- - - -...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 12de julho de 1998

COMPORTAMENTO INFANTIL
Quando as crianças não ficam quietas

por FABIANA MORAES

No início, elas são vistas apenas como crianças bagunceiras. Quebram vasos, correm pela casa, sobem nos locais mais improváveis e raramente se concentram em alguma coisa. Depois, o comportamento começa a preocupar: tornam-se mais agressivas e apresentam notas escolares insatisfatórias. Estes são alguns dos principais sintomas de uma doença que já se tornou uma espécie de chavão entre os pais: a hiperatividadede infantil. O distúrbio, se for levado apenas como uma questão comportamental e não tratado por profissionais, pode provocar sérios danos à saúde das crianças, que correm o risco de tornarem-se adultos problemáticos.

Com apenas seis anos de idade, o pequeno Bruno Aurélio da Silva já carrega três cicatrizes no lado esquerdo do rosto. Uma delas é o resultado de uma queda que deixou metade da sua face com uma enorme mancha roxa durante dias. A mãe de Bruno, Betânia Pereira, 33 anos, conta que de nada adiantam os apelos feitos: Bruno sempre termina fazendo o contrário. "Ele só quer brincar de luta com a irmã", diz Betânia, referindo-se à sua filha caçula, Isabela Lizandra, de quatro anos.

O maior problema do menino é a falta de concentração, um dos principais indícios da hiperatividade. Bruno está repetindo o Jardim 2 pela segunda vez, após ter sido reprovado no ano passado. "Ele sempre é o último a entregar a prova", conta Betânia, que diz não ter paciência suficiente para ensinar as lições de casa ao filho. "Ele é muito desconcentrado, não se importa com as lições, não demonstra nenhum interesse. É muito difícil". O fato terminou na sala de uma psicóloga que diagnosticou: Bruno sofre de hiperatividade.

De acordo com a neuropediatra Ana Van der Linden, é difícil classificar uma criança hiperativa apenas pela sintomatologia clássica. "É preciso que esta criança seja avaliada por um neurologista. A hiperatividade é uma doença, e precisa ser tratada à base de remédios", alerta. A doença já foi chamada de disfunção cerebral mínima (D.C.M.), uma denominação bastante pesada, segundo a neuropediatra. "Hoje, preferimos chamar de Síndrome do Distúrbio de Atenção, já que a hipertatividade não é, de modo algum, uma disfunção cerebral", afirma. A doença atinge apenas crianças com idade na faixa dos sete, oito anos.

As principais características de uma criança hiperativa são a falta de atenção e concentração, a disgrafia (dificuldades na escrita) e a despatricia (a criança tropeça com freqüência, por exemplo). "Outro sintoma comum é a dor de cabeça", diz Ana Van der Linden. Ela adianta que não se pode confundir a doença com distúrbios de conduta. "A hiperatividade pode vir associada a outras doenças, como os problemas de sono e alimentação. Já tratei de uma criança de apenas quatro meses que não conseguia dormir nem se alimentar. Ela foi diagnosticada como hiperativa e foi medicada durante dois meses. Nesse período, sorriu pela primeira vez".

SETE MORDIDAS - A comerciária Cinthia Carneiro Gonçalves, 24 anos, já chegou a pensar que a filha, Amanda de Carneiro Gonçalves, 5 anos, fosse hiperativa. Era comum para Cinthia ser "convidada" a comparecer às escolas pelas quais a filha já passou. "Uma vez fui chamada porque Amanda tinha mordido sete crianças diferentes, num só dia", conta.

Os cadernos de Amanda eram boas amostras de seu comportamento: nas tarefas de casa, a garota fazia apenas uns rabiscos para depois ir correndo brincar.

A menina terminou ganhando o apelido de Pimentinha. "Me chamavam assim quando eu era trelosa", diz. Ana Luísa, irmã de Amanda, tem um comportamento oposto ao da irmã: quieta e introspectiva, ela classifica a irmã como "pertubosa".

Cinthia resolveu matricular Amanda numa escola onde, de acordo com ela, o problema da menina passou a ser tratado com respeito. "Logo pela manhã, antes do início das aulas, eles fazem um teste onde a criança mostra como está o seu humor naquele dia", conta. "Hoje, ela é bem mais sociável, não bate nas crianças da escola e tem mais interesse pelas tarefas".

Segundo a neuropediatra Ana Van der Linden, a genética é a responsável pela trasmissão da hiperatividade, mas fatores sociais podem contribuir para que a doença ganhe novas nuances, como a agressividade, por exemplo. "Uma criança hiperativa precisa ser cercada por muito carinho para que possa ser curada. Geralmente, o tratamento é feito à base de excitantes, que têm efeito reverso nos hiperativos", explica.


     

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