- - - -- - - -- - - - - - - -- - - - - - - - --Jornal do Commercio - Recife, 12 de julho de 1998

SELA
Impacto do euro na AL será gradual

CARACAS - O surgimento do euro como moeda coletiva da União Européia (UE), o segundo sócio comercial da América Latina e Caribe, terá um impacto gradual sobre a região. É o que revela um estudo divulgado pelo Sistema Econômico Latino-Americano (Sela). A região pertence à chamada economia do dólar, a moeda que domina mais de 60% das reservas mundiais, 80% dos empréstimos bancários e 40% das emissões em bônus.

O Sela analisou que quando entrar em funcionamento o euro como moeda única de onze dos 15 membros da UE, no primeiro dia de 1999, o sistema monetário internacional passará a contar com dois grandes "jogadores" capazes de "mudar as regras do jogo". Contudo, no caso dos países latino-americanos e caribenhos, o estudo assegura que o impacto será gradual porque a moeda européia incidirá na recomposição das reservas e operações comerciais e financeiras "na medida que se consolide no sistema internacional".

A libra esterlina, inicialmente, não participará do euro, entre as moedas com grande peso no sistema financeiro, mas estará presente o marco alemão, que ocupa o segundo lugar, com 14,1% das reservas internacionais, segundo números de maio. Peter Bekx, chefe da Unidade da União Monetária e seus Aspectos Internacionais da Comissão Européia, órgão executivo da UE, disse que a partir de 1999 emergirá na prática um sistema tripartite nas finanças mundiais com a tríade dólar-euro-iene.

A União Européia tem uma balança comercial com a região de US$ 70 bilhões de dólares anuais, com um déficit para a América Latina de US$ 10 bilhões, enquanto seus investidores na região representam 23% do total, segundo números do Sela.

Para o consultor venezuelano Nelson Ortiz, que participou dos estudos do Sela, o gradualismo na região virá pelo fato de o processo da moeda única européia ser paulatino e culminar em 2002. Para ele, contudo, no curto prazo as conseqüências para a região serão ambíguas, porque se entrelaçarão efeitos negativos e positivos, mas que a médio e longo prazo esses efeitos serão bastante positivos, embora não seja mais que pela existência de dois grandes atores monetários e nem somente de um.

IMPLICAÇÕES - Entre as muitas implicações do euro na região, o estudo do Sistema Econômico Latino-Americano ressalta o impacto sobre a dívida externa. Caso o refinanciamento dos compromissos esteja baseado na taxa Libor de Londres, os efeitos não serão sentidos a curto prazo. Mas os países que se atenham à taxa Pibor, a interbancária de Paris, terão variações, de acordo com a taxa de câmbio do franco francês em relação ao euro. Calcula-se que desde os primeiros meses do próximo ano, o euro absorverá de 30% a 35% dos empréstimos contraídos mundialmente.

Além disso, o euro impulsionará o mercado de capitais europeus e graças à redução dos custos de operação, o mercado de eurobônus e de ações concorrerá rapidamente com o dos Estados Unidos, assegura ainda o estudo divulgado pela Secretaria Permanente do Sela.

Paradoxalmente, com a chegada da moeda única prevê-se que Londres se converterá no grande centro financeiro para a transação e colocação de eurobônus, porque a Grã-Bretanha manejará suas contas externas em euros, embora a libra não participe na moeda européia. A euro também passará a atuar no mercado de futuros, até agora feudo exclusivo do dólar, e se converterá em uma das grandes moedas de reserva.


     

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