- - - -- - - - - - - -- - - - - - - -- - - - --Jornal do Commercio - Recife, 12 de julho de 1998

TREINADOR
Zagalo é emoção e confiança pelo penta

Fanfarrão, sério, compenetrado, confiante, ufanista, otimista. Vencedor. Zagalo tem isso tudo. Depois de ser execrado pela imprensa e questionado pela torcida desde que voltou ao comando técnico da Seleção Brasileira com a saída de Carlos Alberto Parreira, em 94, Mário Jorge Lobo Zagalo, 67 anos, chega a decisão do título mundial pela quinta vez consecutiva. Mais confiante do que nunca. Se o Brasil ganhar hoje, ele será o único homem no planeta a ter participado de cinco conquistas mundiais. As duas primeiras como treinador, em 58 e 62. Em 70 como treinador e em 94 como coordenador-técnico.

De todas as Copas, esta é especial para Zagalo. Talvez por isso ele venha se emocionando tanto. E se empenhando mais ainda. Chorou após a vitória sobre a Holanda. Chorou após o último treino da Seleção em Ozoir-la-Ferrière, sexta-feira. É que nesses quatro anos dirigindo a Canarinha, ele sofreu mais cobranças do que nas outras ocasiões. Era jogador no bicampeonato 58/62. Naquelas seleções, havia Pelé e Garrinha. Ele era apenas Zagalo - "a formiguinha", um falso ponta-esquerda que atacava, mas voltava para ajudar a defesa. Em 70, era o treinador que havia assumido o time em cima da hora (João Saldanha fora demitido meses antes da Copa). Em 94, era apenas o pára-raios de Parreira, o treinador. Agora, não.

Zagalo assumiu a equipe e teve quatro anos para prepará-la. Criou a função de número 1, que até hoje não deu certo. Não deu certo, vírgula. Mas a Seleção vem ganhando. E foi cobrado. Muito cobrado. Explodiu. "Vocês vão ter que me engolir", disse, após a conquista da Copa América pelo Brasil, em 97. Algo, porém, não se pode negar a Zagalo: a confiança que sempre teve como jogador e que, como técnico, consegue transmitir para os comandados. Desde 94, ele criou a contagem regressiva de 7 a 1 que vai do primeiro ao último jogo. Suas palavras para os jogadores, nos momentos mais difíceis, são sempre de otimismo. "Vamos chegar lá, vamos conseguir. Você vai acertar". E vem dando certo.

Em todas as entrevistas, porém, é inegável a grande virtude de Zagalo: o amor ao que faz e à Seleção Brasileira. "Digo sempre aos jogadores que é difícil ganhar se não tiver um espírito amadorista. O dinheiro é importante, todo mundo deve pensar em ganhá-lo. Mas se não tiver vontade, perseverança, não adianta que não vai dar certo. É o que falo aos jogadores. Para vencer, é preciso ter orgulho de vestir a amarelinha, vibrar com ela. É isso que nos dá confiança de que vamos conquistar este penta."

Como técnico da Seleção, o velho Lobo diz que aceita críticas, desde que não sejam pessoais. Fala que tem poucos inimigos, "uns três ou quatro" que ficam pegando no seu pé com questões até pessoais. "Se as críticas forem sensatas, eu aceito. Agora, temos 160 milhões de brasileiros, cada um tem um time, será que eu não posso ter o meu?" Na semana da decisão, até o neto de Zagalo cismou de escalar o time. Queria barrar Rivaldo e colocar Denílson. "É assim mesmo", comenta o treinador, que não faz planos sobre o que vai fazer após a Copa. 160 milhões de brasileiros, porém, torcem hoje para ouvir o mesmo desabafo de 97, claro que com a conveniência do penta: "Vocês vão ter que me engolir".


     

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