Ecossistema frágil e agredidoLocalização costeira
traz riscos à Região
Metropolitana do Recife. É o
título de reportagem nas
páginas de Ciência e Meio
Ambiente deste Jornal do
Commercio, produzida pela
repórter Verônica Falcão. O
ecossistema da região é frágil
e sofre agressão sistemática do
homem. A conseqüência disso é
o agravamento das inundações
devido a aterros de mangues,
braços de rios, lagoas,
impossibilitando o escoamento e
absorção das águas. A Ilha do
Retiro deixou de ser ilha há
muito tempo; a do Leite também.
Os rios se tornaram esgotos a
céu aberto. Os canais são
obstruídos por lixo. O solo
pouco consistente do Recife e
arredores, aliado a seu mau uso,
é atacado por deslizamentos que
provocam tragédias e mais
miséria. Temos chamado a
atenção de nossos leitores para
isso.
A reportagem
deste jornal trata, além desses
problemas, de outro, talvez mais
grave (se é possível), que já
tem sido levantado em outras
oportunidades sem despertar a
atenção das autoridades e da
população. Pesquisadores
afirmam que o Recife cresceu
ocupando o espaço das águas.
Não havia uma nítida
demarcação entre o mar, o
estuário dos rios. Os recifes
não tinham a altura que lhes foi
acrescentada depois e o mar ora
regredia, ora avançava pela
planície aluvial que termina nos
morros do que hoje é Olinda, é
Casa Amarela etc. Para o poeta
Carlos Pena Filho, a cidade é
"metade roubada ao mar,
metade à imaginação".
Talvez a imaginação tenha ido
longe demais, desrespeitando a
natureza.
A professora
Margareth Alheiros, da UFPE, faz
mais um alerta, advertindo que
toda a área da RMR é sujeita a
afundamento de terrenos, erosão
etc. Construtoras, imobiliárias,
governos municipais e estadual,
Fidem, deveriam levar em
consideração a advertência da
pesquisadora, que não é a
primeira cientista a levantar a
questão. As alterações feitas
pelo homem no meio ambiente só
fazem agravar a situação.
Antigos mangues e pântanos (caso
da atual Avenida Agamenon
Magalhães) afundam mais
facilmente com a sobrecarga de
aterros e edificações.
Situa-se nesse
contexto de transgressão das
leis naturais e desequilíbrio
ecológico, a ocupação
indiscriminada de terrenos à
beira-mar e beira-rio, cuja
vegetação deveria servir de
proteção natural contra
caprichos das águas e maior
fragilização do solo. O Recife
e quase todas as áreas costeiras
e praias de Pernambuco são
vítimas da incúria humana nesse
ponto. E, infelizmente, não há
nenhum indício de que essa
mentalidade vai mudar para
melhor. Construções de casas e
estradas continuam sendo
executadas demasiado próximas
às praias, com a aprovação dos
poderes públicos. Sem falar em
aterros e destruição de
manguezais e da flora nativa.
Na mesma
edição do JC em que foi
divulgado o trabalho da
professora Margareth Alheiros, a
repórter Margarette Andrea
escreve extensa reportagem sobre
a controvérsia envolvendo o
Coqueiral de Olinda, a Vila Naval
de Santo Amaro, Marinha, Governo
do Estado etc. Desde os anos 80,
implantou-se, na área vizinha à
Ilha do Maruim, um coqueiral que
dá vida a um bairro pobre e um
bom exemplo de preservação da
flora das nossas praias. Não
houve manutenção. A Prefeitura
de Olinda descuidou-se. Muitos
coqueiros mirraram ou foram
destruídos por incêndios. Mas o
projeto prosseguia e, com um
pouco de boa vontade, poderia
conhecer melhores dias. Ali foi
implantada uma turbina eólica
pela UFPE, que agora não pode
ser ampliada porque a Marinha tem
outro projeto para a área:
transferir para ali a Vila Naval
de Santo Amaro. Mais um projeto
de construção onde não se
pode, ou pelo menos não se deve,
construir.
Será que numa
época de contenção de
despesas, de suposta busca de
equilíbrio orçamentário, os
soldados da Marinha não
poderiam, como qualquer
brasileiro, alugar ou comprar
suas casas? Além do mais, há um
convênio entre a Marinha e o
Governo do Estado, que não
prevê a construção de
residências ali. Ao contrário,
a área se destinaria ao
reflorestamento e à pesquisa e
geração de energia eólica.
Nossa gloriosa Marinha de Guerra,
que tem tantas contribuições ao
nosso progresso como país
independente, inclusive no campo
da pesquisa científica e da
preservação do equilíbrio
ecológico, bem que poderia
acrescentar mais um motivo de
veneração popular à sua
história, desistindo desse
projeto imobiliário (o Estado ou
a PCR poderiam ceder-lhe outro
terreno) e apoiando o projeto
científico de energia eólica.