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CURTO E
GROSSO
José
Teles
Alô
infantes de la patrie, olha o
excesso de otimismo!
Nelson
Rodrigues cunhou a frase
antológica: "A seleção é
a pátria de chuteiras". Só
que é muito mais que isto, é o
maior, se brincar, único, agente
de integração nacional. Todo
mundo se irmana, ninguém quer
esganar ninguém por causa da
seleção, as famílias nunca
estão mais unidas quanto nestes
jogos do escrete brasileiro.
Inclusive, para intensificar esta
união, acho que as autoridades
constituídas deveriam dar umas
aulas sobre jogo de bola pela TV,
sobretudo dirigidas para as
mulheres. Não tem nada a ver com
machismo, minha senhora, mas é
fato: a grande maioria do
mulherio só se liga no viril
esporte bretão em época de Copa
do Mundo. Até aí nada demais,
porque o que vos fala, há um bom
tempo, não se liga em futebol
nem em mundiais.
O problema é
que algumas moças não somente
passam a se interessar pelos
jogos como a querer dar pitaco,
julgam-se entendidas nas regras.
Um amigo contava que foi assistir
a Brasil e Holanda na casa de
amigos dele e, não fosse a boa
educação doméstica recebida,
teria retirado-se mais cedo. É
que a dona da casa era daquelas
que fosse alguma vez no estádio
iria perguntar quem era a bola
(aí também coisa de Nelson
Rodrigues, esta da bola), então
veio a Copa e ela passou a
discutir tática, duvidar de
impedimento, falar sem parar
durante as transmissões. Meu
colega disse que quase manda a
mulher fechar a matraca durante
um ataque em que Ronaldinho
perdeu mais um daqueles gols que
só ele sabe desperdiçar. A
mulher explodiu: "Assim,
Ronaldinho num pode dar o gol,
estes de vermelho ficam empatando
ele o tempo inteiro!". O
marido lançou-lhe um olhar
fulminante, e falou entredentes
(o entredentes não sei se
existiu, mas é legal para dar
mais vida à cena:
"Môzinho, tu queria que o
adversário ajudasse os da gente
a fazer o gol era? E a camiseta
deles não é vermelha não, é
laranja!!!" Mas tô a
tergiversar, arriscando-me
inclusive a jogar a laboriosa
classe feminina contra mim (e no
mau sentindo). Tô assim meio
cabreiro com o otimismo exagerado
que grassou a nação depois da
vitória suada (e bota suor
nisto) contra os holandeses.
Brasileiro é dado a estes
arroubos. Quando não tem
seleção ele é, novamente me
valendo de Nelson Rodrigues,
"um narciso às avessas,
cuspindo na própria
imagem". Basta umas
vitoriazinhas mixurucas e já
acha que a gente é o melhor em
tudo. Eu tava na cidade, sob uma
marquise, resguardando-me de uma
chuvinha fina e chata. Ao meu
lado dois caras, ofereciam
passes, vale-transporte e Sonho
de Valsa (não dá pra entender a
relação entre as mercadorias) e
comentavam sobre a Copa:
"Pra mim a final foi contra
a Holanda. Domingo é só pra
pegar o caneco e lá, no
chiqueiro dos otário dos
francês. Aquilo é time? O
craquão deles chama
Liliam num sei
o quê. Liliam, na minha terra,
pode saber é dançar balé. Tá
vendo tu?", dizia um para o
outro, que concordava, feito
calango, balançando a cabeça.
Acho que a gente pode ganhar, mas
sem esta de se supor melhores que
os franceses. Eles têm mais tipo
de queijos,o pão francês
legítimo, mais filósofos, tem
Michel Legrand, Godard, têm o
Alons enfant de la patrie, que é
bem mais bonito do que o nosso
Ouvirudum. E mais:omaior
artilheiro de
todas as copas
foi francês, se tão na final é
porque venceram os adversários.
E esta fama de ojeriza abanhos
que, dizem, eles têm, pode até
ser verdade, mas viaje a senhora
em qualquer ônibus de subúrbio
lotado, e irá comprovar, pela
inhaca reinante no coletivo, que
em banhos estamos quase empatados
com o pessoal da França. Deve
ser a tal da globalização.
Por fim, mas
não menos importante. Quem tiver
e-mail que mande quantas
mensagens quiser para a comissão
técnica, proibindo Zico de
ensinar os jogadores a cobrar
pênaltis. Sem querer ser
quizilento, em 86 a canarinha
voltou pra casa sem a taça
porque o galinho dos quintos
perdeu um pênalti.
E a senhora
lembra o adversário? A França.
Portanto, todo cuidado é pouco
com os conselhos de Zico e com a
equipe dos Alô infante de la
patrie.
E-mail:
teles@jc.com.br
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