- - - -...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 12de julho de 1998

VIDA SEXUAL
O orgasmo na velhice

por ELZA RAMOS
Agência Globo

A mulher de terceira idade, entre 61 e 70 anos, que é saudável e tem parceiro fixo, tem vida sexual mais intensa que noutras faixas etárias. Esta é a conclusão de uma pesquisa feita pelo Núcleo de Estudos de Sexologia e Geriatria de Curitiba, que entrevistou 2.400 mulheres de várias idades e apontou freqüência sexual de até 17 vezes por mês para estas avós que, após a aposentadoria, vivem um renascimento sexual em seus casamentos.

Entre 51 e 60 anos, a vida sexual é menos movimentada: oito relações, em média, por mês. E entre 41 e 50 anos, o índice mensal é de 12,2 vezes. Para a médica Marilene Cristina Vargas, coordenadora da pesquisa e autora do livro O manual do orgasmo, a causa da redução da freqüência sexual entre 50 e 60 anos é a menopausa, que provoca transformações hormonais profundas.

"Mas, se a mulher toma remédios para garantir o equilíbrio hormonal, atravessa a menopausa com vida sexual ativa, no mesmo ritmo anterior. Outra descoberta importante: quem tem orgasmos freqüentes envelhece mais devagar", diz a sexóloga. Ela cita o exemplo da atriz Sophia Loren que, aos 63 anos, mantém a rigidez muscular e o brilho na pele, fazendo tratamento de reposição hormonal.

No período da menopausa, segundo Cristina, a reposição de hormônios, complementada com reforço de sais minerais, garante a manutenção da libido e evita dores vaginais, dificuldade de atingir o orgasmo, depressão, calores, apatia e outros sintomas. Além da medicação, a sexóloga recomenda exercícios físicos e o aprendizado do controle da musculatura das paredes internas da vagina. "Sem vida sexual, a mulher perde a cintura, os glúteos caem, o seio despenca. E o humor vira uma calamidade", acrescenta.

Segundo a pesquisa, as mulheres entre 18 a 30 anos têm frequência de 16,50 relações sexuais por mês, enquanto que a da faixa entre 31 a 40 é de 10,9 relações. "A pesquisa demonstra que a mulher não perde a sexualidade com o passar dos anos. Na década de 40, os estudos dos pesquisadores Kinsey e Rischfield apresentavam a mulher idosa como assexuada. Suas necessidades seriam, no máximo, de 26 relações sexuais por ano", lembra a médica.

HÁ CONTROVÉRSIAS - O andrologista Marcio Sister, especialista em sexualidade da International Society for Impotence Reserch, considerou extremanente improvável que um casal de mais de 60 anos tenha 17 relações sexuais por mês. "Eu atendi a cerca de quatro mil pacientes em 12 anos de consultório. A maioria dos homens com mais de 60 anos vem aqui justamente com problemas de impotência. Esta é a idade da descida da serra do homem. Com quem estas mulheres vão ter tantas relações? Não deve ser com o parceiro. O pique sexual do homem e da mulher não é o mesmo depois dos 60. Talvez em intensidade seja possível, porque já estão com os filhos criados, uma vida estável, sem os fantasmas da gravidez, mas freqüência eu duvido".

Já o psicólogo Arnaldo Risman, especialista em sexualidade humana e professor da Universide Aberta da Terceira Idade (Unati/Uerj), afirma que, apesar das alterações hormonais que ocorrem na menopausa, a mulher não perde a capacidade de sentir desejo nem a capacidade orgásmica, podendo até sentir orgasmos múltiplos. Mas, alguns fatores interferem neste processo, como o preconceito social e o aspecto psicológico.

"Na terceira idade, a mulher se sente menos atraente e incapaz de conquistar um parceiro, gerando assim conflitos emocionais. Outra questão é a falta de parceiro. Devido às mudanças fisiológicas, muitos homens perdem o interesse pelo sexo", diz Risman, um dos autores de Terceira Idade - um envelhecimento digno para o cidadão do futuro (Unati), organizado por Renato Veras.

AS MAIS FELIZES - Segundo Marilene Cristina, as mulheres de mais 40 anos que não entraram na menopausa são as mais realizadas sexual e afetivamente. Nesta fase, o triângulo hormonal que governa o orgasmo (composto dos hormônios estrogênio, progesterona e testosterona) fica mais ativo e a mulher conhece melhor seu corpo, sabe o que quer e já perdeu inibições comuns na primeira etapa da vida sexual. "Quando a mulher sabe o que quer, o orgasmo vem mais rápido e é mais longo", diz a médica.

A duração do orgasmo tem a ver com o tempo do jogo amoroso e - novamente neste caso - a mulher madura é a que mais se destaca. Segundo Cristina, acima dos 40 anos, geralmente a mulher está estabilizada profissionalmente e busca satisfazer suas necessidades sensoriais de forma objetiva. "A mulher madura não perde tempo. Ela metabolizou mais rapidamente as mudanças contemporâneas e procura não só gozar como dar prazer a seu parceiro", diz.

Cristina cita, ainda, uma outra pesquisa, feita em clínicas para tratamentos de distúrbios sexuais, segundo a qual, na população feminina brasileira, 23% declaram não ter desejo e nem orgasmo; 35% se definem como ótimas de cama, com alta freqüência de orgasmos. As 42% restantes se declaram "regulares": têm cerca de 50% de relações com orgasmo, em certas fases da vida têm disfunção de desejo e precisam de estímulo para voltar a ter relações sexuais.

"Os problemas que levam à dificuldade de ter orgasmo são tratáveis. Entre eles, estão hérnias de disco, tumores, artrites, varizes vaginais, doenças psíquicas, desequilíbrios hormonais e até defeitos no olfato", diz a médica.


     

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