus dos Santos,
queimado vivo enquanto dormia
numa parada de ônibus, em
Brasília, passou quase seis
meses no Recife, cumprindo a
medida de Liberdade Assistida
decretada pelo Tribunal de
Justiça do Distrito Federal.
A estadia do
menor por Pernambuco foi
polêmica. Nos relatórios da
equipe técnica, responsável
pelo acompanhamento do
adolescente, ficou registrado
que, embora tivesse cumprido a
sentença do ponto de vista
formal, G.N.A.J. não se mostrou
arrependido da infração
cometida. A Justiça pernambucana
chegou a prorrogar a sentença
por mais seis meses e modificou a
medida de liberdade assistida
para serviços prestados à
comunidade. A decisão, no
entanto, não foi aceita pelo
Tribunal de Justiça do Distrito
Federal, que determinou a
devolução imediata do menor,
independente do término do
cumprimento da medida.
Embora tenha se
mantido afastado da repercussão
causada pela passagem do menor
pelo Recife, o orientador Manoel
Carlos dos Santos, do Grupo Mirim
Brasil, foi uma das pessoas mais
envolvidas com o caso. Coube a
ele a tarefa de acompanhar todas
as atividades do adolescente e
informar sobre o comportamento do
menor, durante o período de
aplicação da medida. "Foi
um momento difícil para mim
porque, no início, eu não sabia
muito bem que tipo de metodologia
deveria utilizar com o garoto.
Como ele tinha um perfil
diferente de outros adolescentes
que eu já havia trabalhado, eu
precisei me adequar à sua
realidade para conseguir me
aproximar do garoto", afirma
Manoel.
O caminho
encontrado pelo orientador foi o
de trabalhar em cima de conceitos
como a valorização da vida e o
respeito pelo cidadão. "Eu
tentei mostrar que os mendigos e
os índios devem ser tratados com
a mesma dignidade e respeito que
pessoas de classe média alta
como ele". Apesar do
esforço, Manoel diz que, em
algumas conversas, o adolescente
continuava afirmando que a morte
do pataxó tinha sido apenas uma
fatalidade. "Talvez se ele
tivesse cumprido a medida de
serviços prestados à
comunidade, como foi sugerido
pela Justiça de Pernambuco, hoje
sua avaliação sobre o crime
fosse diferente", defende.