TREINADOR
Zagalo
é emoção e confiança pelo
pentaFanfarrão, sério,
compenetrado, confiante,
ufanista, otimista. Vencedor.
Zagalo tem isso tudo. Depois de
ser execrado pela imprensa e
questionado pela torcida desde
que voltou ao comando técnico da
Seleção Brasileira com a saída
de Carlos Alberto Parreira, em
94, Mário Jorge Lobo Zagalo, 67
anos, chega a decisão do título
mundial pela quinta vez
consecutiva. Mais confiante do
que nunca. Se o Brasil ganhar
hoje, ele será o único homem no
planeta a ter participado de
cinco conquistas mundiais. As
duas primeiras como treinador, em
58 e 62. Em 70 como treinador e
em 94 como coordenador-técnico.
De todas as
Copas, esta é especial para
Zagalo. Talvez por isso ele venha
se emocionando tanto. E se
empenhando mais ainda. Chorou
após a vitória sobre a Holanda.
Chorou após o último treino da
Seleção em Ozoir-la-Ferrière,
sexta-feira. É que nesses quatro
anos dirigindo a Canarinha, ele
sofreu mais cobranças do que nas
outras ocasiões. Era jogador no
bicampeonato 58/62. Naquelas
seleções, havia Pelé e
Garrinha. Ele era apenas Zagalo -
"a formiguinha", um
falso ponta-esquerda que atacava,
mas voltava para ajudar a defesa.
Em 70, era o treinador que havia
assumido o time em cima da hora
(João Saldanha fora demitido
meses antes da Copa). Em 94, era
apenas o pára-raios de Parreira,
o treinador. Agora, não.
Zagalo assumiu
a equipe e teve quatro anos para
prepará-la. Criou a função de
número 1, que até hoje não deu
certo. Não deu certo, vírgula.
Mas a Seleção vem ganhando. E
foi cobrado. Muito cobrado.
Explodiu. "Vocês vão ter
que me engolir", disse,
após a conquista da Copa
América pelo Brasil, em 97.
Algo, porém, não se pode negar
a Zagalo: a confiança que sempre
teve como jogador e que, como
técnico, consegue transmitir
para os comandados. Desde 94, ele
criou a contagem regressiva de 7
a 1 que vai do primeiro ao
último jogo. Suas palavras para
os jogadores, nos momentos mais
difíceis, são sempre de
otimismo. "Vamos chegar lá,
vamos conseguir. Você vai
acertar". E vem dando certo.
Em todas as
entrevistas, porém, é inegável
a grande virtude de Zagalo: o
amor ao que faz e à Seleção
Brasileira. "Digo sempre aos
jogadores que é difícil ganhar
se não tiver um espírito
amadorista. O dinheiro é
importante, todo mundo deve
pensar em ganhá-lo. Mas se não
tiver vontade, perseverança,
não adianta que não vai dar
certo. É o que falo aos
jogadores. Para vencer, é
preciso ter orgulho de vestir a
amarelinha, vibrar com ela. É
isso que nos dá confiança de
que vamos conquistar este
penta."
Como técnico
da Seleção, o velho Lobo diz
que aceita críticas, desde que
não sejam pessoais. Fala que tem
poucos inimigos, "uns três
ou quatro" que ficam pegando
no seu pé com questões até
pessoais. "Se as críticas
forem sensatas, eu aceito. Agora,
temos 160 milhões de
brasileiros, cada um tem um time,
será que eu não posso ter o
meu?" Na semana da decisão,
até o neto de Zagalo cismou de
escalar o time. Queria barrar
Rivaldo e colocar Denílson.
"É assim mesmo",
comenta o treinador, que não faz
planos sobre o que vai fazer
após a Copa. 160 milhões de
brasileiros, porém, torcem hoje
para ouvir o mesmo desabafo de
97, claro que com a conveniência
do penta: "Vocês vão ter
que me engolir".