-- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 12 de julho de 1998


CURTO E GROSSO
José Teles

Alô infantes de la patrie, olha o excesso de otimismo!

Nelson Rodrigues cunhou a frase antológica: "A seleção é a pátria de chuteiras". Só que é muito mais que isto, é o maior, se brincar, único, agente de integração nacional. Todo mundo se irmana, ninguém quer esganar ninguém por causa da seleção, as famílias nunca estão mais unidas quanto nestes jogos do escrete brasileiro. Inclusive, para intensificar esta união, acho que as autoridades constituídas deveriam dar umas aulas sobre jogo de bola pela TV, sobretudo dirigidas para as mulheres. Não tem nada a ver com machismo, minha senhora, mas é fato: a grande maioria do mulherio só se liga no viril esporte bretão em época de Copa do Mundo. Até aí nada demais, porque o que vos fala, há um bom tempo, não se liga em futebol nem em mundiais.

O problema é que algumas moças não somente passam a se interessar pelos jogos como a querer dar pitaco, julgam-se entendidas nas regras. Um amigo contava que foi assistir a Brasil e Holanda na casa de amigos dele e, não fosse a boa educação doméstica recebida, teria retirado-se mais cedo. É que a dona da casa era daquelas que fosse alguma vez no estádio iria perguntar quem era a bola (aí também coisa de Nelson Rodrigues, esta da bola), então veio a Copa e ela passou a discutir tática, duvidar de impedimento, falar sem parar durante as transmissões. Meu colega disse que quase manda a mulher fechar a matraca durante um ataque em que Ronaldinho perdeu mais um daqueles gols que só ele sabe desperdiçar. A mulher explodiu: "Assim, Ronaldinho num pode dar o gol, estes de vermelho ficam empatando ele o tempo inteiro!". O marido lançou-lhe um olhar fulminante, e falou entredentes (o entredentes não sei se existiu, mas é legal para dar mais vida à cena: "Môzinho, tu queria que o adversário ajudasse os da gente a fazer o gol era? E a camiseta deles não é vermelha não, é laranja!!!" Mas tô a tergiversar, arriscando-me inclusive a jogar a laboriosa classe feminina contra mim (e no mau sentindo). Tô assim meio cabreiro com o otimismo exagerado que grassou a nação depois da vitória suada (e bota suor nisto) contra os holandeses. Brasileiro é dado a estes arroubos. Quando não tem seleção ele é, novamente me valendo de Nelson Rodrigues, "um narciso às avessas, cuspindo na própria imagem". Basta umas vitoriazinhas mixurucas e já acha que a gente é o melhor em tudo. Eu tava na cidade, sob uma marquise, resguardando-me de uma chuvinha fina e chata. Ao meu lado dois caras, ofereciam passes, vale-transporte e Sonho de Valsa (não dá pra entender a relação entre as mercadorias) e comentavam sobre a Copa: "Pra mim a final foi contra a Holanda. Domingo é só pra pegar o caneco e lá, no chiqueiro dos otário dos francês. Aquilo é time? O craquão deles chama

Liliam num sei o quê. Liliam, na minha terra, pode saber é dançar balé. Tá vendo tu?", dizia um para o outro, que concordava, feito calango, balançando a cabeça. Acho que a gente pode ganhar, mas sem esta de se supor melhores que os franceses. Eles têm mais tipo de queijos,o pão francês legítimo, mais filósofos, tem Michel Legrand, Godard, têm o Alons enfant de la patrie, que é bem mais bonito do que o nosso Ouvirudum. E mais:omaior artilheiro de

todas as copas foi francês, se tão na final é porque venceram os adversários. E esta fama de ojeriza abanhos que, dizem, eles têm, pode até ser verdade, mas viaje a senhora em qualquer ônibus de subúrbio lotado, e irá comprovar, pela inhaca reinante no coletivo, que em banhos estamos quase empatados com o pessoal da França. Deve ser a tal da globalização.

Por fim, mas não menos importante. Quem tiver e-mail que mande quantas mensagens quiser para a comissão técnica, proibindo Zico de ensinar os jogadores a cobrar pênaltis. Sem querer ser quizilento, em 86 a canarinha voltou pra casa sem a taça porque o galinho dos quintos perdeu um pênalti.

E a senhora lembra o adversário? A França. Portanto, todo cuidado é pouco com os conselhos de Zico e com a equipe dos Alô infante de la patrie.

E-mail: teles@jc.com.br

 
 

 

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