-- - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -- - - -Jornal do Commercio - Recife, 12 de julho de 1998


NA GRANDE ÁREA
Armando Nogueira

Um filme épico

PARIS - Final é ponto final. Derradeira escala de uma grande aventura. Tantas vezes chegou aí o Brasil que não seria soberba de minha parte dizer que o vejo em casa, muito à vontade. Os jogadores são outros? Sem dúvida. A alma, porém, é aquela mesma que inflamou o Brasil na Copa de 58, o princípio da glorificação.

A Copa do Mundo é um filme que começou a ser rodado dia 10 de junho, com o máximo de suspense e sem script. Espécie de folhetim, obra aberta que veio nascendo a cada jogo. O epílogo dá-se hoje, num diálogo heróico.

E como ninguém entende mais de final do que o Brasil é de imaginar que o happy end desse filme épico estará nas mãos de Taffarel e nos pés de Ronaldo, os astros prediletos dos fados do esporte.

A ÚLTIMA NOITE - A expressão é quase um clichê do esporte: que ganhe o melhor. É o que mais ouço em Paris, no dia da final da Copa. Sem dúvida, uma frase ideal pra encerrar um papo de futebol. Mas, que, na verdade, não resiste a um minuto de reflexão. Sincero ou não, esse voto, no futebol, conta muito pouco. Nem sempre vence o melhor. Até que noutros esportes coletivos tem sentido. Em basquete, em vôlei, muito bem. No futebol, mesmo que se retoque a frase e se diga: vence quem jogar melhor!, mesmo assim, pode acontecer justamente o contrário: quem pior jogou acaba derrotando o melhor.

Se o amigo leitor concorda com as considerações que acabo de fazer, poderemos concluir, juntos, que, hoje, tanto pode dar Brasil como França.

Todo mundo está cansado de saber - e de ver - que o futebol brasileiro sempre esteve furos acima do francês. A técnica individual é superior, a experiência é bem maior. Da tradição, que pesa muito, nem é preciso falar. O Brasil já passou por cinco finais e só em uma não se deu bem. A França, ao contrário, nunca provou desse manjar. É a primeira vez. E, na primeira noite, o coração dispara, quando não pára.

Pois ainda assim, eu vos digo, do alto da minha prosopopéia: todo cuidado é pouco. O futebol é um esporte de imprecisões, de caprichos, de estranhos sortilégios. Numa partida de decisão, as forças físicas e mentais redobram. A França está cercada bem de perto pelo calor humano de uma nação inteira.

Portanto, é de esperar que a Seleção tenha perfeita consciência do tamanho do desafio. Que jogue o futebol que Deus concedeu, como graça divina, aos meninos do Brasil. Que Ronaldo, Rivaldo, Bebeto, Dunga, César Sampaio, que todos, enfim, transformem a final de Saint Dennis em mais uma consagração do mais bonito futebol do mundo. Futebol de amadas fulgurações.

E que, no fim do jogo, todos possam proclamar, aí, sim, com inteira justiça e de todo coração: venceu o melhor!

A FRANÇA SEM BLANC - A seleção da França tem a defesa mais consistente da Copa. Dá gosto de ver como a linha de zagueiros e a meia-cancha funcionam em perfeita harmonia. Tem dois laterais que, a meu ver, poderiam entrar no time do Brasil sem que tivéssemos saudades de Cafu e de Roberto Carlos. O direito Thuram é um estilista. O outro, o basco Lizarazu, é dinâmico, incansável.

Em compensação, o ataque francês é de uma infertilidade desoladora. Ronda a área inimiga, o tempo todo, mas nada faz acontecer. É como certas árvores: frondosas, afetuosas, mas que nunca dão frutos.

A defesa da França joga contra o Brasil, hoje, sensivelmente, enfraquecida. Foi suspenso o seu principal zagueiro: Laurent Blanc. Ele não é só um craque. É também o líder da equipe. A imprensa daqui faz uma festa danada. Canta, em verso e prosa, o futebol de Zidane. Mas, quem dá o tom da equipe é Laurent Blanc. Ele é o fervor, o elã. Sem ele, a França joga a final, já não digo de crista baixa, porém, bem mais vulnerável, sob o plano técnico e mental.

RÁPIDAS E RASTEIRAS - A Seleção Francesa está queixosa da frieza do público no Stade de France. Acha que a torcida é apática. "Só tem gente rica, de terno e gravata, ou convidados da Fifa e do Comitê de Platini. O povo mesmo, esse fica do lado de fora, vendo em casa ou nos telões da esquina." *** A televisão francesa TF1 está nas nuvens com o índice de audiência dos jogos da França na Copa. A semifinal França-Croácia chegou à casa dos 67,5 por cento, ou seja, mais de vinte milhões de telespectadores. Hoje, na decisão, esse recorde, inimaginável, pra um país onde o futebol, até então, não tinha essa bola toda, certamente será ultrapassado. *** Aposta é coisa sagrada: dois croatas apostaram no resultado França-Croácia. O perdedor tinha que pagar dois mil dólares. Na hora H, só tinha 500 dólares. Pra honrar a palavra, deu ao ganhador a própria mulher, uma loura de 37 anos. O outro aceitou no ato. Ficou, porém, acertado que não era transferência de propriedade. O bem é cedido apenas em usufruto... *** O Brasil sai dessa Copa melhor do que saiu em 94, em matéria de gol. Já está com 2,3 por jogo. Nos Estados Unidos, ficou na modesta cifra de 1,7. Bom mesmo foi em 70: a seleção, campeã do mundo, no México, faturou 3,2 gols por partida. Bons tempos de vacas gordas! *** Se o futebol sul-americano encanta os franceses, o mesmo não se pode dizer dos pickpockets equatorianos e chilenos. Eles invadiram a França querendo se dar bem nessa Copa. A polícia francesa já prendeu quarenta. São reles batedores de carteira cujo alvo são os restaurantes de luxo, os hotéis, os grandes magazines, e os aeroportos. *** Veja só, leitor, a doidice que o futebol deflagra entre os homens. A Tailândia que tem tanto a ver com o futebol quanto eu com a ciência quântica - pois a Tailândia criou um serviço telefônico pras mulheres que se sintam desprezadas pelos maridos nesses dias de Copa do Mundo. Os caras passam o dia inteiro por conta do Mundial e as mulheres, a ver navios.

Colaboraram Paulo Cesar Vasconcelos e Andréa Escobar

 
 

 

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