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NA GRANDE
ÁREA
Armando
Nogueira
Um
filme épico
PARIS -
Final é ponto final. Derradeira
escala de uma grande aventura.
Tantas vezes chegou aí o Brasil
que não seria soberba de minha
parte dizer que o vejo em casa,
muito à vontade. Os jogadores
são outros? Sem dúvida. A alma,
porém, é aquela mesma que
inflamou o Brasil na Copa de 58,
o princípio da glorificação.
A Copa do Mundo
é um filme que começou a ser
rodado dia 10 de junho, com o
máximo de suspense e sem script.
Espécie de folhetim, obra aberta
que veio nascendo a cada jogo. O
epílogo dá-se hoje, num
diálogo heróico.
E como ninguém
entende mais de final do que o
Brasil é de imaginar que o happy
end desse filme épico estará
nas mãos de Taffarel e nos pés
de Ronaldo, os astros prediletos
dos fados do esporte.
A ÚLTIMA
NOITE - A expressão é quase
um clichê do esporte: que ganhe
o melhor. É o que mais ouço em
Paris, no dia da final da Copa.
Sem dúvida, uma frase ideal pra
encerrar um papo de futebol. Mas,
que, na verdade, não resiste a
um minuto de reflexão. Sincero
ou não, esse voto, no futebol,
conta muito pouco. Nem sempre
vence o melhor. Até que noutros
esportes coletivos tem sentido.
Em basquete, em vôlei, muito
bem. No futebol, mesmo que se
retoque a frase e se diga: vence
quem jogar melhor!, mesmo assim,
pode acontecer justamente o
contrário: quem pior jogou acaba
derrotando o melhor.
Se o amigo
leitor concorda com as
considerações que acabo de
fazer, poderemos concluir,
juntos, que, hoje, tanto pode dar
Brasil como França.
Todo mundo
está cansado de saber - e de ver
- que o futebol brasileiro sempre
esteve furos acima do francês. A
técnica individual é superior,
a experiência é bem maior. Da
tradição, que pesa muito, nem
é preciso falar. O Brasil já
passou por cinco finais e só em
uma não se deu bem. A França,
ao contrário, nunca provou desse
manjar. É a primeira vez. E, na
primeira noite, o coração
dispara, quando não pára.
Pois ainda
assim, eu vos digo, do alto da
minha prosopopéia: todo cuidado
é pouco. O futebol é um esporte
de imprecisões, de caprichos, de
estranhos sortilégios. Numa
partida de decisão, as forças
físicas e mentais redobram. A
França está cercada bem de
perto pelo calor humano de uma
nação inteira.
Portanto, é de
esperar que a Seleção tenha
perfeita consciência do tamanho
do desafio. Que jogue o futebol
que Deus concedeu, como graça
divina, aos meninos do Brasil.
Que Ronaldo, Rivaldo, Bebeto,
Dunga, César Sampaio, que todos,
enfim, transformem a final de
Saint Dennis em mais uma
consagração do mais bonito
futebol do mundo. Futebol de
amadas fulgurações.
E que, no fim
do jogo, todos possam proclamar,
aí, sim, com inteira justiça e
de todo coração: venceu o
melhor!
A FRANÇA
SEM BLANC - A seleção da
França tem a defesa mais
consistente da Copa. Dá gosto de
ver como a linha de zagueiros e a
meia-cancha funcionam em perfeita
harmonia. Tem dois laterais que,
a meu ver, poderiam entrar no
time do Brasil sem que
tivéssemos saudades de Cafu e de
Roberto Carlos. O direito Thuram
é um estilista. O outro, o basco
Lizarazu, é dinâmico,
incansável.
Em
compensação, o ataque francês
é de uma infertilidade
desoladora. Ronda a área
inimiga, o tempo todo, mas nada
faz acontecer. É como certas
árvores: frondosas, afetuosas,
mas que nunca dão frutos.
A defesa da
França joga contra o Brasil,
hoje, sensivelmente,
enfraquecida. Foi suspenso o seu
principal zagueiro: Laurent
Blanc. Ele não é só um craque.
É também o líder da equipe. A
imprensa daqui faz uma festa
danada. Canta, em verso e prosa,
o futebol de Zidane. Mas, quem
dá o tom da equipe é Laurent
Blanc. Ele é o fervor, o elã.
Sem ele, a França joga a final,
já não digo de crista baixa,
porém, bem mais vulnerável, sob
o plano técnico e mental.
RÁPIDAS E
RASTEIRAS - A Seleção
Francesa está queixosa da frieza
do público no Stade de France.
Acha que a torcida é apática.
"Só tem gente rica, de
terno e gravata, ou convidados da
Fifa e do Comitê de Platini. O
povo mesmo, esse fica do lado de
fora, vendo em casa ou nos
telões da esquina." *** A
televisão francesa TF1 está nas
nuvens com o índice de
audiência dos jogos da França
na Copa. A semifinal
França-Croácia chegou à casa
dos 67,5 por cento, ou seja, mais
de vinte milhões de
telespectadores. Hoje, na
decisão, esse recorde,
inimaginável, pra um país onde
o futebol, até então, não
tinha essa bola toda, certamente
será ultrapassado. *** Aposta é
coisa sagrada: dois croatas
apostaram no resultado
França-Croácia. O perdedor
tinha que pagar dois mil
dólares. Na hora H, só tinha
500 dólares. Pra honrar a
palavra, deu ao ganhador a
própria mulher, uma loura de 37
anos. O outro aceitou no ato.
Ficou, porém, acertado que não
era transferência de
propriedade. O bem é cedido
apenas em usufruto... *** O
Brasil sai dessa Copa melhor do
que saiu em 94, em matéria de
gol. Já está com 2,3 por jogo.
Nos Estados Unidos, ficou na
modesta cifra de 1,7. Bom mesmo
foi em 70: a seleção, campeã
do mundo, no México, faturou 3,2
gols por partida. Bons tempos de
vacas gordas! *** Se o futebol
sul-americano encanta os
franceses, o mesmo não se pode
dizer dos pickpockets
equatorianos e chilenos. Eles
invadiram a França querendo se
dar bem nessa Copa. A polícia
francesa já prendeu quarenta.
São reles batedores de carteira
cujo alvo são os restaurantes de
luxo, os hotéis, os grandes
magazines, e os aeroportos. ***
Veja só, leitor, a doidice que o
futebol deflagra entre os homens.
A Tailândia que tem tanto a ver
com o futebol quanto eu com a
ciência quântica - pois a
Tailândia criou um serviço
telefônico pras mulheres que se
sintam desprezadas pelos maridos
nesses dias de Copa do Mundo. Os
caras passam o dia inteiro por
conta do Mundial e as mulheres, a
ver navios.
Colaboraram
Paulo Cesar Vasconcelos e Andréa
Escobar
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