- - - -...............................................-Jornal do Commercio - Recife, 12de julho de 1998

COMPORTAMENTO INFANTIL II
Meio social tem efeito nocivo para a educação

É preciso muita cautela para diferenciar uma criança hiperativa de uma bagunceira genuína. Todo o oba-oba em torno da hiperatividade teve um efeito reverso na educação de boa parte dos pequenos, que passaram a ser classificados como doentes sem nunca ter sido avaliados por um especialista. "O que existe hoje são muitos casos de distúrbios comportamentais", diz o psicólogo Luiz Schettini, ex-professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e autor de vários livros sobre educação infantil.

Schettini lembra que o meio social é hoje um dos fatores mais nocivos para a formação do caráter infantil. "Para aliviar a culpa de não participar mais intensamente da vida dos filhos, os pais terminam sendo muito permissivos, e a criança passa a agir como se não tivesse limites", explica o psicólogo. Ele salienta que é preciso evitar qualquer tipo de repressão, como os castigos e a violência física. "Alguns atos devem ser permitidos até mesmo para que a criança perceba seus erros. Você deve deixar ela rasgar uma revista, por exemplo, mas nunca brincar com uma gilete".

A psicóloga Maria Antonieta de Albuquerque faz coro com Schettini: "A repressão gera violência, inibição, sentimento de injustiça. A falta de limites torna a criança sem referenciais, e, conseqüentemente, perdida", diz Antonieta, que há 29 anos integra a equipe de apoio ao estudante do Instituto Helena Lubienska, na Torre. Ela diz que o aumento do estresse e dos problemas financeiros vem fazendo dos pais espécies de parceiros dos filhos na questão da falta de educação. "É preciso que haja um maior espaço para o diálogo", acrescenta.

Outro problema enfrentado por pais e professores é o aumento da agressividade entre crianças e adolescentes. A educadora Fátima Morais, da Escola Recanto, diz que a escola vem realizando uma campanha contínua contra o aumento da violência e da agressividade entre os alunos. "Os pais precisam desestimular o uso de brinquedos violentos", setencia.

CARÃO E CARINHO - De acordo com Luiz Schettini, a agressividade é um sentimento positivo, desde que não seja excessivo. "Se não fôssemos agressivos, seríamos destruídos com mais facilidade", diz, lembrando que agressividade e violência são atitudes diferentes, geralmente estimuladas pelos mais velhos. Para ele, presentes como armas e jogos virtuais violentos podem causar essa agressividade exarcebada, mas é nocivo alienar a criança da realidade. "Não temos que estimular a violência, é, claro, mas seria muito perigoso encobrir o meio em que eles vivem".

A professora Idalina Maria de Oliveira, 40 anos, diz que até bem pouco tempo não conseguia entrar com o filho Igor, de 5 anos, numa loja ou supermercado. "Ele não obedecia, saia correndo pelos corredores, derrubava coisas", lembra. Idalina pensou em levar o filho a um piscólogo, mas encontrou uma saída menos drástica: procurou uma escola onde o filho começou a aprender judô, um dos esportes recomendados para crianças que apresentam mais energia que o comum.

"Os pais tem que tentar entender a realidade da criança e procurar ajudá-las. Isso não quer dizer que eles tenham que ser permissivos. É preciso dar carão com carinho", diz o piscólogo Schettini, parafraseando o título de um dos seus livros, Carão com Carinho.


     

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