RESTAURAÇÃO
Retire
o mofo das suas recordaçõespor SÉRGIO ROBERTO
LIMA
O que você
faria se o seu vídeo cassete
mastigasse a fita do seu filme
preferido? Fácil, era só
regravá-lo. E se encontrasse as
fotos do último Carnaval
mofadas? Chato, mas sem maiores
problemas, até porque Carnaval
há todo ano. Quando a perda, no
entanto, se trata de um registro
de estimação - como a filmagem
do aniversário de um parente já
falecido ou as fotos do álbum de
casamento - não é preciso se
desesperar e achar que essas
lembranças restaram apenas na
sua memória. Ainda há uma
alternativa: recorrer aos
restauradores.
Enquanto os
disquinhos de DVD não substituem
completamente as fitas de vídeo,
problemas como estojo quebrado,
fitas danificadas pelo calor ou
mastigadas e partidas pelas
engrenagens do vídeo serão
dores de cabeça freqüentes de
quem recorre às gravações para
guardar suas lembranças. E são
esses os motivos mais freqüentes
dos que procuram o restaurador
Vianey Gonçalves. Há oito anos
trabalhando com fitas, ele já
viu algumas que se transformaram
em formigueiro ou foram
infestadas por baratas. "Na
maioria das vezes, o grande
culpado pelos danos é o local
que em que elas são
guardadas", afirma ele.
Unindo
ambientes fechados e sem
ventilação com a alta taxa de
umidade de cidades como o Recife,
o mofo acaba sendo implacável.
Das cerca de 70 fitas que
Gonçalves restaura por mês, boa
parte chega até ele com o
carretel repleto de fungos. O
restaurador adverte que as
máquinas vendidas no mercado
para limpá-las não resolvem de
vez o problema.
A solução,
segundo ele, é limpar também o
compartimento interno dos
estojos. A remoção desse fungo
diretamente da fita, entretanto,
exige alguns cuidados, já que a
limpeza pode prejudicar a
qualidade da gravação ou, se o
produto for abrasivo, perdê-la
por completo. Para isso, Vianey
utiliza uma substância importada
que faz questão de manter em
segredo. "Só posso dizer
que é antimofo, mas não é
específica para fitas".
Pelo fato de
mostrar cenas em movimento, as
fitas tornam a memória mais
viva. Por isso, o fascínio das
pessoas em guardar lembranças,
em forma de gravações, de
parentes e amigos mortos pode ser
medido quando esse material se
deteriora e compromete as
imagens. O restaurador Gonçalves
teve a demonstração desse apego
quando recebeu de uma mulher em
desespero uma fita danificada com
uma entrevista de um irmão já
falecido. "Quando recebeu a
fita restaurada, ela ficou tão
feliz que disse que eu poderia
pedir o valor que eu
quisesse", lembra ele, que
diz ter cobrado o preço normal
(de R$ 2,50 a R$ 5,00, por fita).
RECORDAÇÃO
DE PAPEL - Mas as fotografias
também têm seus fãs
nostálgicos. Com a desvantagem
de que esses se deparam com
recordações perdidas com maior
freqüência, uma vez que o papel
se deteriora com mais facilidade
do que as fitas.
A Fundação
Joaquim Nabuco possui um setor
específico para recuperação de
material fotográfico. A
entidade, entretanto, só presta
serviços de recuperação em
situações especiais, como em
casos de materiais de grande
interesse histórico. "Temos
apenas uma restauradora para
cuidar de um acervo de
aproximadamente 200 mil fotos,
sendo as mais antigas de 1840.
Por isso, nosso trabalho ao
público se concentra mais na
assessoria, dando dicas de
conservação", explica a
coordenadora do setor de
iconografia da Funadação
Joaquim Nabuco, Albertina Lacerda
Malta.
Segundo a
restauradora da Fundaj, Marja
Brandão, a principal causa de
fotos deterioradas é a mesma das
fitas de vídeo - guardá-las em
locais inadequados. Para
restaurar uma foto muito
danificada, e quando já não há
como recuperar a imagem, o
restaurador precisa explorar o
seu lado artista e buscar pistas
na própria foto, como a época
em que ela foi revelada.
"Às vezes, é impossível
saber como estava, originalmente,
um detalhe do cabelo",
informa. Segundo ela, nunca se
acrescentam elementos, como pôr
uma flor no cabelo de uma pessoa.
Apesar de o
comum ser a recuperação das
fotografias mais antigas, já que
hoje o material é muito mais
resistente, a sugestão do
restaurador Josemir Alves da
Fonseca é cada pessoa criar o
seu próprio álbum, seguindo
algumas regras. Uma delas é
utilizar papéis alcalinos entre
as fotos, como os que são
vendidos para impressão a laser,
e guardá-las em envelopes de
material com as mesmas
características. "Os demais
são ácidos e amarelam a
fotografia rapidamente",
adverte Fonseca.
Ele diz que,
trabalhando seis horas por dia,
em média, cada foto leva uma
semana para ficar como antes. O
restaurador cobra a partir de R$
50,00 pelo trabalho. Só de uma
importante família pernambucana,
ele já fez a restauração de
1.200 fotos, trazendo de volta
lembranças do início do
século.
Serviço
Vianey
Gonçalves - F.423.0871
Setor de iconografia da Fundaj -
F.441.5900 ramal 305
Josemir Fonseca - F.465.1946 ou
341.1842