COMPORTAMENTO
INFANTIL
Quando
as crianças não ficam quietaspor FABIANA MORAES
No início,
elas são vistas apenas como
crianças bagunceiras. Quebram
vasos, correm pela casa, sobem
nos locais mais improváveis e
raramente se concentram em alguma
coisa. Depois, o comportamento
começa a preocupar: tornam-se
mais agressivas e apresentam
notas escolares insatisfatórias.
Estes são alguns dos principais
sintomas de uma doença que já
se tornou uma espécie de chavão
entre os pais: a hiperatividadede
infantil. O distúrbio, se for
levado apenas como uma questão
comportamental e não tratado por
profissionais, pode provocar
sérios danos à saúde das
crianças, que correm o risco de
tornarem-se adultos
problemáticos.
Com apenas seis
anos de idade, o pequeno Bruno
Aurélio da Silva já carrega
três cicatrizes no lado esquerdo
do rosto. Uma delas é o
resultado de uma queda que deixou
metade da sua face com uma enorme
mancha roxa durante dias. A mãe
de Bruno, Betânia Pereira, 33
anos, conta que de nada adiantam
os apelos feitos: Bruno sempre
termina fazendo o contrário.
"Ele só quer brincar de
luta com a irmã", diz
Betânia, referindo-se à sua
filha caçula, Isabela Lizandra,
de quatro anos.
O maior
problema do menino é a falta de
concentração, um dos principais
indícios da hiperatividade.
Bruno está repetindo o Jardim 2
pela segunda vez, após ter sido
reprovado no ano passado.
"Ele sempre é o último a
entregar a prova", conta
Betânia, que diz não ter
paciência suficiente para
ensinar as lições de casa ao
filho. "Ele é muito
desconcentrado, não se importa
com as lições, não demonstra
nenhum interesse. É muito
difícil". O fato terminou
na sala de uma psicóloga que
diagnosticou: Bruno sofre de
hiperatividade.
De acordo com a
neuropediatra Ana Van der Linden,
é difícil classificar uma
criança hiperativa apenas pela
sintomatologia clássica.
"É preciso que esta
criança seja avaliada por um
neurologista. A hiperatividade é
uma doença, e precisa ser
tratada à base de
remédios", alerta. A
doença já foi chamada de
disfunção cerebral mínima
(D.C.M.), uma denominação
bastante pesada, segundo a
neuropediatra. "Hoje,
preferimos chamar de Síndrome do
Distúrbio de Atenção, já que
a hipertatividade não é, de
modo algum, uma disfunção
cerebral", afirma. A doença
atinge apenas crianças com idade
na faixa dos sete, oito anos.
As principais
características de uma criança
hiperativa são a falta de
atenção e concentração, a
disgrafia (dificuldades na
escrita) e a despatricia (a
criança tropeça com
freqüência, por exemplo).
"Outro sintoma comum é a
dor de cabeça", diz Ana Van
der Linden. Ela adianta que não
se pode confundir a doença com
distúrbios de conduta. "A
hiperatividade pode vir associada
a outras doenças, como os
problemas de sono e
alimentação. Já tratei de uma
criança de apenas quatro meses
que não conseguia dormir nem se
alimentar. Ela foi diagnosticada
como hiperativa e foi medicada
durante dois meses. Nesse
período, sorriu pela primeira
vez".
SETE
MORDIDAS - A comerciária
Cinthia Carneiro Gonçalves, 24
anos, já chegou a pensar que a
filha, Amanda de Carneiro
Gonçalves, 5 anos, fosse
hiperativa. Era comum para
Cinthia ser "convidada"
a comparecer às escolas pelas
quais a filha já passou.
"Uma vez fui chamada porque
Amanda tinha mordido sete
crianças diferentes, num só
dia", conta.
Os cadernos de
Amanda eram boas amostras de seu
comportamento: nas tarefas de
casa, a garota fazia apenas uns
rabiscos para depois ir correndo
brincar.
A menina
terminou ganhando o apelido de
Pimentinha. "Me chamavam
assim quando eu era
trelosa", diz. Ana Luísa,
irmã de Amanda, tem um
comportamento oposto ao da irmã:
quieta e introspectiva, ela
classifica a irmã como
"pertubosa".
Cinthia
resolveu matricular Amanda numa
escola onde, de acordo com ela, o
problema da menina passou a ser
tratado com respeito. "Logo
pela manhã, antes do início das
aulas, eles fazem um teste onde a
criança mostra como está o seu
humor naquele dia", conta.
"Hoje, ela é bem mais
sociável, não bate nas
crianças da escola e tem mais
interesse pelas tarefas".
Segundo a
neuropediatra Ana Van der Linden,
a genética é a responsável
pela trasmissão da
hiperatividade, mas fatores
sociais podem contribuir para que
a doença ganhe novas nuances,
como a agressividade, por
exemplo. "Uma criança
hiperativa precisa ser cercada
por muito carinho para que possa
ser curada. Geralmente, o
tratamento é feito à base de
excitantes, que têm efeito
reverso nos hiperativos",
explica.