- - - -...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 12de julho de 1998

RESTAURAÇÃO
Retire o mofo das suas recordações

por SÉRGIO ROBERTO LIMA

O que você faria se o seu vídeo cassete mastigasse a fita do seu filme preferido? Fácil, era só regravá-lo. E se encontrasse as fotos do último Carnaval mofadas? Chato, mas sem maiores problemas, até porque Carnaval há todo ano. Quando a perda, no entanto, se trata de um registro de estimação - como a filmagem do aniversário de um parente já falecido ou as fotos do álbum de casamento - não é preciso se desesperar e achar que essas lembranças restaram apenas na sua memória. Ainda há uma alternativa: recorrer aos restauradores.

Enquanto os disquinhos de DVD não substituem completamente as fitas de vídeo, problemas como estojo quebrado, fitas danificadas pelo calor ou mastigadas e partidas pelas engrenagens do vídeo serão dores de cabeça freqüentes de quem recorre às gravações para guardar suas lembranças. E são esses os motivos mais freqüentes dos que procuram o restaurador Vianey Gonçalves. Há oito anos trabalhando com fitas, ele já viu algumas que se transformaram em formigueiro ou foram infestadas por baratas. "Na maioria das vezes, o grande culpado pelos danos é o local que em que elas são guardadas", afirma ele.

Unindo ambientes fechados e sem ventilação com a alta taxa de umidade de cidades como o Recife, o mofo acaba sendo implacável. Das cerca de 70 fitas que Gonçalves restaura por mês, boa parte chega até ele com o carretel repleto de fungos. O restaurador adverte que as máquinas vendidas no mercado para limpá-las não resolvem de vez o problema.

A solução, segundo ele, é limpar também o compartimento interno dos estojos. A remoção desse fungo diretamente da fita, entretanto, exige alguns cuidados, já que a limpeza pode prejudicar a qualidade da gravação ou, se o produto for abrasivo, perdê-la por completo. Para isso, Vianey utiliza uma substância importada que faz questão de manter em segredo. "Só posso dizer que é antimofo, mas não é específica para fitas".

Pelo fato de mostrar cenas em movimento, as fitas tornam a memória mais viva. Por isso, o fascínio das pessoas em guardar lembranças, em forma de gravações, de parentes e amigos mortos pode ser medido quando esse material se deteriora e compromete as imagens. O restaurador Gonçalves teve a demonstração desse apego quando recebeu de uma mulher em desespero uma fita danificada com uma entrevista de um irmão já falecido. "Quando recebeu a fita restaurada, ela ficou tão feliz que disse que eu poderia pedir o valor que eu quisesse", lembra ele, que diz ter cobrado o preço normal (de R$ 2,50 a R$ 5,00, por fita).

RECORDAÇÃO DE PAPEL - Mas as fotografias também têm seus fãs nostálgicos. Com a desvantagem de que esses se deparam com recordações perdidas com maior freqüência, uma vez que o papel se deteriora com mais facilidade do que as fitas.

A Fundação Joaquim Nabuco possui um setor específico para recuperação de material fotográfico. A entidade, entretanto, só presta serviços de recuperação em situações especiais, como em casos de materiais de grande interesse histórico. "Temos apenas uma restauradora para cuidar de um acervo de aproximadamente 200 mil fotos, sendo as mais antigas de 1840. Por isso, nosso trabalho ao público se concentra mais na assessoria, dando dicas de conservação", explica a coordenadora do setor de iconografia da Funadação Joaquim Nabuco, Albertina Lacerda Malta.

Segundo a restauradora da Fundaj, Marja Brandão, a principal causa de fotos deterioradas é a mesma das fitas de vídeo - guardá-las em locais inadequados. Para restaurar uma foto muito danificada, e quando já não há como recuperar a imagem, o restaurador precisa explorar o seu lado artista e buscar pistas na própria foto, como a época em que ela foi revelada. "Às vezes, é impossível saber como estava, originalmente, um detalhe do cabelo", informa. Segundo ela, nunca se acrescentam elementos, como pôr uma flor no cabelo de uma pessoa.

Apesar de o comum ser a recuperação das fotografias mais antigas, já que hoje o material é muito mais resistente, a sugestão do restaurador Josemir Alves da Fonseca é cada pessoa criar o seu próprio álbum, seguindo algumas regras. Uma delas é utilizar papéis alcalinos entre as fotos, como os que são vendidos para impressão a laser, e guardá-las em envelopes de material com as mesmas características. "Os demais são ácidos e amarelam a fotografia rapidamente", adverte Fonseca.

Ele diz que, trabalhando seis horas por dia, em média, cada foto leva uma semana para ficar como antes. O restaurador cobra a partir de R$ 50,00 pelo trabalho. Só de uma importante família pernambucana, ele já fez a restauração de 1.200 fotos, trazendo de volta lembranças do início do século.

Serviço

Vianey Gonçalves - F.423.0871
Setor de iconografia da Fundaj - F.441.5900 ramal 305
Josemir Fonseca - F.465.1946 ou 341.1842


     

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