-- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 12 de julho de 1998

Ecossistema frágil e agredido

Localização costeira traz riscos à Região Metropolitana do Recife. É o título de reportagem nas páginas de Ciência e Meio Ambiente deste Jornal do Commercio, produzida pela repórter Verônica Falcão. O ecossistema da região é frágil e sofre agressão sistemática do homem. A conseqüência disso é o agravamento das inundações devido a aterros de mangues, braços de rios, lagoas, impossibilitando o escoamento e absorção das águas. A Ilha do Retiro deixou de ser ilha há muito tempo; a do Leite também. Os rios se tornaram esgotos a céu aberto. Os canais são obstruídos por lixo. O solo pouco consistente do Recife e arredores, aliado a seu mau uso, é atacado por deslizamentos que provocam tragédias e mais miséria. Temos chamado a atenção de nossos leitores para isso.

A reportagem deste jornal trata, além desses problemas, de outro, talvez mais grave (se é possível), que já tem sido levantado em outras oportunidades sem despertar a atenção das autoridades e da população. Pesquisadores afirmam que o Recife cresceu ocupando o espaço das águas. Não havia uma nítida demarcação entre o mar, o estuário dos rios. Os recifes não tinham a altura que lhes foi acrescentada depois e o mar ora regredia, ora avançava pela planície aluvial que termina nos morros do que hoje é Olinda, é Casa Amarela etc. Para o poeta Carlos Pena Filho, a cidade é "metade roubada ao mar, metade à imaginação". Talvez a imaginação tenha ido longe demais, desrespeitando a natureza.

A professora Margareth Alheiros, da UFPE, faz mais um alerta, advertindo que toda a área da RMR é sujeita a afundamento de terrenos, erosão etc. Construtoras, imobiliárias, governos municipais e estadual, Fidem, deveriam levar em consideração a advertência da pesquisadora, que não é a primeira cientista a levantar a questão. As alterações feitas pelo homem no meio ambiente só fazem agravar a situação. Antigos mangues e pântanos (caso da atual Avenida Agamenon Magalhães) afundam mais facilmente com a sobrecarga de aterros e edificações.

Situa-se nesse contexto de transgressão das leis naturais e desequilíbrio ecológico, a ocupação indiscriminada de terrenos à beira-mar e beira-rio, cuja vegetação deveria servir de proteção natural contra caprichos das águas e maior fragilização do solo. O Recife e quase todas as áreas costeiras e praias de Pernambuco são vítimas da incúria humana nesse ponto. E, infelizmente, não há nenhum indício de que essa mentalidade vai mudar para melhor. Construções de casas e estradas continuam sendo executadas demasiado próximas às praias, com a aprovação dos poderes públicos. Sem falar em aterros e destruição de manguezais e da flora nativa.

Na mesma edição do JC em que foi divulgado o trabalho da professora Margareth Alheiros, a repórter Margarette Andrea escreve extensa reportagem sobre a controvérsia envolvendo o Coqueiral de Olinda, a Vila Naval de Santo Amaro, Marinha, Governo do Estado etc. Desde os anos 80, implantou-se, na área vizinha à Ilha do Maruim, um coqueiral que dá vida a um bairro pobre e um bom exemplo de preservação da flora das nossas praias. Não houve manutenção. A Prefeitura de Olinda descuidou-se. Muitos coqueiros mirraram ou foram destruídos por incêndios. Mas o projeto prosseguia e, com um pouco de boa vontade, poderia conhecer melhores dias. Ali foi implantada uma turbina eólica pela UFPE, que agora não pode ser ampliada porque a Marinha tem outro projeto para a área: transferir para ali a Vila Naval de Santo Amaro. Mais um projeto de construção onde não se pode, ou pelo menos não se deve, construir.

Será que numa época de contenção de despesas, de suposta busca de equilíbrio orçamentário, os soldados da Marinha não poderiam, como qualquer brasileiro, alugar ou comprar suas casas? Além do mais, há um convênio entre a Marinha e o Governo do Estado, que não prevê a construção de residências ali. Ao contrário, a área se destinaria ao reflorestamento e à pesquisa e geração de energia eólica. Nossa gloriosa Marinha de Guerra, que tem tantas contribuições ao nosso progresso como país independente, inclusive no campo da pesquisa científica e da preservação do equilíbrio ecológico, bem que poderia acrescentar mais um motivo de veneração popular à sua história, desistindo desse projeto imobiliário (o Estado ou a PCR poderiam ceder-lhe outro terreno) e apoiando o projeto científico de energia eólica.

 
 

 

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