VIDA
SEXUAL
O
orgasmo na velhicepor ELZA RAMOS
Agência Globo
A mulher de
terceira idade, entre 61 e 70
anos, que é saudável e tem
parceiro fixo, tem vida sexual
mais intensa que noutras faixas
etárias. Esta é a conclusão de
uma pesquisa feita pelo Núcleo
de Estudos de Sexologia e
Geriatria de Curitiba, que
entrevistou 2.400 mulheres de
várias idades e apontou
freqüência sexual de até 17
vezes por mês para estas avós
que, após a aposentadoria, vivem
um renascimento sexual em seus
casamentos.
Entre 51 e 60
anos, a vida sexual é menos
movimentada: oito relações, em
média, por mês. E entre 41 e 50
anos, o índice mensal é de 12,2
vezes. Para a médica Marilene
Cristina Vargas, coordenadora da
pesquisa e autora do livro O
manual do orgasmo, a causa da
redução da freqüência sexual
entre 50 e 60 anos é a
menopausa, que provoca
transformações hormonais
profundas.
"Mas, se a
mulher toma remédios para
garantir o equilíbrio hormonal,
atravessa a menopausa com vida
sexual ativa, no mesmo ritmo
anterior. Outra descoberta
importante: quem tem orgasmos
freqüentes envelhece mais
devagar", diz a sexóloga.
Ela cita o exemplo da atriz
Sophia Loren que, aos 63 anos,
mantém a rigidez muscular e o
brilho na pele, fazendo
tratamento de reposição
hormonal.
No período da
menopausa, segundo Cristina, a
reposição de hormônios,
complementada com reforço de
sais minerais, garante a
manutenção da libido e evita
dores vaginais, dificuldade de
atingir o orgasmo, depressão,
calores, apatia e outros
sintomas. Além da medicação, a
sexóloga recomenda exercícios
físicos e o aprendizado do
controle da musculatura das
paredes internas da vagina.
"Sem vida sexual, a mulher
perde a cintura, os glúteos
caem, o seio despenca. E o humor
vira uma calamidade",
acrescenta.
Segundo a
pesquisa, as mulheres entre 18 a
30 anos têm frequência de 16,50
relações sexuais por mês,
enquanto que a da faixa entre 31
a 40 é de 10,9 relações.
"A pesquisa demonstra que a
mulher não perde a sexualidade
com o passar dos anos. Na década
de 40, os estudos dos
pesquisadores Kinsey e Rischfield
apresentavam a mulher idosa como
assexuada. Suas necessidades
seriam, no máximo, de 26
relações sexuais por ano",
lembra a médica.
HÁ
CONTROVÉRSIAS - O
andrologista Marcio Sister,
especialista em sexualidade da
International Society for
Impotence Reserch, considerou
extremanente improvável que um
casal de mais de 60 anos tenha 17
relações sexuais por mês.
"Eu atendi a cerca de quatro
mil pacientes em 12 anos de
consultório. A maioria dos
homens com mais de 60 anos vem
aqui justamente com problemas de
impotência. Esta é a idade da
descida da serra do homem. Com
quem estas mulheres vão ter
tantas relações? Não deve ser
com o parceiro. O pique sexual do
homem e da mulher não é o mesmo
depois dos 60. Talvez em
intensidade seja possível,
porque já estão com os filhos
criados, uma vida estável, sem
os fantasmas da gravidez, mas
freqüência eu duvido".
Já o
psicólogo Arnaldo Risman,
especialista em sexualidade
humana e professor da Universide
Aberta da Terceira Idade
(Unati/Uerj), afirma que, apesar
das alterações hormonais que
ocorrem na menopausa, a mulher
não perde a capacidade de sentir
desejo nem a capacidade
orgásmica, podendo até sentir
orgasmos múltiplos. Mas, alguns
fatores interferem neste
processo, como o preconceito
social e o aspecto psicológico.
"Na
terceira idade, a mulher se sente
menos atraente e incapaz de
conquistar um parceiro, gerando
assim conflitos emocionais. Outra
questão é a falta de parceiro.
Devido às mudanças
fisiológicas, muitos homens
perdem o interesse pelo
sexo", diz Risman, um dos
autores de Terceira Idade - um
envelhecimento digno para o
cidadão do futuro (Unati),
organizado por Renato Veras.
AS MAIS
FELIZES - Segundo Marilene
Cristina, as mulheres de mais 40
anos que não entraram na
menopausa são as mais realizadas
sexual e afetivamente. Nesta
fase, o triângulo hormonal que
governa o orgasmo (composto dos
hormônios estrogênio,
progesterona e testosterona) fica
mais ativo e a mulher conhece
melhor seu corpo, sabe o que quer
e já perdeu inibições comuns
na primeira etapa da vida sexual.
"Quando a mulher sabe o que
quer, o orgasmo vem mais rápido
e é mais longo", diz a
médica.
A duração do
orgasmo tem a ver com o tempo do
jogo amoroso e - novamente neste
caso - a mulher madura é a que
mais se destaca. Segundo
Cristina, acima dos 40 anos,
geralmente a mulher está
estabilizada profissionalmente e
busca satisfazer suas
necessidades sensoriais de forma
objetiva. "A mulher madura
não perde tempo. Ela metabolizou
mais rapidamente as mudanças
contemporâneas e procura não
só gozar como dar prazer a seu
parceiro", diz.
Cristina cita,
ainda, uma outra pesquisa, feita
em clínicas para tratamentos de
distúrbios sexuais, segundo a
qual, na população feminina
brasileira, 23% declaram não ter
desejo e nem orgasmo; 35% se
definem como ótimas de cama, com
alta freqüência de orgasmos. As
42% restantes se declaram
"regulares": têm cerca
de 50% de relações com orgasmo,
em certas fases da vida têm
disfunção de desejo e precisam
de estímulo para voltar a ter
relações sexuais.
"Os
problemas que levam à
dificuldade de ter orgasmo são
tratáveis. Entre eles, estão
hérnias de disco, tumores,
artrites, varizes vaginais,
doenças psíquicas,
desequilíbrios hormonais e até
defeitos no olfato", diz a
médica.