-- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 12 de julho de 1998


ÉLIO GÁSPARI

A baderna da UFRJ começou no Palácio do Planalto

FHH e o ministro da Educação, Paulo Renato Souza, fabricaram a crise da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Fizeram isso de forma tão canhestra que deixaram as impressões digitais na arma que abateu o professor Aloísio Teixeira. Logo as de FFHH, que toma banho de luvas.

Provocaram uma situação que desembocou numa sucessão de protestos de professores (cinco dos seis decanos, 40 dos 47 institutos) e na invasão, por alunos e funcionários, de diversos prédios da universidade, inclusive a reitoria.

O professor Aloísio Teixeira não foi escolhido reitor porque FFHH o detesta. Ele está na UFRJ desde 1979, é professor de economia e, salvo nos períodos em que ocupou cargos públicos, como a secretaria-geral do Ministério da Previdência, não houve semana em que deixasse de dar aula. Isso por mais de 15 anos.

Foi um dos melhores amigos do ministro Renato Archer, que era um dos melhores amigos de Ulysses Guimarães, que, por sua vez, reunia os melhores amigos naquilo que se conheceu como "turma do poire". O senador Fernando Henrique Cardoso não era da turma, nem amigo de Ulysses, muito menos de Archer. Era um periférico.

O ministro Paulo Renato também não gosta do professor. Reclama de seus ataques ao Governo. Num deles, Teixeira disse que a política de FFHH está causando mais danos às universidades que a da ditadura militar. Na primeira semana de maio, chegaram a Brasília os nomes dos dois reais candidatos à vaga de reitor.

O primeiro da lista era Teixeira. O segundo, José Henrique Vilhena, do Instituto de Filosofia. Aloísio Teixeira tivera o voto de 62 integrantes do Colégio Eleitoral, composto pelos conselhos da universidade e integrado por professores.

Antes disso, ganhara 42% das preferências entre docentes, funcionários e alunos. (38% entre os professores.) José Henrique Vilhena recebera 31 votos no Colégio Eleitoral e tivera 11% das preferências. (14% junto aos professores.) No dia em que a lista chegou a Brasília, FFHH e o professor Paulo Renato poderiam ter feito a coisa mais simples: nomeavam Vilhena e mandavam Aloísio Teixeira passear.

Haveria choradeira, mas a escolha de reitores a partir das listas das universidades é um direito legítimo e indiscutível do presidente da República. Não queriam nomeá-lo, mas resolveram driblar a sombra. Cozinharam o assunto e mandaram uma mensagem ao Rio, convidando Vilhena a somar apoios que fortalecessem sua possível escolha. Tratava-se de cortar a cabeça de Teixeira com a faca dos outros.

No dia 2, o ministro Paulo Renato chamou Teixeira para um almoço, em Porto Alegre. Conversaram sobre culinária (a diferença entre a carne da galinha e a do pato), viram o Brasil x Dinamarca. Quando foram ao assunto, Paulo Renato disse que o placar da disputa estivera em 7x3 para Vilhena, mas tinha virado para 6x4 a seu favor. Teixeira acreditou.

No sábado o ministro telefonou-lhe, sugerindo que procurasse quatro professores que lhe faziam oposição (os diretores dos institutos de Biofísica, de Física, da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia e do Museu Nacional). Teixeira recusou a oferta. Disse que não negociaria sua nomeação nem aceitava conversas com professores na qualidade de delegados do ministro.

Pela lembrança de Teixeira, Paulo Renato disse-lhe que não haveria decisão antes de sexta-feira, pois tinha que "ouvir o Fernando". O placar virara. Horas depois, o professor recebeu dois telefonemas de amigos. Ambos pediam que aceitasse o encontro. Um deles fazia isso a pedido de Paulo Renato. Por coincidência, pouco depois tocou um dos professores, convidando-o para uma conversa com o grupo.

Na tarde de segunda-feira Teixeira encontrou-se na Ilha do Fundão com os professores Antônio Carlos Campos de Carvalho (Biofísica), Carlos Eduardo Aragão de Carvalho (Física) e Luís Pinguelli Rosa (Coppe). Eles tinham três condições: 1) Queriam discutir as nomeações dos subreitores. 2) Queriam que Teixeira se comprometesse a reformular a composição do Conselho Universitário. Aí as versões divergem.

Numa, queriam a esterilização da representação dos alunos e servidores. Noutra, queriam apenas reduzir sua influência. Hoje os professores têm menos de 70% das cadeiras do Conselho. 3) Queriam redefinir os critérios de indicação dos próximos reitores. Teixeira disse-lhes que não tratava o assunto dessa maneira e só discutiria as propostas nos foros da universidade. Informou que não aceitava ser "meio-reitor".

Pinguelli insinuou um veto a um professor (Edson de Souza) para a subreitoria de Pessoal. Teixeira ficou mudo, até porque nunca disse que o nomearia. Só quem esteve nessa reunião é que sabe como ela terminou. O ministro Paulo Renato recebeu duas versões. Numa, acabou bem. Na outra, em desastre.

No dia seguinte FFHH fez o que sempre quis fazer: nomeou outro professor (não importa qual), mas não nomeou Aloísio Teixeira. Se tivesse feito isso em maio, ficaria com toda a responsabilidade e certamente não provocaria a encrenca que agora se produziu.

Vilhena é um professor respeitado pelos colegas, ainda que pouco conhecido pelos alunos, pois, no exercício de funções administrativas, não dá aulas há mais de dez anos. Está no meio de uma crise na qual já o xingaram de tudo e agora o chamam de interventor. Os três professores que se reuniram com Teixeira foram transformados em instrumento de um veto do Planalto quando, na realidade, exercitaram divergências legítimas.

Não demora muito, virá a conversa de que houve baderna na UFRJ. É claro que houve, mas as invasões foram a cena mais recente, pública e escrachada. Houve baderna quando o Planalto sugeriu a um candidato a reitor que cabalasse apoios. Houve baderna quando o ministro da Educação sugeriu ao professor Aloísio Teixeira que se reunisse com os quatro diretores.

Houve baderna quando os três diretores que foram à reunião apresentaram uma pauta de condições a um colega cuja nomeação dependia do presidente da República. A velha baderna do andar de cima.

Saques

Este ano o Incra vai gastar R$ 3,3 milhões em publicidade. Esse dinheiro equivale ao que foi gasto no ano passado com demarcações em áreas de regularização fundiária.

Equivale também a mais ou menos uma vez e meia o valor estimado dos saques de caminhões ocorridos durante as semanas críticas da seca do Nordeste.

Eremildo, o idiota

Eremildo é um idiota. Queria convocar a torcida brasileira para se manter em assembléia permanente para a hipótese de uma mobilização contra os bancos estrangeiros que estão invadindo o país, quando começou a ter dúvidas. Lembrou-se que nenhum banco estrangeiro quebrou.

Logo, o Proer não foi feito por causa deles. Depois, procurou os nomes de bancos estrangeiros nas listas de doadores de dinheiro para candidatos a cargos eletivos. (Dinheiro dos acionistas, bem entendido). Não achou. Telefonou para um amigo da turma dos precatórios e perguntou se havia gringos na mamata. Não havia.

Feito isso, foi descontar um cheque. A máquina estava sem tostão. Cruzou com um segurança que o obrigou a abrir a sacola que carrega (com santinhos de FFHH). Entrou numa fila de 15 minutos (era a fila errada). Abatido, foi para casa e passou o resto do dia lendo declarações de banqueiros em defesa da abertura dos setores dos outros.

Quando o idiota terminou, concluiu que, assim como torceu pela seleção brasileira, deve torcer pelos bancos de banqueiros brasileiros. Acredita que vai ganhar alguma coisa com isso.

Milton Friedman não almoçava de graça

Saiu nos Estados Unidos o livro de memórias do casal de economistas Milton e Rose Friedman. Chama-se "Duas pessoas de sorte" ("Two lucky people"), é um presente de real valor para amigos interessados em economia e um passeio pela vida de duas cabeças dedicadas ao estudo e à busca da verdade.

Para quem não está familiarizado com a fauna dos economistas do mundo acadêmico americano, pode ser um soporífero.

Rose, uma doce mulher, conta duas viagens a Paris, sem guardar qualquer recordação da beleza da cidade. Defensor do mercado e inimigo do Estado metido na vida alheia, Friedman foi patrulhado por décadas. Nos anos 50 suas idéias tinham, nas suas palavras, o valor das "guimbas de cigarro".

Hoje, Friedman talvez seja o economista mais respeitado do mundo. Uma de suas tiradas: "Não existe almoço grátis", é a frase de economista mais repetida da História. No livro está a pista para se descobrir como ele chegou a conclusão tão simples e genial. Podia-se pensar que foi ao fim de anos de estudo ou pelo exercício de sua maestria estatística. Nada disso.

Tinha 16 anos quando conseguiu um de seus primeiros empregos, num restaurante perto do colégio. Trabalhava como garçom e era pago com um prato de comida, exatamente o do almoço. Aos 20 anos, quando já estava em Chicago, em cuja universidade construiria sua fama, Friedman trabalhou noutro restaurante.

É provável que lá tenha aprendido a detestar as barreiras à livre concorrência. Ele só podia servir os fregueses depois que todos os outros garçons estivessem ocupados. Quando descobriu que tinha trabalhado 12 horas por menos de 75 centavos, foi-se embora.

Há duas assombrações nas moedas do real

Passada a festa das novas moedas do real, é de se desejar que seu valor monetário nada tenha a ver com sua qualidade numismática. São um desastre.

Cópia pobre do euro (a cifra inclinada), são mal-desenhadas e mal-cunhadas.

Contêm tantos elementos que viraram um engarrafamento. Na coroa, a estilização do Cruzeiro do Sul com um pedaço da bandeira rebaixou a relevância do valor e criou uma abstração que retrata a passagem da constelação por Saturno.

Os personagens históricos foram selecionados por um critério incompreensível. Puseram os retratos de duas pessoas cujos rostos são desconhecidos (Cabral e Tiradentes). Incluíram o barão do Rio Branco. Ele tem sua importância histórica, mas não chega a bater a princesa Isabel, Getúlio Vargas ou Juscelino Kubitschek.

A má qualidade dos moldes e da cunhagem produziu duas assombrações. Colocando-se a moeda de dez centavos debaixo da luz e inclinando-a 45 graus, dom Pedro I vira Beethoven. O barão, inclinado num ângulo semelhante, com mais trabalho, acaba virando Lênin.

O presidente do Banco Central, Gustavo Franco, não vê essas assombrações. Sustenta que são produto da cabeça de quem observa as imagens, como acontece com as manchas dos exames psicotécnicos.

POESIA

Futebol

Armando Freitas Filho

"Gol"
Sol de um segundo
No último minuto
No alto do campo adverso
Caindo na grama do combate.
Mata, queima e fura
O alvo do dia inimigo
Que não consegue nascer
Sair do zero, da sombra
Da nuvem que cobre
O centro, o contra-ataque
Do coração contrário
Agônico e calado
Cercado de gritos.

Ângela Melim

"Rio by night 2" (Do livro "Das tripas coração")

Noite acesa
No estádio
A olho nu
O ludopédio complicado
O goleiro
De bigode.

Ferreira Gullar

"O gol" (Publicado na "Folha de S.Paulo" de 12 de junho de 1994)

A esfera desce
Do espaço
Veloz
Ele a apara
No peito
E a pára
No ar
Depois
Com o joelho
A dispõe à meia
Altura onde Iluminada
A esfera espera
O chute
Que
Num relâmpago
A dispara
Na direção
Do nosso
Coração

 
 

 

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