-- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 12 de julho de 1998

ÁFRICA
Polêmica marca guerra no Burundi

por TODD PITMAN
Agência Reuters

BUJUMBURA - Ninguém sabe quantas pessoas foram mortas durante os cinco anos da sangrenta guerra civil na centro-africana nação do Burundi. Todos concordam que tanto pessoas da maioria hutu quanto da minoria tutsi morreram - e continuam a morrer - em grandes números, mas poucos sabem dizer a quantidade.

Os grupos de direitos humanos, a mídia e o governo do Burundi estimam que entre 100 mil e 200 mil pessoas, a maioria civis, foram mortas como resultado direto do conflito ocorridos desde 1993. Mas os números são apenas isso: estimativas.

"Se tornou impossível ter uma idéia precisa no momento", disse Alison Dilworth, uma pesquisadora especialista da Anistia Internacional em Londres. "Nós temos muitos comunicados de mortes. Mas não temos condições de verificar todos eles, então só podemos fazer uma adivinhação aproximada".

O ponto de partida para a atual crise no Burundi é outubro de 1993, o mês em que o primeiro presidente do país eleito democraticamente, Melchior Ndadaye, um hutu, foi assassinado por tropas tutsis em uma tentativa de golpe.

Seu assassinato - junto com os de outros políticos importantes - levou a uma onda de massacres e a uma guerra civil entre rebeldes hutus e as tropas do governo na qual dezenas de milhares morreram.

No escritório de um proeminente político de oposição hutu, há pilhas de papéis de documentos rasgados e contas não confirmadas de mortes na forma de cartas sem assinatura de cidadãos anônimos sobre um período de muitos anos.

A maioria dos relatórios - muitos dos quais dizem respeito a atrocidades atribuídas ao exército - nunca serão investigados. E poucos, se algum, será levado à imprensa.

INFLUÊNCIA - Diplomatas dizem que o governo, dominado pela etnia tutsi, detém uma poderosa influência sobre a pequena rádio do país e sobre as estações de televisão, e existem poucas outras fontes de informação.

Ao mesmo tempo, o acesso independente para jornalistas e monitores de direitos humanos das Nações Unidas às zonas de combate é limitado, tornando difícil verificar a maioria dos relatórios no local.

Jornalistas dizem que o fluxo livre de informações também é comprometido pelo medo, com administradores, camponeses e prestadores de ajuda relutantes em reportar a maioria das atrocidades com medo das represálias.

A maior parte concorda que a maioria das mortes ocorreu nos poucos primeiros meses após o assassinato de Ndadaye. A etnia tutsi, que compreende 14% da população estimada de seis milhões do Burundi, diz que os hutus lançaram um genocídio contra eles após o assassinato, enquanto os hutus acusam o exército de represálias brutais.

Alison des Forges, uma consultora do Human Rights Watch em Nova York, fez parte de uma comissão internacional de grupos de direitos humanos criada para investigar os eventos que imediatamente seguiram o golpe.

"Fomos aos especialistas militares estrangeiros e perguntamos como eles faziam as estimativas do grande número de casualidades, e a resposta foi que era um palpite", disse des Forges.

"Então tentamos chegar a um número que fosse razoável. Nós reunimos informações de autoridades locais e da Cruz Vermelha, e chegamos a uma estimativa que ficou entre 25 mil e 50 mil".

AMPLIAÇÃO - Mas des Forges disse que esses números iniciais foram ampliados para 100 mil em várias contas da imprensa, e então inflacionados nos anos subseqüentes com o surgimento de novas estimativas de mortes.

"O que vimos foi uma estável inflação de números desde 1993, sem indicações reais de como esses números foram preparados", afirmou ela. A intensidade emocional de testemunhar massacres em larga escala geralmente leva as pessoas a aumentar o número de casualidades, adicionou des Forges.

"Basicamente, quando há muitos mortos, as pessoas são dominadas. Elas terão visto centenas de corpos e dirão terem visto milhares".

A Human Rights Watch coloca o número total de mortes desde 1993 entre 100 mil e 150 mil - um número baseado em relatórios da imprensa e outras pesquisas feitas no Burundi.

Oficiais da Anistia colocam os números de cinco anos em 150 mil, mas dizem que suas fontes são secretas. Louis-Marie Nindorera, diretor-executivo do grupo de direitos com base em Bujumbura, a Liga Iteka, contou que as influências étnicas e o pobre sistema de relatos também prejudicaram tentativas de computar os números.


 
 

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