ÉLIO
GÁSPARI
A
baderna da UFRJ começou no
Palácio do Planalto
FHH e o
ministro da Educação, Paulo
Renato Souza, fabricaram a crise
da Universidade Federal do Rio de
Janeiro. Fizeram isso de forma
tão canhestra que deixaram as
impressões digitais na arma que
abateu o professor Aloísio
Teixeira. Logo as de FFHH, que
toma banho de luvas.
Provocaram uma
situação que desembocou numa
sucessão de protestos de
professores (cinco dos seis
decanos, 40 dos 47 institutos) e
na invasão, por alunos e
funcionários, de diversos
prédios da universidade,
inclusive a reitoria.
O professor
Aloísio Teixeira não foi
escolhido reitor porque FFHH o
detesta. Ele está na UFRJ desde
1979, é professor de economia e,
salvo nos períodos em que ocupou
cargos públicos, como a
secretaria-geral do Ministério
da Previdência, não houve
semana em que deixasse de dar
aula. Isso por mais de 15 anos.
Foi um dos
melhores amigos do ministro
Renato Archer, que era um dos
melhores amigos de Ulysses
Guimarães, que, por sua vez,
reunia os melhores amigos naquilo
que se conheceu como "turma
do poire". O senador
Fernando Henrique Cardoso não
era da turma, nem amigo de
Ulysses, muito menos de Archer.
Era um periférico.
O ministro
Paulo Renato também não gosta
do professor. Reclama de seus
ataques ao Governo. Num deles,
Teixeira disse que a política de
FFHH está causando mais danos
às universidades que a da
ditadura militar. Na primeira
semana de maio, chegaram a
Brasília os nomes dos dois reais
candidatos à vaga de reitor.
O primeiro da
lista era Teixeira. O segundo,
José Henrique Vilhena, do
Instituto de Filosofia. Aloísio
Teixeira tivera o voto de 62
integrantes do Colégio
Eleitoral, composto pelos
conselhos da universidade e
integrado por professores.
Antes disso,
ganhara 42% das preferências
entre docentes, funcionários e
alunos. (38% entre os
professores.) José Henrique
Vilhena recebera 31 votos no
Colégio Eleitoral e tivera 11%
das preferências. (14% junto aos
professores.) No dia em que a
lista chegou a Brasília, FFHH e
o professor Paulo Renato poderiam
ter feito a coisa mais simples:
nomeavam Vilhena e mandavam
Aloísio Teixeira passear.
Haveria
choradeira, mas a escolha de
reitores a partir das listas das
universidades é um direito
legítimo e indiscutível do
presidente da República. Não
queriam nomeá-lo, mas resolveram
driblar a sombra. Cozinharam o
assunto e mandaram uma mensagem
ao Rio, convidando Vilhena a
somar apoios que fortalecessem
sua possível escolha. Tratava-se
de cortar a cabeça de Teixeira
com a faca dos outros.
No dia 2, o
ministro Paulo Renato chamou
Teixeira para um almoço, em
Porto Alegre. Conversaram sobre
culinária (a diferença entre a
carne da galinha e a do pato),
viram o Brasil x Dinamarca.
Quando foram ao assunto, Paulo
Renato disse que o placar da
disputa estivera em 7x3 para
Vilhena, mas tinha virado para
6x4 a seu favor. Teixeira
acreditou.
No sábado o
ministro telefonou-lhe, sugerindo
que procurasse quatro professores
que lhe faziam oposição (os
diretores dos institutos de
Biofísica, de Física, da
Coordenação dos Programas de
Pós-Graduação em Engenharia e
do Museu Nacional). Teixeira
recusou a oferta. Disse que não
negociaria sua nomeação nem
aceitava conversas com
professores na qualidade de
delegados do ministro.
Pela lembrança
de Teixeira, Paulo Renato
disse-lhe que não haveria
decisão antes de sexta-feira,
pois tinha que "ouvir o
Fernando". O placar virara.
Horas depois, o professor recebeu
dois telefonemas de amigos. Ambos
pediam que aceitasse o encontro.
Um deles fazia isso a pedido de
Paulo Renato. Por coincidência,
pouco depois tocou um dos
professores, convidando-o para
uma conversa com o grupo.
Na tarde de
segunda-feira Teixeira
encontrou-se na Ilha do Fundão
com os professores Antônio
Carlos Campos de Carvalho
(Biofísica), Carlos Eduardo
Aragão de Carvalho (Física) e
Luís Pinguelli Rosa (Coppe).
Eles tinham três condições: 1)
Queriam discutir as nomeações
dos subreitores. 2) Queriam que
Teixeira se comprometesse a
reformular a composição do
Conselho Universitário. Aí as
versões divergem.
Numa, queriam a
esterilização da
representação dos alunos e
servidores. Noutra, queriam
apenas reduzir sua influência.
Hoje os professores têm menos de
70% das cadeiras do Conselho. 3)
Queriam redefinir os critérios
de indicação dos próximos
reitores. Teixeira disse-lhes que
não tratava o assunto dessa
maneira e só discutiria as
propostas nos foros da
universidade. Informou que não
aceitava ser
"meio-reitor".
Pinguelli
insinuou um veto a um professor
(Edson de Souza) para a
subreitoria de Pessoal. Teixeira
ficou mudo, até porque nunca
disse que o nomearia. Só quem
esteve nessa reunião é que sabe
como ela terminou. O ministro
Paulo Renato recebeu duas
versões. Numa, acabou bem. Na
outra, em desastre.
No dia seguinte
FFHH fez o que sempre quis fazer:
nomeou outro professor (não
importa qual), mas não nomeou
Aloísio Teixeira. Se tivesse
feito isso em maio, ficaria com
toda a responsabilidade e
certamente não provocaria a
encrenca que agora se produziu.
Vilhena é um
professor respeitado pelos
colegas, ainda que pouco
conhecido pelos alunos, pois, no
exercício de funções
administrativas, não dá aulas
há mais de dez anos. Está no
meio de uma crise na qual já o
xingaram de tudo e agora o chamam
de interventor. Os três
professores que se reuniram com
Teixeira foram transformados em
instrumento de um veto do
Planalto quando, na realidade,
exercitaram divergências
legítimas.
Não demora
muito, virá a conversa de que
houve baderna na UFRJ. É claro
que houve, mas as invasões foram
a cena mais recente, pública e
escrachada. Houve baderna quando
o Planalto sugeriu a um candidato
a reitor que cabalasse apoios.
Houve baderna quando o ministro
da Educação sugeriu ao
professor Aloísio Teixeira que
se reunisse com os quatro
diretores.
Houve baderna
quando os três diretores que
foram à reunião apresentaram
uma pauta de condições a um
colega cuja nomeação dependia
do presidente da República. A
velha baderna do andar de cima.
Saques
Este ano o
Incra vai gastar R$ 3,3 milhões
em publicidade. Esse dinheiro
equivale ao que foi gasto no ano
passado com demarcações em
áreas de regularização
fundiária.
Equivale
também a mais ou menos uma vez e
meia o valor estimado dos saques
de caminhões ocorridos durante
as semanas críticas da seca do
Nordeste.
Eremildo,
o idiota
Eremildo é um
idiota. Queria convocar a torcida
brasileira para se manter em
assembléia permanente para a
hipótese de uma mobilização
contra os bancos estrangeiros que
estão invadindo o país, quando
começou a ter dúvidas.
Lembrou-se que nenhum banco
estrangeiro quebrou.
Logo, o Proer
não foi feito por causa deles.
Depois, procurou os nomes de
bancos estrangeiros nas listas de
doadores de dinheiro para
candidatos a cargos eletivos.
(Dinheiro dos acionistas, bem
entendido). Não achou. Telefonou
para um amigo da turma dos
precatórios e perguntou se havia
gringos na mamata. Não havia.
Feito isso, foi
descontar um cheque. A máquina
estava sem tostão. Cruzou com um
segurança que o obrigou a abrir
a sacola que carrega (com
santinhos de FFHH). Entrou numa
fila de 15 minutos (era a fila
errada). Abatido, foi para casa e
passou o resto do dia lendo
declarações de banqueiros em
defesa da abertura dos setores
dos outros.
Quando o idiota
terminou, concluiu que, assim
como torceu pela seleção
brasileira, deve torcer pelos
bancos de banqueiros brasileiros.
Acredita que vai ganhar alguma
coisa com isso.
Milton
Friedman não almoçava de graça
Saiu nos
Estados Unidos o livro de
memórias do casal de economistas
Milton e Rose Friedman. Chama-se
"Duas pessoas de sorte"
("Two lucky people"),
é um presente de real valor para
amigos interessados em economia e
um passeio pela vida de duas
cabeças dedicadas ao estudo e à
busca da verdade.
Para quem não
está familiarizado com a fauna
dos economistas do mundo
acadêmico americano, pode ser um
soporífero.
Rose, uma doce
mulher, conta duas viagens a
Paris, sem guardar qualquer
recordação da beleza da cidade.
Defensor do mercado e inimigo do
Estado metido na vida alheia,
Friedman foi patrulhado por
décadas. Nos anos 50 suas
idéias tinham, nas suas
palavras, o valor das
"guimbas de cigarro".
Hoje, Friedman
talvez seja o economista mais
respeitado do mundo. Uma de suas
tiradas: "Não existe
almoço grátis", é a frase
de economista mais repetida da
História. No livro está a pista
para se descobrir como ele chegou
a conclusão tão simples e
genial. Podia-se pensar que foi
ao fim de anos de estudo ou pelo
exercício de sua maestria
estatística. Nada disso.
Tinha 16 anos
quando conseguiu um de seus
primeiros empregos, num
restaurante perto do colégio.
Trabalhava como garçom e era
pago com um prato de comida,
exatamente o do almoço. Aos 20
anos, quando já estava em
Chicago, em cuja universidade
construiria sua fama, Friedman
trabalhou noutro restaurante.
É provável
que lá tenha aprendido a
detestar as barreiras à livre
concorrência. Ele só podia
servir os fregueses depois que
todos os outros garçons
estivessem ocupados. Quando
descobriu que tinha trabalhado 12
horas por menos de 75 centavos,
foi-se embora.
Há
duas assombrações nas moedas do
real
Passada a festa
das novas moedas do real, é de
se desejar que seu valor
monetário nada tenha a ver com
sua qualidade numismática. São
um desastre.
Cópia pobre do
euro (a cifra inclinada), são
mal-desenhadas e mal-cunhadas.
Contêm tantos
elementos que viraram um
engarrafamento. Na coroa, a
estilização do Cruzeiro do Sul
com um pedaço da bandeira
rebaixou a relevância do valor e
criou uma abstração que retrata
a passagem da constelação por
Saturno.
Os personagens
históricos foram selecionados
por um critério
incompreensível. Puseram os
retratos de duas pessoas cujos
rostos são desconhecidos (Cabral
e Tiradentes). Incluíram o
barão do Rio Branco. Ele tem sua
importância histórica, mas não
chega a bater a princesa Isabel,
Getúlio Vargas ou Juscelino
Kubitschek.
A má qualidade
dos moldes e da cunhagem produziu
duas assombrações. Colocando-se
a moeda de dez centavos debaixo
da luz e inclinando-a 45 graus,
dom Pedro I vira Beethoven. O
barão, inclinado num ângulo
semelhante, com mais trabalho,
acaba virando Lênin.
O presidente do
Banco Central, Gustavo Franco,
não vê essas assombrações.
Sustenta que são produto da
cabeça de quem observa as
imagens, como acontece com as
manchas dos exames
psicotécnicos.
POESIA
Futebol
Armando Freitas
Filho
"Gol"
Sol de um segundo
No último minuto
No alto do campo adverso
Caindo na grama do combate.
Mata, queima e fura
O alvo do dia inimigo
Que não consegue nascer
Sair do zero, da sombra
Da nuvem que cobre
O centro, o contra-ataque
Do coração contrário
Agônico e calado
Cercado de gritos.
Ângela Melim
"Rio
by night 2" (Do
livro "Das tripas
coração")
Noite acesa
No estádio
A olho nu
O ludopédio complicado
O goleiro
De bigode.
Ferreira Gullar
"O
gol" (Publicado na
"Folha de S.Paulo" de
12 de junho de 1994)
A esfera
desce
Do espaço
Veloz
Ele a apara
No peito
E a pára
No ar
Depois
Com o joelho
A dispõe à meia
Altura onde Iluminada
A esfera espera
O chute
Que
Num relâmpago
A dispara
Na direção
Do nosso
Coração
|