ÁFRICA
Polêmica
marca guerra no Burundipor TODD PITMAN
Agência Reuters
BUJUMBURA -
Ninguém sabe quantas pessoas
foram mortas durante os cinco
anos da sangrenta guerra civil na
centro-africana nação do
Burundi. Todos concordam que
tanto pessoas da maioria hutu
quanto da minoria tutsi morreram
- e continuam a morrer - em
grandes números, mas poucos
sabem dizer a quantidade.
Os grupos de
direitos humanos, a mídia e o
governo do Burundi estimam que
entre 100 mil e 200 mil pessoas,
a maioria civis, foram mortas
como resultado direto do conflito
ocorridos desde 1993. Mas os
números são apenas isso:
estimativas.
"Se tornou
impossível ter uma idéia
precisa no momento", disse
Alison Dilworth, uma pesquisadora
especialista da Anistia
Internacional em Londres.
"Nós temos muitos
comunicados de mortes. Mas não
temos condições de verificar
todos eles, então só podemos
fazer uma adivinhação
aproximada".
O ponto de
partida para a atual crise no
Burundi é outubro de 1993, o
mês em que o primeiro presidente
do país eleito democraticamente,
Melchior Ndadaye, um hutu, foi
assassinado por tropas tutsis em
uma tentativa de golpe.
Seu assassinato
- junto com os de outros
políticos importantes - levou a
uma onda de massacres e a uma
guerra civil entre rebeldes hutus
e as tropas do governo na qual
dezenas de milhares morreram.
No escritório
de um proeminente político de
oposição hutu, há pilhas de
papéis de documentos rasgados e
contas não confirmadas de mortes
na forma de cartas sem assinatura
de cidadãos anônimos sobre um
período de muitos anos.
A maioria dos
relatórios - muitos dos quais
dizem respeito a atrocidades
atribuídas ao exército - nunca
serão investigados. E poucos, se
algum, será levado à imprensa.
INFLUÊNCIA -
Diplomatas dizem que o governo,
dominado pela etnia tutsi, detém
uma poderosa influência sobre a
pequena rádio do país e sobre
as estações de televisão, e
existem poucas outras fontes de
informação.
Ao mesmo tempo,
o acesso independente para
jornalistas e monitores de
direitos humanos das Nações
Unidas às zonas de combate é
limitado, tornando difícil
verificar a maioria dos
relatórios no local.
Jornalistas
dizem que o fluxo livre de
informações também é
comprometido pelo medo, com
administradores, camponeses e
prestadores de ajuda relutantes
em reportar a maioria das
atrocidades com medo das
represálias.
A maior parte
concorda que a maioria das mortes
ocorreu nos poucos primeiros
meses após o assassinato de
Ndadaye. A etnia tutsi, que
compreende 14% da população
estimada de seis milhões do
Burundi, diz que os hutus
lançaram um genocídio contra
eles após o assassinato,
enquanto os hutus acusam o
exército de represálias
brutais.
Alison des
Forges, uma consultora do Human
Rights Watch em Nova York, fez
parte de uma comissão
internacional de grupos de
direitos humanos criada para
investigar os eventos que
imediatamente seguiram o golpe.
"Fomos aos
especialistas militares
estrangeiros e perguntamos como
eles faziam as estimativas do
grande número de casualidades, e
a resposta foi que era um
palpite", disse des Forges.
"Então
tentamos chegar a um número que
fosse razoável. Nós reunimos
informações de autoridades
locais e da Cruz Vermelha, e
chegamos a uma estimativa que
ficou entre 25 mil e 50
mil".
AMPLIAÇÃO -
Mas des Forges disse que esses
números iniciais foram ampliados
para 100 mil em várias contas da
imprensa, e então inflacionados
nos anos subseqüentes com o
surgimento de novas estimativas
de mortes.
"O que
vimos foi uma estável inflação
de números desde 1993, sem
indicações reais de como esses
números foram preparados",
afirmou ela. A intensidade
emocional de testemunhar
massacres em larga escala
geralmente leva as pessoas a
aumentar o número de
casualidades, adicionou des
Forges.
"Basicamente,
quando há muitos mortos, as
pessoas são dominadas. Elas
terão visto centenas de corpos e
dirão terem visto
milhares".
A Human Rights
Watch coloca o número total de
mortes desde 1993 entre 100 mil e
150 mil - um número baseado em
relatórios da imprensa e outras
pesquisas feitas no Burundi.
Oficiais da
Anistia colocam os números de
cinco anos em 150 mil, mas dizem
que suas fontes são secretas.
Louis-Marie Nindorera,
diretor-executivo do grupo de
direitos com base em Bujumbura, a
Liga Iteka, contou que as
influências étnicas e o pobre
sistema de relatos também
prejudicaram tentativas de
computar os números.